Não existe coisa mais perigosa que o relativismo.  Frases comuns: “Todos são iguais” , “Nada vai mudar” ,”Sempre foi assim”. E o mundo segue mudando e nada será como antes. Até para apontar lugares comuns usamos lugares comuns. Um punhado de clichês assinalados para um mundo que vive repetindo clichês nas falas e nos fatos. Uma via expressa para a barbárie.

Como se livrar desse impasse? Virar as costas e comprar um sorriso cínico para confortar dores e angustias passadas? Tripudiar sobre as ideologias como se num passe de mágica nossas vidas fossem vacinadas contra qualquer contradição?

São várias as opções confortáveis.

Vivemos no último final de semana a indignação,o sentimento de impotência frente a desocupação arbitrária dos moradores de Pinheirinhos – São José dos Campos (terreno há cinco anos ocupado), feita na manhã de um domingo nublado, à revelia de uma liminar da Justiça Federal, pela PM paulista sobre o mando do Governador Alckimin com o respaldo da Justiça Paulista. Parece que falo de países diferentes. Não, não é a mesma federação. E o país é governado sobre um pacto federativo. Supostamente.

Helicópteros, dois mil policiais, tropa de choque, rota, guarda municipal, uma liminar ignorada na calada de uma tarde de sexta e uma cobertura bem especial dos veículos de comunicação, distorção pela força e pelo convencimento palavrório. No amanhecer de domingo, simbolicamente sagrado para os descanso dos “bons homens”. E a ocupação passa ser de forma abrupta a memória dos sem teto.

Não se trata aqui de ficar batucando sobre interpretações juridicosas ou retóricas político partidárias. Os argumentos fortes para reduzir os danos e a gravidade dos fatos, ora são jurídicos, ora partidários. O ponto central é que foram colocadas em jogo vidas humanas. Que na verdade tem sua sorte rifada no contrapelo de um país (e ai não há relativização partidária que segure) onde a reforma agrária, a reforma urbana e a  questão da propriedade são colocadas num invólucro sagrado e congelada pela esquerda e pela direita. O sagrado.

Criminalizar os movimentos sociais e neutraliza-los tem o mesmo efeito. Jogar no bolso oculto da história o que caminha à revelia de pactos partidários costurados na preservação de poder é impossível. De algum jeito as contradições vêm a tona, com gritos e protestos, conflitos e, infelizmente, muitas vezes com sangue. Não cabe publicizar o sangue para ganhar uma eleição, como não cabe esconder o sangue para ganhar a mesma eleição. O maior escárnio é que isso tem cabido sempre. E não é pelo pacto federativo, tampouco pelas pessoas.

Pinheirinho não se resolverá na eleição para prefeito. A força e a truculência que juntam Pinheirinho à Cracolândia não são produto de mera relação causal. É um método claro e uma via política escolhida. Resta-nos apoiar ou combater. Não adianta pedir para ignorar por mero casuísmo. Pouco se faz apenas com o voto neste ou naquele, voto este  que funciona na maioria das vezes como desencargo de consciência. Não basta escolher, há que se construir o caminho. E assim ratificar que nem todos são iguais.

Soa ingênua, neste tempos de cinismos, uma constatação óbvia.

O mundo parece se engessar em velhos impasses. Que se renovam, que mudam de face, que se apresentam de formas diversas.

A música comunica rápido. Imagens e palavras. E a história se repete…

Onze e cinqüenta e dois. Minha roupa de garçom já esta velha, rota. Cada garfada é uma a menos na conta da hora de ir embora. Tomara que não peçam o expresso, a máquina mal esquenta a água e já faz tempo. Claro que sempre reclamam. Que reclamem, apenas peço que reclamem olhando pra minha cara, reclamar com indiferença não rola.

Meia noite em ponto. O tempo não passou hoje, o auxiliar de cozinha faltou, o menino que fica lá como auxiliar do auxiliar tomou o lugar do iniciado. Uma emoção para ele. O contraste com os rostos entediados pela rotina é nítido. Rostos e mãos fazendo a mesma coisa há muito tempo. Os movimentos do rapaz eram estudados e pareciam até divertidos. Felicidade do iniciante.

Meia-noite e nove. Único casal no salão. A moça entusiasmada conversa sobre assuntos confusos e o rapaz tentava a todo o momento desviar a conversa. Ele desconversava com seus olhares e trejeitos.Tenho certeza que queria partir para um lado que desembestasse logo para a sacanagem. Na vera, não tenho certeza de porra nenhuma, só sei do relógio. O relógio bate toda hora e não chega nunca no ponto.

Meia noite e dezoito. Dezenas de talheres no lava-louças, um barulho infernal de máquina velha, uma vontade pirada de fumar. O cigarro item maldito onde se come e onde se serve. Não se fuma em restaurante, claro, muito menos o garçom, dos bandidos seria o maior se o fizesse. Fumante é bandido. Penso no cigarro queimando pendurado na boca, penso quase a fumaça, nem preciso de cinzeiro, imagino. O meu cigarro não poderia ter cinzas neste ambiente.

Meia noite e vinte e sete. O rapaz gordinho põe na boca o ultimo tequinho de brownie, o sorvete branco já fora, a moça de óculos de aros fininhos continua falando coisas complicadas e acho que ele resolveu compensar nas calorias. Come rápido e dá pra sentir o olhar de quem quer mais comida. São varias etapas na noite, nesta etapa acaba a tolerância e tudo vira uma grande massa incompreensível, distorcida. Perco a simpatia pela causa inglória do rapaz.

Meia noite e quarenta.  Lá vem o guardador de carro contar mais uma mentira absurda, a capa laranja berrante dobrada embaixo do braço explica o fim do dia. Suas mentiras são relativizadas por um sorriso simpático, que certamente vira carranca quando ele ta no bico de domingo, cambista no Pacaembu, Morumbi, porta de shows. Faço uma digressão e penso neste cara me vendendo um ingresso com preço majorado naquelas ruas lotadas de dia de jogo. A raiva vai crescendo. Ele some da minha vista.

Meia noite e cinqüenta e dois. A moça tira os óculos fininhos e o rapaz volta do banheiro trombando tudo, fuça alguma coisa no celular e sorri…para o celular, ficam mudos por segundos. A conta esperando pra ser paga.

Meia noite e cinquenta e oito. Coloquei a máquina de débito e crédito perto e não se manifestavam. Fiquei parado do lado, quase congelado. A conversa dos dois foi tão descompassada a noite toda, que na chegada de um terceiro (eu, o garçom) eles calam, não querem compartilhar o descompasso.

Uma e um minuto da manhã. A cena muda um pouco:  trocam olhares, cochicham, riem, talvez, por falta de assunto. Mas nada se resolve, cada qual no seu lado. Instante curto. Intervalo interminável.

Uma e nove da manhã. O guardador de carros fala um tchau com jeito sacana some pela porta, na certa para o boteco mais próximo. Inveja. Vou chegar novamente duas e tanto em casa, a cada vacilada do gordinho perco a chance de pegar o ônibus da uma e vinte e cinco, não vai rolar. Não vou culpar ninguém, o rapaz não conseguiu nenhum beijo, nada, nada e o brownie, eu sei bem, tava velho. Dou um desconto para o vacilo, para a demora.

Uma e dezessete da manha. Tô ainda de roupa branca a essa hora e isso quer dizer dormir tarde. O auxiliar do auxiliar se escafedeu pela porta dos fundos. Vestido com uma roupa diferente deve dormir por ali mesmo ou ganhar a madrugada na esbórnia. Bom. Todo mundo no rumo, só o gerente confere o caixa pela última vez.

Uma e vinte e três da manhã. O rapaz gordinho e a menina dos óculos de aros finos, finalmente saem, chamam o taxi. No fundo de tudo o meu ônibus passando devagarzinho. O “uma e vinte e cinco” adiantou. Vejo minha cama lá longe. Culpa do sistema de transportes. Que saco!

Uma e trinta e quatro da manhã. Sou apenas o garçom sem o uniforme no ponto de onibus, sozinho.

Dedicado a Marcio Montarroyos

Não, não é a busca por coerência.

Apregoar afinidades eletivas, emendar a fala de que a magia conspirou? Prever, antever, discursar sobre a consequência, discutir um encontro antes dele acontecer?

Saídas fáceis.

O prólogo se facilita ainda mais quando esse encontro resulta em beleza, a beleza não prevista e definida por ensaios e arranjos definidos.

Um carioca, um mineiro e um cearense.

Percussão, flugelhorn, violão.

O caminho da música de cada um é diverso, não se trata de discorrer sobre as escolhas, as influências, a obra pronta de cada. Não é tão somente geografia e experiência.

O retrato da execução de uma canção, o registro de sua trajetória, a gente capta sozinho, em público. É que muitas vezes esquecemos e lembramos como recado posterior da vida. Guardado, fica para nós, e satisfaz quando podemos jogar no coletivo.

A canção, como tudo, fica bem melhor com o outro.

A música é de Nonato Luiz, o cearense. Na lida vêm Djalma Correa, o mineiro, e Marcio Montarroyos, o carioca que infelizmente nos deixou, eles dão cores à execução.

No instante que jamais poderia ser previsto.

“Um dia, um sonho”:

A loucura se reveste de varias e infinitas formas; é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta; é uma porção de coisas diferentes. 

Lima Barreto – trecho de Cemitério dos Vivos

O taxista Gilberto, 12 anos trabalhando na região da Cracolândia, fala sem pensar muito:

- Tem “nóia”, tem menino aventureiro, ladrão, traficante, gente desiludida … e muita tristeza…

Gilberto fica parado na Avenida Rio Branco, perto do quadrilátero que já foi chamado do prazer, perto da zona, perto do fim da cidade.

A semana da eugenia, da gentrificação, do higienismo, do “vamos vencer pela dor” marca um divisor de águas. Varrer a droga é difícil, então é melhor varrer as pessoas. Não, não, nunca houve uma interrupção na lógica de expulsar. Do centro pra longe. O centro é a síntese da exclusão que a cidade opera no geral. O centro não pode ser dos “nóias”. Avante, espírito bandeirante.

E pergunto ao menino seu nome, ele diz que não tem nome há bastante tempo. Não insisto, seu nome foi embora e ficou o olho retesado, o resquício de ironia que ele arranca da boca e me faz sorrir, meio torto:

- Minha família tá perdida na quebra, na ZL, eu tô aqui… não tô perdido…tio, depois desse lance da Copa do Mundo a coisa melhora, mas os coxinha … as noites são de horror.

Eu fico com meu pensamento confortável a imaginar as noites de horror, de sono interrompido, de sono inexistente. A vida porrada não é videogame. O menino vai embora e dá de ombros dizendo que o um real que eu dei pra ele é falso. Sorri maneiro, ele não tem nome, mas ainda tem graça. Some na rua qualquer.

Manhã de sábado, o sol estalando, o comércio correndo solto. Nas bordas da Rua Santa Ifigênia se vende de tudo. Tem gente circulando, não como sempre, pois, mês de férias. Mas o movimento dos nóias é diferente. Um sem rumo, não pode aglomerar, nem bodar na calçada. Tem que circular, os olhos vidrados parecem faróis no meio do clarão do sol, a cidade grande fica pequena. Cobertor encardido, roupa no corpo há dias, mão tremendo, sorriso indefinido, o olhar em lugar nenhum. Não tem glamour nesta droga.

E de novo Gilberto, o taxista:

- Aos poucos os moradores de rua foram se misturando ao exército da droga e aí ninguém sabia mais quem era quem. Conheço morador de rua que virou nóia, que virou puta, as pessoas mudam toda hora de lugar nesta vida…

É evidente que em meio aos viciados em crack nas ruas, têm famílias inteiras, solitários, os perdedores de sempre. A droga é parte da coisa. A quantidade de pessoas pelo centro de SP andando a esmo com os olhos estalados pela química, pelo medo, pela desorientação é impressionante. Os catadores de papel solidários entre si, em geral com suas garrafinhas de plástico com pinga e seus cachorros inseparáveis.

Pedro do Boné, catador de papel, 15 anos na rua, golando uma branquinha:

- Os nóias se esticam por ai como a gente. Não incomodam. Não mexendo no meu carrinho, vivo a vida.

Não cabe romantismo, são vários tipos, o rapaz que veste roupas de marca e que parece apenas ter dormido uma noite por ali. Não esta no trapejo, na batida das ruas. Será “nóia”, será “trafica”, meio cismado, misturado ao exército de tipos de rua, cochicha no ouvido de um rapaz e saí vazado pela Rua Vitória. Ao olho nú de quem passa rápido é mais um. Volta depois e faz o movimento. Na função, normalmente.

O moço cismado, com a camisa do Atlético – MG sentado no sujinho:

- Continua tudo rolando, nada mudou. Quem ganha dinheiro continua a ganhar, quem perde a vida… nóia? Só espalharam por aí…

No sujinho perdura a falação, o sentimento geral é de que não vai ter jeito, os nóias vão voltar. Os anos passaram e a convivência com o crack, com os pedreiros e com o movimento ao redor faz parte da vida daquela gente. Tem a violência, a sujeira, as relações se misturam: medo, desprezo, compaixão, repulsa, uma solidadariedade ali e aqui. A cerveja é quente demais. Peço uma Brahma que saí da geladeira formal. Quente.

O espaço é confinado. No meio da Duque de Caxias, um brutamonte com um taco de baseball na mão e capacete de motoqueiro cravado na cabeça corre atrás de uma dúzia de nóias. Blade Runner. A fala é seca, o brutamonte: vocês já conhecem a gente, é simples, só vazar… os rapazes, velhos, crianças, moças, aos trancos e barrancos correm e vazam e nem sabem para onde. Uns xingam, quixotes.

Volto ao Gilberto, o taxista:

- Quem são esses caras com taco de baseball?

– Seguranças das lojas… bom, você não vai me complicar?

Tranqüilizo o capixaba que mora no centro desde 1993 e trabalha como taxista desde 2000:

- Não tenho como, não vou e não quero te prejudicar, no máximo ponho isso no blog e você se chamará Gilberto, ok?

- Esses caras são de empresas de segurança e ficam ali, eles não batem em ninguém, apenas dispersam o povo. Nóia tem lei, morador de rua tem lei, segurança tem lei… agora eles entenderem a lei dos PMS…vixe…

O debate do boteco come solto. A conversa passa sobre o prédio que não caiu (acham que roubaram a dinamite), assuntos locais, futebol, as correrias de cada um… e claro, os nóias. A cerveja quente no dia quente já não faz diferença.

O amigo do atleticano, com sotaque forte do interior de São Paulo arremata:

- É como barata, não tem jeito, tem que matar, senão volta em dobro. Outro dia dei uns trocados pra um deles, voltou com uma faca para me roubar na mesma hora. Trabalho aqui e tenho que me defender, dei umas pauladas… é como barata...

Passei por várias praças, todos com carros da PM estacionados. Nem sempre é assim tão rigoroso. Largo Santa Ifigênia, Sala São Paulo, Estação da Luz, Museu da Língua, Praça Princesa Isabel, Praça General Osório … tudo bem guardado.

Um rapaz, idade indefinida (não dá pra chutar) abraça uma garota que dá pra definir a idade, tem menos que 15 anos. Os dois deliram no sol, parece sonho conjunto, mas ali no máximo é bad trip de asfalto, pesadelo de verdade, sem música de fundo. Não tem amor que resista. Dois minutos, ele sai praguejando e batendo os braços:

- Vai ser muié de coxinha, porra… saí da minha reta…

Três horas e meia bandeando por ali, vou ficando sem função, como dizem os descolados: dando guela. Vou embora. Peço pro Gilberto, agora quase brother, pra me levar para o outro lado da cidade (eu tinha pra onde ir). A gente foi papeando, pergunto se ele já não cansou daquela tensão da região. Gilberto olha pra baixo e responde sincero:

- Engraçado, acostumei, fui ficando, agora não saio mais… no final das contas todo mundo ali é gente, boa e ruim…

A Cracolândia tem gente, uns trabalham, uns moram, outros morrem. Gente não se dispersa assim, não dá pra varrer.

Projeto Urbano: Plano das Avenidas, São Paulo (1920) – Arq. Francisco Prestes Maia, Fonte: Hugo Segawa (1998:26)

“É difícil pra mim apresentar Chuck Berry, porque eu copiei todos os acordes que ele já tocou!”

Keith Richard

Dizia o filosofo romeno Emil Cioran: ”eu prefiro me agarrar ao inacreditável presente e ao inacreditável passado”. Cioran brilhou em citações em meados da década de 80 e 90. O tempo era sombrio. Cioran adorava fazer apologia à morte, até que morreu. Vive desfigurado na boca dos niilistas, mas por ora, segue esquecido. Cioran um dia volta.

A morte rondou o final de semana, foram muitos: Joãosinho Trinta, Vaclav Havel (ex-presidente da Tchecoslováquia, hoje também morta), o ator Sérgio Brito, a cantora Cesária Evora, o mandatário da Coréia do Norte, Kim Jong-Il, morte presente. Fiquei sabendo que Etta James (at laaaaast) esta terminal com leucemia. Não param de chegar coisas assim… a inquestionável morte.

Domingo pela manhã ao navegar livremente (como gosto) topei com um vídeo bem conhecido, onde Chuck Berry toca um dos seus hits “Oh, Carol”  ladeado por Keith Richards. Chuck, velho de guerra, insiste que Keith não acerta um efeito no meio do riff inicial da música. É um momento engraçado do rock’n roll. Para constranger e trollar um corsário velho como Richards, só mesmo outro corsário de mil águas a frente.

Aquela imagem e a versão pulsante de “Oh, Carol” me instigou o pensamento de que Chuck Berry nunca deveria morrer. Não vai morrer e pronto. Não vou aceitar que num dia qualquer, uma rede social, um portal ou um amigo me ligue e diga que Chuck Berry morreu. Não vai haver este dia. Passará em brancas nuvens. Não haverá futuro sem Chuck Berry. Neste momento me alinho com Cioran que paradoxalmente só falava de morte. Sofismar o romeno servirá como despiste.

Os bordões mais sacados do rock e o passo de pato não vão deixar esta terra. E não adianta dizer que Chuck é um ranzinza que vende 60 minutos de apresentação e sai no exato sexagésimo minuto, mesmo que esteja no meio de uma música. Nada de sovinice, Chuck cumpre contratos. Não adianta querer levá-lo antes ou depois, ele insiste em cumprir tudo no ponto. Chuck Berry não vai morrer antes de tocar o último riff. Que atrasem os riffs. Chuck Berry é um jovem rocker de 85 anos.

Os Beatles, os Stones, tantas bandas, os punks, os retrôs todos emularam, revisitaram, atrasaram o tempo para voltar a Chuck Berry. Para quê e para quem ele vai morrer? Até completar o set todo: Maybelline, Roll Over Beethoven, Johnny Be Good, Bound To LoseRock And Roll MusicSweet Little Sixteen … levará muito tempo.  E que o tempo se atrase, como o riff que Keith teimava em não tocar direito. Que seja atrasado por longo tempo o último hit de Chuck Berry. O que será do rock’n roll sem ele?  E que o futuro seja como o tal Cioran pressentiu, uma negação, uma falsa espera.

Chuck Berry Fields Forever.

Definitivamente e dane-se a realidade: Chuck Berry jamais morrerá.

Fui ver  ”As Canções” novo documentário do Eduardo Coutinho. Saí da sala com inveja, se existe inveja boa, foi inveja boa. No estilo Coutinho, focado na pessoa e nos seus interesses, derramado nos interesses e na vida das pessoas. A canção é o mote, mas o centro é a pessoa. A história das canções na vida das pessoas.

Como de costume nos filmes de Coutinho os “personagens” são pessoas comuns (conceito esquisito) e trazem aspectos comuns da vida. A música entrelaçada nas suas vidas. O amor e sua trilha sonora. Quase todas as histórias relatadas são de dores de amores, romances partidos ao meio, abandonos, amores unilaterais.

O clima todo do documentário nos prepara para chorar, tal como as canções citadas, engendradas para comover, para despertar sentimentos “fáceis”. Gostaria de saber quem inventou esta conversa de sentimentos fáceis. Hierarquia de sentimentos preparada para culpar os comuns. Esta necessidade de assepsia, de distanciamento, faz com que busquemos a frieza onde ela não cabe. As histórias são comoventes e ponto, como uma melopéia estrategicamente colocada.

Vou falar da inveja. A inveja de não ter roteirizado estas histórias. As canções populares cabem em momentos da vida das pessoas e se tornam importantes. Coutinho colocou isso levemente, sem querer ser analítico, ele deixa a historia vir. As pessoas choram, riem do patético e do próprio escárnio, enxergam as lacunas. Os elementos fictícios aparecem no relato das “verdades” de cada um, o direito de omitir, de distorcer, como  forma de alívio. Nada demais, além da vida.

Simpático e ao mesmo tempo perigoso colocar canções no meio dessa teia. A música pode trair um compromisso, pode gerar uma expectativa inglória, pode armar um cenário constrangedor, pode gerar distorções, olhares incertos e amores que nunca existiram. Se retirarmos a música disso tudo, só restaria a tristeza, a nostalgia, a amargura, mesmo as alegrias, sentimentos espalhados, sem liga.

As falas dos personagens confirmam o exito de uma formula repetida por Coutinho. Ele de fato a repete, procura nos lugares comuns da vida a saída pra falar da gente (brasileira). Não concordo que tenha cansado, quando muito vai entediar um olhar em busca de digressões e avanços da linguagem. O foco no humano sempre interessa.

Sendo o centro do filme canções, sejam elas do Roberto Carlos, Orlando Silva, Orlando Dias, Silvinho, Noel Rosa, Jorge Ben, Armando Louzada … Coletânea de canções e gente cantando, pessoas que fizeram as próprias canções,como o menino que compôs e dedicou uma música para o pai que perdeu aos 12 anos. Não há como sair da sala culpado por se emocionar com histórias de perda ou busca de alguém por afeto.

A inveja dita é boa e as canções de resto cobrem lacunas. Repito demais isso aqui no blog, como são repetidas há décadas estas canções “lugar-comum”. Vale a pena ver o filme do Eduardo Coutinho, olhar de um jeito simples para a vida. Sair das esquinas da vida de leve, “smoother”,  como disse de maneira malandra, um senhor que estrela uma das histórias. Inveja como presente de final do ano.

“Não sei fechar um mundo bem redondo, Ainda que o remende como sei.”

Wallace Stevens 

As telas sensíveis mudaram o rumo do mundo. Além de olhar a informação, posso mudá-la (fisicamente) de lugar. Acesso, recombinação e compartilhamento rápidos. A novidade que gera novidades, produto que gera produto.

Já “mataram” o livro com isso, o papel perderia o lugar, a morte da impressora, do impresso. Não existiu. O livro ainda aparece e guarda lugar. O livro das capas moles e duras ainda incomoda. Não é visão romântica. Fato.

Produto velho e novo, formato velho e novo, têm em comum a necessidade de conteúdo.

E tem livro novo na praça.

Um livro que estava sendo preparado e esperado. Que vivia como lenda urbana. Na boca de açodados, adivinhos. Livro que previa o caos de um cultor da escuridão. O tal grupo da racionalidade (de cor azul e amarela) e suas mumunhas ideológicas (negadas) reafirmadas pelos fatos. Na época do fim da história, privatizar para modernizar. A lisura às favas. Reinava o absoluto no funeral dos soviéticos.

Falo do livro “Privataria Tucana” do repórter Amaury Ribeiro. Curiosamente até a publicação do livro na última sexta-feira (09/12/2011), o referido jornalista, era um ganhador de três prêmios Esso, profissional respeitado. Passe de mágica e ele se tornou um gordo bufão com problemas de dicção, suspeito e mentiroso por estar sendo investigado pela PF. As ilações viram verdades e os documentos viram obra de retórica. Maldita realidade que açoita.

O livro só descreve o óbvio (que também tem que ser documentado para se mostrar óbvio), mas mostra o que desconfiávamos. Um escândalo de atacado contra as dúzias de varejo que amplificam todos os dias. Não que existam escândalos e sacanagens “maiores” ou “menores”, mas qual critério faz ignorar ou destacar algo? A origem, as ligações (objetivas e subjetivas) ou a subversão das interpretações e dos fatos? Como podemos chamar isso? Escândalos convenientes ou inconvenientes?

Houve uma tentativa de boicote “branco”  á obra. Graças, em parte, a grita e a mobilização de certa militância e ao apelo do tema, o título vendeu 15 mil cópias em 36 horas, se firmou nas estantes com a prometida segunda reimpressão. Impolutos jornalistas não demoraram a taxar a militância reclamante de aloprada, e, seguindo o guru chamaram o livro de lixo e dossiê (Serra é disciplinador), outros atacaram o conteúdo, mesmo após a confissão de que não leram e não lerão. Jornalismo ético, objetivo e zeloso com os proventos.

Há cópias do livro em pdf rolando pela web, porém, o interessante seria comprá-lo, antes de tudo lê-lo, tomar ciência e juízo do seu conteúdo e aprofundar o debate. Quem não puder comprar, reclame a aquisição na biblioteca pública mais perto de sua casa. Quem quiser desqualificar cegamente que desqualifique. O não “li e não gostei” oswaldiano que sirva aos que desejam lançar o assunto nos calabouços.

Qual a origem da distorção e da despolitização do debate político? A desinformação e a falta de rigor. Pegar tudo de orelhada e soltar o verbo sobre corrupção, reforma política, sistema público de saúde, política cultural, Belo Monte, aborto, socialismo, mercado… todos os assuntos fartamente documentados em livros, papers, artigos…

E estas opiniões e reflexões não carecem de tutores e falsos formadores de opinião (nem à direita, nem à esquerda) basta ir às fontes.

A tela facilita e o livro ainda tem força. Abrir, ler e contrapor, é tudo tão simples. O velho livro “ainda” forma opiniões,  abala estruturas e faz cair máscaras.