O samba nasceu nas misturas de danças e cantos de africanos e seus descendentes, não se sabe no Recôncavo Baiano ou no Rio de Janeiro. Se assim foi, teve vários pais, mães e origens. Sua beleza ritmica e os lamentos forjaram uma música robusta, seminal e que permaneceu. Mas samba é coisa de povo, e sendo coisa do povo, sofreu rejeição e preconceito. Os sambistas foram perseguidos pela polícia e ele era considerado nas boas casas de família como música fuleira. Mas isso era nos primórdios, agora na nossa democracia racial, as classes se uniram e todo mundo samba junto e contente? Não é bem assim.
“Os bem pensantes” para se diferenciar da “caterva popularesca”, criaram o termo “samba de raiz”, e assim consagrou-se o estilo do samba de gente fina. Vira e mexe a gente flagra alguém falando assim: “Eu gosto de samba, mas tem que ser samba de raiz!”. Que raio de samba de raiz é esse? O termo em si é até usado, em certos momentos, com boa fé. Mas as intenções nem sempre são claras.
Existem algumas “teorias” a respeito: para uns é o samba que tem uma poética diferente, um samba puro, sem misturas, que não foi “infectado” pelas promiscuidades comerciais da industria cultural. Para outros é o samba praticado nos anos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, 00 e que mantém “as características” de um samba feito sei lá em que década, mas é de raiz. E também tem aqueles que acham que samba de raiz são aqueles regravados por exemplo pela…Marisa Monte ou por qualquer outra diva de plantão. Vai entender. Não pode ser só samba tem que ser samba de gente inteligente. A quem serve essa distinção?
Para mim samba é samba e tem a elegância dos impuros, os bambas sempre misturaram tudo ao samba, tudo que puderam, Geraldo Pereira (o avô musical de Jorge Ben) sincopou o samba e levou-o para um rumo diferente, Noel era branco e foi fazer samba, qual era a raiz de Noel? E se os instrumentistas dos trios de bossa nova não tivessem misturado o samba ao jazz e ficassem procurando a raiz, saíria alguma coisa?
O Jorge Ben é um exemplo, é sambista, mas não purista, swingou à sua maneira e reinventou o samba no início dos anos 60. Jorge Ben consagrou o samba balançado e esse deu origem às formas mais comerciais do samba pop contemporâneo. Você pode não gostar, mas é samba. Muitos desses sambistas que os consumidores puros e sofisticados do samba odeiam, são filhos dessa corrente chamada samba rock que gerou variações mais comerciais.
E o samba nunca deixou de ser samba.
Samba amaxixado, samba-canção, partido alto, pagode, samba rock, gafieira, samba de terreiro, samba-jazz, samba-rap, samba-reggae, separados ou misturados, são os estilos do samba. E o samba segue impuro, pois se fosse depender de pureza ele nem nascia, e é essa a sua verdade.
Muitos querem o samba de raiz, mas para quê? Para mim o samba, é a raiz, o caule, a flor, o fruto, o samba é a árvore toda.




