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Arquivo mensal: junho 2009

O samba nasceu nas misturas de danças e cantos de africanos e seus descendentes, não se sabe no Recôncavo Baiano ou no Rio de Janeiro. Se assim foi, teve vários pais, mães e origens. Sua beleza ritmica e os lamentos forjaram uma música robusta, seminal e que permaneceu. Mas samba é coisa de povo, e sendo coisa do povo, sofreu rejeição e preconceito. Os sambistas foram perseguidos pela polícia e ele era considerado nas boas casas de família como música fuleira. Mas isso era nos primórdios, agora na nossa democracia racial, as classes se uniram e todo mundo samba junto e contente? Não é bem assim.

“Os bem pensantes” para se diferenciar da “caterva popularesca”, criaram o termo “samba de raiz”, e assim consagrou-se o estilo do samba de gente fina. Vira e mexe a gente flagra alguém falando assim: “Eu gosto de samba, mas tem que ser samba de raiz!”. Que raio de samba de raiz é esse? O termo em si é até usado, em certos momentos, com boa fé.  Mas as intenções nem sempre são claras.

Existem algumas “teorias” a respeito: para uns é o samba que tem uma poética diferente, um samba puro, sem misturas, que não foi “infectado” pelas promiscuidades comerciais da industria cultural. Para outros é o samba praticado nos anos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, 00 e que mantém “as características” de um samba feito sei lá em que década, mas é de raiz. E também tem aqueles que acham que samba de raiz são aqueles regravados por exemplo pela…Marisa Monte ou por qualquer outra diva de plantão. Vai entender. Não pode ser só samba tem que ser samba de gente inteligente. A quem serve essa distinção?

Para mim samba é samba e tem a elegância dos impuros, os bambas sempre misturaram tudo ao samba, tudo que puderam, Geraldo Pereira (o avô musical de Jorge Ben) sincopou o samba e levou-o para um rumo diferente, Noel era branco e foi fazer samba, qual era a raiz de Noel? E se os instrumentistas dos trios de bossa nova não tivessem misturado o samba ao jazz e ficassem procurando a raiz, saíria alguma coisa?

O Jorge Ben é um exemplo, é sambista, mas não purista, swingou à sua maneira e reinventou o samba no início dos anos 60. Jorge Ben consagrou o samba balançado e esse deu origem às formas mais comerciais do samba pop contemporâneo. Você pode não gostar, mas é samba. Muitos desses sambistas que os consumidores puros e sofisticados do samba odeiam, são filhos dessa corrente chamada samba rock que gerou variações mais comerciais.

E o samba nunca deixou de ser samba.

Samba amaxixado, samba-canção, partido alto, pagode, samba rock, gafieira, samba de terreiro, samba-jazz, samba-rap, samba-reggae, separados ou misturados, são os estilos do samba. E o samba segue impuro, pois se fosse depender de pureza ele nem nascia, e é essa a sua verdade.

Muitos querem o samba de raiz, mas para quê? Para mim o samba, é a raiz, o caule, a flor, o fruto, o samba é a árvore toda.

arvore_nsanda

Michael Jackson foi um artista ímpar. Talentoso até a medula, cantou, dançou, mobilizou massas. Gravou excelentes discos, e um especificamente brilhante: Thriller (1982). Em algum momento se perdeu e foi consumido pela leviandade do show bizz, por traumas, as distorções de uma cabeça que nunca teve tempo de se formar. Desde pequeno foi uma peça da máquina da industria cultural, primeiro explorado pelo pai e depois pelo próprio ônus do sucesso e da notoriedade. Se enrolou na vida, virou caricatura. Não dá pra entender direito o que fez com o próprio corpo.  A coisa mais fácil é você ouvir alguém falando algo repugnante, boçal e racista a respeito de Jacko, triste e reducionista. Não me importa julgar o que ele fez na vida íntima, apenas lembro de sua boa música.

Aqui em São Bernardo do Campo estamos tentando mudar o foco da programação cultural tanto na área de leitura, como nas demais expressões, música, dança, teatro, etc.  A carência de diversidade e, principalmente de qualidade chegou a proporções graves, produto de uma política anódina e irresponsável.  Tudo isso somado a já tão reclamada  falta de grana para o setor.
Precisaria de muitas linhas para discutir a questão das políticas culturais e essas correções de rumo, talvez em outro momento. Vamos aos fatos e aos poucos vou colocando aqui no blog as minhas opinões permeadas com a divulgação das ações. Sendo assim:
Uma dessas mudanças esta embutida no projeto “Já Ouviu? que iniciou há três meses e se propõe a convidar nomes não tão veículados pela mídia tradicional. Nessa semana os músicos  Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski participam do projeto e sua apresentação propõe juntar música ao vivo à projeção de um filme.
A idéia não é nova, pois na época do cinema mudo um pianista animava as exibições dos filmes. Lívio e Wilson fazem uma leitura nova de uma velha prática dando vida à musica feita para o filme dentro do lugar onde é exibido.
A novidade para a cidade é trazer formatos que até então não encontravam espaço em nossa grade de programação. A idéia é provocar outras situações.
Assim será nesta nesta sexta-feira, dia 26, às 20h – no Teatro Cacilda Becker – Praça Samuel Sabatini – Tel: 4348-1081 - onde tocarão ao vivo para a exibição do filme “SP, Sinfonia e Cacofonia”, de Jean Claude Bernardet. A entrada é franca.
livio_tragtenberg suko

O grupo francês Nouvelle Vague lançou há alguns dias seu terceiro disco (nem sei mais como chamar isso). A formula é a  mesma dos outros registros: pitadas de bossa + vocais femininos fofinhos + hits dos anos 80. E não há mal nenhum nisso.

A boa notícia é que tem participações vocais interessantes dessa feita: Barry Adamson (ex-baixista do Magazine),  Martin Gore (Depeche Mode) e Ian McColough (ex-,nunca se sabe se acabaram, Echo and Bunnymen), duetaram em músicas de seus respectivos grupos. Terry Hall (o ex-cantor dos Specials) participa de uma bela cover de Our Lips Are Sealed das Go-Go’s.

Ainda tem covers do Sex Pistos, Violent Femmes, Plastic Bertrand, Talking Heads, Police, Soft Cell, Simples Minds, Psychedelic Furs (ficou bonito Heaven), ufa!

A faixa escolhida para o dueto da menina de voz suave com o vocal surrado e alcoólico do Ian McColough foi  All My Collours (Heaven Up Here 1981) um clássico do povo de preto dos anos 80. O disco se chama simplesmente 3, por ser o terceiro. A venda nas boas casas do ramo, como o ramo tá indo para a cucuia, tem para download (enquanto o AI-5 do Azeredo não vem).

ao vivo sem o Ian

http://www.megaupload.com/?d=0MSO7VGB

O garoto Gabor Szabo gostava de ouvir a Radio America em Budapeste Isso foi em meados da década de 50. Aos 14 anos começou a estudar violão e improvisar em cima do que escutava. As descobertas de uma cena musical variada o fascinava e na sua cabeça a mistura de vários sons, a canção americana, o jazz, o blues, e claro, a música húngara o inspiraram a tocar guitarra.

No final da década sua família sai da fria Budapeste, não estavam mais a fim do comunismo. Ganham a Califórnia ensolarada.

A viagem e a mistura de referências anteriores na cabeça e nos dedos ágeis do rapaz explode em bons sons e novas descobertas. Cada vez mais envolvido com a cena jazzistica do West Coast, ele saiu registrando discos onde a melodia e o swing ocupavam espaço privilegiado.

Gravou com gente barra pesada: Chico Hamilton (baterista maravilhoso, ainda falo mais dele), Lena Horne, Gary MacFarland, Ron Carter, Paul Desmond, Charles Lloyd…

Alguns trechos de canções dele são usados em samples e são referencias de grooveiros e misturadores em geral. Szabo não tinha problemas em gravar sucessos da música pop como San Francisco Nights, Walk a Way Renee, Dear Prudence, Sunshine Superman, Breezin’ e neles injetar sua personalidade. Portanto, ele mesmo um grande misturador.

Foram mais de vinte e cinco discos até a sua morte aos quarenta e seis anos quando visitava a terra natal em 1982. Vale a pena ouvir, descobrir as várias raízes e alquimias desse guitarrista peculiar.

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O anuncio do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista traz discussões bem interessantes à ordem do dia. A quem prejudica? A grande imprensa (jornalões, revistões, etc) atravessa  um momento de trevas e nítida apelação pela sobrevivência. Jornal e revista (na maioria) não seduz pela informação e credibilidade e sim, por engodos e orquestrações diversas. Tudo por grana e defesa de interesses privados.

E não venham com o lenga lenga de que sendo instituições privadas, os veículos têm que visar primeiro o lucro. Informação é algo que incide diretamente na vida das pessoas, nas tomadas de decisão do coletivo, logo, o caráter público deve ser colocado prioritariamente.

E são Eles (maíusculo mesmo), justamente os grandes interessados em acabar com a obrigação do diploma para jornalistas. Dá para defender em coro acrítico o que esses caras defendem? Em tese sim, na prática, nunca.

O problema é que o único jeito de garantir a liberdade da informação é fugindo do controle dos grandes grupos dos mass media. As matérias dos jornais estão cada vez mais parecidas com os editoriais, e isso nunca cheirou bem. Pluralidade? Onde?

O que nos resta? Refundar o jornalismo ou os veículos? Já foi sobejamente escrito, pisado e repisado das possibilidades que a web, principalmente no que ela tem de colaborativo, no seu potencial de produzir conhecimento, interação e difusão de idéias, da potencialidade de blogs, twiters, etc. Será que os próprios jornalistas (alguns já sacaram) olharão isso com outros olhos, sem preconceito e corporativismos?

O caminho do jornalismo esta em aberto, sem diploma ou com diploma, quem se aprimorar para escrever e se colocar nessa função profissionalmente continuará escrevendo, ou não? Claro o emprego, a renumeração, a profissionalização é muito importante, mas os veículos tradicionais irão se sustentar com esse formato ultrapassado? Pesadelo? É só olhar a indústria fonográfica, realidade.

Penso que esse ato do STF pode trazer uma discussão verdadeira sobre a relevância e o papel do mundo da informação e da sua produção no país. Ou vamos ficar no contra ou a favor e a discussão e os caminhos não sairão do raso. Gilmar Mendes não teve motivos bonitinhos para defender efusivamente através do voto, o fim dos diplomas. Tomara tenha sido mais um tiro no pé. Veremos.

fish

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