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Arquivo mensal: maio 2009

O guitarrista, tecladista e compositor Jay Bennet, morreu no último domingo, na cidade onde nasceu, Urbana, Illinois . Em 1996 ele entrou no Wilco, que tinha na base de formação ex-membros do Uncle Tupelo, com o cantor Jeff Tweedy a frente. A união deu certo e rendeu quatro excelentes discos: Being There (1996), Mermaid Avenue com Billy Bragg (1998), Summerteeth (1999), e a despedida de Bennet da banda, Yankee Hotel Foxtrot (2002).

Logo após a sua saída do Wilco, por divergências com Tweedy, Jay gravou cinco discos, sendo o mais recente: Whatever Happened I Apologized (2008). Abaixo uma das músicas que mais gosto do Wilco “My Darling.

Mais um discípulo que o mestre Brian Wilson vê morrer. Boa viagem rapaz!

Bennett

Gregory Corso nasceu no Lower East Side, New York, no olho do furacão da Grande Depressão, 1930. Aos 16 anos, julgado por roubo, pegaria três anos de cana e foi na cadeia que conheceu uma biblioteca e caiu na sanha da leitura. Sem perder a pegada das ruas, Gregory comporia junto com Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, o eixo central da movimento beat.

Nos anos 80 as editoras Brasiliense e L&PM despejaram aqui no Brasil várias traduções dos escritores beat. Foi Gasoline & Lady Vestal, reunião dos dois primeiros livros de Gregory Corso, que me pegaram a veia de primeira. Li e reli esse pequeno livro (se não me engano o único de Corso traduzido até hoje nessas plagas), poesia das ruas, do jazz, da barra pesada, da cidade que dissolve, que se reconstrói, sem autocomiseração. Vibrante.

Gregory faleceu em 2001, entre as lembranças e epitetos, os haxixes no Marrocos, as noites de jazz de Nova Iorque, as estradas longas da América, as conversas com os outros beats em bares parisienses, um monte de verdades e tantas criações.

O NOVAIORQUINO

Ele está em Cambridge
E agora bate em minha porta
Ele é o cara de Nova York;
tem olhos enormes de neon
seu olhar despeja
jazz pelo meu chão
Mas ele estava mesmo lá?
Podia ser um rádio,
ou um órgão de fundo
ali alucinado.

Podia ser eu mesmo
me visitando em pleno jazz,
com receio de bater.

DE VISITA AO LUGAR DE NASCIMENTO

De pé na luz fraca da rua escura
olho para minha janela no alto foi lá que nasci.
As luzes estão ecesas; outras pessoas se movimentam ali.
Vestido com capa de chuva, cigarro na boca,
chapéu caído nos olhos, a mão na arma.
Atravesso a rua e entro no prédio.
As latas de lixo não pararam de cheirar mal.
Subo o primeiro lance de escadas: Lóbulos-Sujos
me ameaça com sua faca…
Eu lhe despejo uma torrente de relógios esquecidos.


NAS MINHAS MÃOS ESTA MINHA CIDADE

Nas mãos está minha cidade, minha lira
E em minhas mãos está a pira
E minha mãe ouve Corelli
enquanto minhas mãos estão em chamas

Poemas tirados do livro Gasoline & Lady Vestal, 1985, L&PM, traduções de Eduardo Bueno. Comprado em alguma tarde de andanças pelo centro de sampa, na livraria Brasiliense da Barão de Itapetininga.

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As vezes eu me pego escrevendo sobre artistas injustiçados, esquecidos, mal compreendidos no seu tempo. Fico com raiva do meu texto. A conversa é sempre a mesma, uma pitadinha de autocomiseração ali, de ressentimento acolá, etc, etc. Santa ingenuidade!

O esquema é o seguinte: a injustiça, as idéias massificadas, a pasmaceira, as brodagens e bobagens da mídia, são parte do jogo, se este processo fosse algo perto do justo, o mundo seria um paraíso.  As armações e falsos consensos são a tônica da industria cultural, o que consegue escapar e se estabelecer são excessões.

Então temos que deixar de ficar chorando sobre as tais  “injustiças” derramadas (só falta tocar o violino no background) e analisar as coisas de maneira lúcida. O que é um pouco mais ousado, só escapa dessa cloaca, pela tática de guerrilha. O resto é conversa fiada, maneirismo. Não existe outro método: ou entra na briga ou já começa perdendo.

Marconi Notaro provavelmente poderia ser enquadrado como injustiçado, mal compreendido em sua época, marginal e blá, blá, blá …  Poeta, compositor e agitador da cena cultural recifense dos anos 70, editou junto com Silvio Hansen, a revista A Gaveta, que nos seus dez números, publicou todo tipo de experimentos poéticos que pululavam na época. Os poemas de Notaro eram confeccionados, datilografados, copiados (geração xerox!?) e distribuídos nos bares e bocadas da cena recifense.

Além disso,  partilhou com o pessoal do Ave Sangria, Lula Cortêz, Zé Ramalho (paraibano), Phetus, Flaviola e o Bando do Sol, Lailson e outros que, provavelmente vou omitir, de um momento muito criativo e inusitado da música brasileira. Psicodelia misturada com ritmos nordestinos foi o plano de vôo da rapaziada e Marconi participou a fundo dessa história.

Em 1973(data presumida), Marconi gravou pela lendária gravadora Rozenblit (que merece um post a parte) o disco Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários. Esse disco virou uma lenda muito falada e pouco ouvida,  era citado por colecionadores, especialistas e chatos em geral. A capa é uma peça de piração visual confeccionada por Lula Cortêz.

Graças a internet, ao MP3 e a boa vontade de uns poucos, cópias rolam por ai para que se ouça essa peculiar amostra de um momento muito criativo e particular do rock brasileiro. Em 2007 o selo norte-americano Time-Lag Records http://www.time-lagrecords.com/index.php lançou em cd, e posteriormente em vinil, uma segunda edição do registro.

Poesia bacana, desbunde setentista, psicodelismo e experimentos sonoros dão o tom do LP. Fidelidade é um exemplo disso, um frevo para lá de acidulado:

Permaneço fiel às minhas origens

Filho de Deus

Sobrinho de Satã

Permaneço fiel às minhas origens

O meu ontem é hoje

Meu futuro é amanhã

Permaneço fiel às minhas orgias

Filhos da terra, amante do ser

Permaneço fiel a minha euforia

Se dois e dois são cinco

Você deve saber

na parceria de Notaro com Zé Ramalho, que traz a guitarra hendrixiana de Robertinho do Recife, Made in PB:

Quando eu vim aqui
Senti uma vontade chorada
Danada de me chegar
Demonstrei o som
Numa sincopada chorada
Danada de executar
Todo mundo ouviu um rock pesado, chorado, danado
Made in PB
Parece um forró
Mas eu lhe afirmo, ciente, descrente do meu amor
Que ele é curtição de couro de bode
Quem pode sacode tudo no chão
Quem ainda não curtiu o rock sem bode
Quem pode se explode
Made in PB

ou no samba desconstruído , e isso não era embromação na época, Desmantelado:

Desmantelado

é o homem do bilhar

Desmantelado

quando pega no taco

faz a bola sambar

Aproveitar a vida

Nunca ficar parado

Se o taco fosse caneta

Desmantelado

era um homem formado

A bolacha é recheada pela participação de Zé Ramalho, Lula Cortêz, Robertinho do Recife, e apesar da gravação de qualidade irregular, é uma mostra da criatividade da rapaziada. Marconi faleceu nos anos 90, deixou dois livros editados e esse disco como legado, sempre fiel às suas origens, orgias e euforias.


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