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Arquivo mensal: dezembro 2011

“É difícil pra mim apresentar Chuck Berry, porque eu copiei todos os acordes que ele já tocou!”

Keith Richard

Dizia o filosofo romeno Emil Cioran: ”eu prefiro me agarrar ao inacreditável presente e ao inacreditável passado”. Cioran brilhou em citações em meados da década de 80 e 90. O tempo era sombrio. Cioran adorava fazer apologia à morte, até que morreu. Vive desfigurado na boca dos niilistas, mas por ora, segue esquecido. Cioran um dia volta.

A morte rondou o final de semana, foram muitos: Joãosinho Trinta, Vaclav Havel (ex-presidente da Tchecoslováquia, hoje também morta), o ator Sérgio Brito, a cantora Cesária Evora, o mandatário da Coréia do Norte, Kim Jong-Il, morte presente. Fiquei sabendo que Etta James (at laaaaast) esta terminal com leucemia. Não param de chegar coisas assim… a inquestionável morte.

Domingo pela manhã ao navegar livremente (como gosto) topei com um vídeo bem conhecido, onde Chuck Berry toca um dos seus hits “Oh, Carol”  ladeado por Keith Richards. Chuck, velho de guerra, insiste que Keith não acerta um efeito no meio do riff inicial da música. É um momento engraçado do rock’n roll. Para constranger e trollar um corsário velho como Richards, só mesmo outro corsário de mil águas a frente.

Aquela imagem e a versão pulsante de “Oh, Carol” me instigou o pensamento de que Chuck Berry nunca deveria morrer. Não vai morrer e pronto. Não vou aceitar que num dia qualquer, uma rede social, um portal ou um amigo me ligue e diga que Chuck Berry morreu. Não vai haver este dia. Passará em brancas nuvens. Não haverá futuro sem Chuck Berry. Neste momento me alinho com Cioran que paradoxalmente só falava de morte. Sofismar o romeno servirá como despiste.

Os bordões mais sacados do rock e o passo de pato não vão deixar esta terra. E não adianta dizer que Chuck é um ranzinza que vende 60 minutos de apresentação e sai no exato sexagésimo minuto, mesmo que esteja no meio de uma música. Nada de sovinice, Chuck cumpre contratos. Não adianta querer levá-lo antes ou depois, ele insiste em cumprir tudo no ponto. Chuck Berry não vai morrer antes de tocar o último riff. Que atrasem os riffs. Chuck Berry é um jovem rocker de 85 anos.

Os Beatles, os Stones, tantas bandas, os punks, os retrôs todos emularam, revisitaram, atrasaram o tempo para voltar a Chuck Berry. Para quê e para quem ele vai morrer? Até completar o set todo: Maybelline, Roll Over Beethoven, Johnny Be Good, Bound To LoseRock And Roll MusicSweet Little Sixteen … levará muito tempo.  E que o tempo se atrase, como o riff que Keith teimava em não tocar direito. Que seja atrasado por longo tempo o último hit de Chuck Berry. O que será do rock’n roll sem ele?  E que o futuro seja como o tal Cioran pressentiu, uma negação, uma falsa espera.

Chuck Berry Fields Forever.

Definitivamente e dane-se a realidade: Chuck Berry jamais morrerá.

Fui ver  “As Canções” novo documentário do Eduardo Coutinho. Saí da sala com inveja, se existe inveja boa, foi inveja boa. No estilo Coutinho, focado na pessoa e nos seus interesses, derramado nos interesses e na vida das pessoas. A canção é o mote, mas o centro é a pessoa. A história das canções na vida das pessoas.

Como de costume nos filmes de Coutinho os “personagens” são pessoas comuns (conceito esquisito) e trazem aspectos comuns da vida. A música entrelaçada nas suas vidas. O amor e sua trilha sonora. Quase todas as histórias relatadas são de dores de amores, romances partidos ao meio, abandonos, amores unilaterais.

O clima todo do documentário nos prepara para chorar, tal como as canções citadas, engendradas para comover, para despertar sentimentos “fáceis”. Gostaria de saber quem inventou esta conversa de sentimentos fáceis. Hierarquia de sentimentos preparada para culpar os comuns. Esta necessidade de assepsia, de distanciamento, faz com que busquemos a frieza onde ela não cabe. As histórias são comoventes e ponto, como uma melopéia estrategicamente colocada.

Vou falar da inveja. A inveja de não ter roteirizado estas histórias. As canções populares cabem em momentos da vida das pessoas e se tornam importantes. Coutinho colocou isso levemente, sem querer ser analítico, ele deixa a historia vir. As pessoas choram, riem do patético e do próprio escárnio, enxergam as lacunas. Os elementos fictícios aparecem no relato das “verdades” de cada um, o direito de omitir, de distorcer, como  forma de alívio. Nada demais, além da vida.

Simpático e ao mesmo tempo perigoso colocar canções no meio dessa teia. A música pode trair um compromisso, pode gerar uma expectativa inglória, pode armar um cenário constrangedor, pode gerar distorções, olhares incertos e amores que nunca existiram. Se retirarmos a música disso tudo, só restaria a tristeza, a nostalgia, a amargura, mesmo as alegrias, sentimentos espalhados, sem liga.

As falas dos personagens confirmam o exito de uma formula repetida por Coutinho. Ele de fato a repete, procura nos lugares comuns da vida a saída pra falar da gente (brasileira). Não concordo que tenha cansado, quando muito vai entediar um olhar em busca de digressões e avanços da linguagem. O foco no humano sempre interessa.

Sendo o centro do filme canções, sejam elas do Roberto Carlos, Orlando Silva, Orlando Dias, Silvinho, Noel Rosa, Jorge Ben, Armando Louzada … Coletânea de canções e gente cantando, pessoas que fizeram as próprias canções,como o menino que compôs e dedicou uma música para o pai que perdeu aos 12 anos. Não há como sair da sala culpado por se emocionar com histórias de perda ou busca de alguém por afeto.

A inveja dita é boa e as canções de resto cobrem lacunas. Repito demais isso aqui no blog, como são repetidas há décadas estas canções “lugar-comum”. Vale a pena ver o filme do Eduardo Coutinho, olhar de um jeito simples para a vida. Sair das esquinas da vida de leve, “smoother”,  como disse de maneira malandra, um senhor que estrela uma das histórias. Inveja como presente de final do ano.

“Não sei fechar um mundo bem redondo, Ainda que o remende como sei.”

Wallace Stevens 

As telas sensíveis mudaram o rumo do mundo. Além de olhar a informação, posso mudá-la (fisicamente) de lugar. Acesso, recombinação e compartilhamento rápidos. A novidade que gera novidades, produto que gera produto.

Já “mataram” o livro com isso, o papel perderia o lugar, a morte da impressora, do impresso. Não existiu. O livro ainda aparece e guarda lugar. O livro das capas moles e duras ainda incomoda. Não é visão romântica. Fato.

Produto velho e novo, formato velho e novo, têm em comum a necessidade de conteúdo.

E tem livro novo na praça.

Um livro que estava sendo preparado e esperado. Que vivia como lenda urbana. Na boca de açodados, adivinhos. Livro que previa o caos de um cultor da escuridão. O tal grupo da racionalidade (de cor azul e amarela) e suas mumunhas ideológicas (negadas) reafirmadas pelos fatos. Na época do fim da história, privatizar para modernizar. A lisura às favas. Reinava o absoluto no funeral dos soviéticos.

Falo do livro “Privataria Tucana” do repórter Amaury Ribeiro. Curiosamente até a publicação do livro na última sexta-feira (09/12/2011), o referido jornalista, era um ganhador de três prêmios Esso, profissional respeitado. Passe de mágica e ele se tornou um gordo bufão com problemas de dicção, suspeito e mentiroso por estar sendo investigado pela PF. As ilações viram verdades e os documentos viram obra de retórica. Maldita realidade que açoita.

O livro só descreve o óbvio (que também tem que ser documentado para se mostrar óbvio), mas mostra o que desconfiávamos. Um escândalo de atacado contra as dúzias de varejo que amplificam todos os dias. Não que existam escândalos e sacanagens “maiores” ou “menores”, mas qual critério faz ignorar ou destacar algo? A origem, as ligações (objetivas e subjetivas) ou a subversão das interpretações e dos fatos? Como podemos chamar isso? Escândalos convenientes ou inconvenientes?

Houve uma tentativa de boicote “branco”  á obra. Graças, em parte, a grita e a mobilização de certa militância e ao apelo do tema, o título vendeu 15 mil cópias em 36 horas, se firmou nas estantes com a prometida segunda reimpressão. Impolutos jornalistas não demoraram a taxar a militância reclamante de aloprada, e, seguindo o guru chamaram o livro de lixo e dossiê (Serra é disciplinador), outros atacaram o conteúdo, mesmo após a confissão de que não leram e não lerão. Jornalismo ético, objetivo e zeloso com os proventos.

Há cópias do livro em pdf rolando pela web, porém, o interessante seria comprá-lo, antes de tudo lê-lo, tomar ciência e juízo do seu conteúdo e aprofundar o debate. Quem não puder comprar, reclame a aquisição na biblioteca pública mais perto de sua casa. Quem quiser desqualificar cegamente que desqualifique. O não “li e não gostei” oswaldiano que sirva aos que desejam lançar o assunto nos calabouços.

Qual a origem da distorção e da despolitização do debate político? A desinformação e a falta de rigor. Pegar tudo de orelhada e soltar o verbo sobre corrupção, reforma política, sistema público de saúde, política cultural, Belo Monte, aborto, socialismo, mercado… todos os assuntos fartamente documentados em livros, papers, artigos…

E estas opiniões e reflexões não carecem de tutores e falsos formadores de opinião (nem à direita, nem à esquerda) basta ir às fontes.

A tela facilita e o livro ainda tem força. Abrir, ler e contrapor, é tudo tão simples. O velho livro “ainda” forma opiniões,  abala estruturas e faz cair máscaras.


Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça. 

Trecho de “O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo”  -  Jose Carlos Capinan

O meu bairro ainda era bacana. As ruas mesclavam o já antigo paralelepípedo com o moderno asfalto. Mas não eram ainda ruas de verdade. No sentido de ruas onde só se passam carros, realmente, elas não eram de verdade. Minguavam os carros e os jogos de rua dominavam. A meninada ficava contente. Todo mundo solto inventando sua infância. Claro, os tempos permitiam isso, o passar das horas era outro e os temores bem diferentes.

No meio do embate futebolístico era só dois carros passarem em sequência, que vinha a frase:

- Isso aqui tá parecendo rua – logo depois o jogo seguia em paz .

O bairro, a rua, a vida era toda nossa.

O meu bairro era bonito e o que não estava nele parecia distante. Sair de lá, era ir ao centro, ir à “cidade”, os outros bairros eram só passagens, me bastava o meu. Dois, três quilômetros e já mudava a referência. O centro. Os prédios eram diferentes, as pessoas passavam bem rápido. Era outro tempo, era um tempo diferente das ruas vazias onde carros eram exceções. Tudo envolvia mistério. A cidade era a “cidade”.

Tinha a pastelaria, os armarinhos, as lojas de roupas de senhores e senhoras. As lojas de sapato, onde ficavam os tênis, entre eles o Kichute para dar os (mal) tratos à bola. Ir ao centro era coisa especial. Cada rua do centro tinha sua história verdadeira, inventada, não era diferente no bairro, mas no centro tudo era maior. Cada lugar tinha sua marca.

Haviam prédios que não se apresentavam tão facilmente, não se destacavam, não eram óbvios. Não tinham placas evidentes, nem produtos a mostra, quase nunca tinha gente em frente deles. Poderiam ser qualquer coisa, coloridos, sem cor, sisudos, simpáticos, abandonados. Prédios sem nome.

Um deles tinha um jardim no entorno e portas de vidro. Não sabia o que era, muitas vezes passava em frente de ônibus e ele ainda não despertara qualquer curiosidade. O que se fazia, o que tinha dentro desse prédio, não era facilmente identificável. De longe eu podia distinguir móveis cinzas, que não contrastavam com a cor cinza externa. Era uma massa só, homogênea.

Um dia cheguei perto e pude ver uma roleta, para além dela, uma senhora com um olhar atento, e lá no meio de tudo, livros. Não passei a roleta, fiquei parado, envergonhado, curioso, mas sem força para entrar.  Era a biblioteca pública. Demorei a entender o que rolava. Capítulo grande da minha história começava ali.

Na minha escola tinha algo chamado biblioteca. Era sempre fechada ou restrita. Não despertava interesse de ninguém. Lembro da única  vez que que entrei sem hesitar e não foi bom, nada bom. A pessoa que lá estava ensaiou um grunhido querendo ser palavra e instantaneamente atingiu seu objetivo. Saí dali rapidamente. Biblioteca para mim passou a ser um impedimento.

A biblioteca pública era o prédio que eu não identificava. Era algo a se entrar, mas tinha o tal nome do impedimento: biblioteca.

O ônibus que passava perto da biblioteca tinha ponto final bem perto de casa.  Com ele seria rápido chegar, quinze, vinte minutos. Tinha a opção de ir a pé. Gostava mais dessa. Passar em frente ao Corpo de Bombeiros, depois o hotel grande, subia um pouco e saía defronte ao cemitério. Perto do cemitério, moravam a avó e os tios. Mais abaixo tinha a prefeitura, logo em frente as três ruas que compunham o centro. A terceira rua mais a direita, era a mais estreita, bem no meio dela, a biblioteca.

Entrar na biblioteca foi um processo longo, nem sei dizer mais a primeira vez. Foi uma longa primeira vez. Livros de lado, números indecifráveis, assuntos demais. Pessoas quietas, pessoas olhando pros livros, pessoas que atendiam olhando para lugar nenhum. Sempre alguém olhando e dizendo não. Ao menos a partir daquele momento eu sabia que não era só o prédio cinza. Os livros tinham cor na capa, mas as pessoas ainda eram o cinza.

A primeira pessoa colorida que me atendeu perguntou sem rodeios o que eu queria. É certo que a esta altura nem lembro mais o que pedi. Mas passou a ser algo fora do cinza, colorido, a pessoa, o pedido, a situação, coloriram a biblioteca. Foi um pedido atendido.

Perder o rumo no meio das estantes e descobrir coisas tornou-se um grande barato. Não queria orientação. Desorientava-me diante da organização dos livros perfilados, das mesas alinhadas, dos pedidos de ordem e do silêncio. A mente passava a olhar aquela confusão de informação de uma maneira simpática.

Obviamente, para mim era só confusão, mas hoje consigo emprestar esta poesia. Eram tardes longas onde eu perdia o futebol das ruas protegidas da minha vila. Perdia a bola do jogo e ganhava um espiral de curiosidades.

Intuía sempre que as minhas idas à biblioteca pública eram inúteis, ficava sambando nas estantes, insistia em não pedir ajuda (teimosia) e pegava livros incompreensíveis, mesclados com livros “fáceis” que fizeram minha cabeça.

Não vou citar livros, nomes de autor, isso tudo não importam agora. O que marcou foi esta confusão, parte intencional, parte desavisada, em que eu caía nas minhas tardes de biblioteca. Foi assim que o prédio deixou de ser cinza, que ele foi inventado por mim.

Passados os anos, entrei em várias bibliotecas, todas com gostos diversos, de cinzas e coloridos diferentes. Até me tornei bibliotecário. Tantas vezes cinza, outras vezes com cor. Trabalhei em várias delas, cinzentas e com cor.

Vejo biblioteca ainda hoje dessa maneira. Como algo a desorganizar um mundo paginado, como algo a derrubar uma certeza, limpar a área e construir novos caminhos. A biblioteca é o principio de nossas dúvidas.

Como posso imaginar o passado, como posso ver hoje e construir com o peso da minha vida dentro de bibliotecas, como leitor, como profissional, posso então inventar uma tarde que caberia em qualquer selva de estantes recheadas por livros e meninos perdidos. Posso imaginar que mandava naquela biblioteca, como mandava nas ruas em que jogava o futebol. Posso fazer e falar o que quiser . A fala a seguir cabe em qualquer uma dessas tardes, dessas vidas, desses prédios:

O bibliotecário pede silêncio na biblioteca e o menino rebelde responde:

“Não posso, as palavras fazem barulho na minha cabeça”

Talvez este menino tenha sido eu.

“E para acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e dançando um samba de arromba em que todas essas gentes
se alegraram com muitas pândegas liberdosas.”

(trecho do romance “Macunaíma”  de Mário de Andrade)


O papo é música popular e falar de música, ainda por cima popular, gera polêmica e fere suscetibilidades. E começamos a dizer que o termo popular é um RG, marca a individualidade, cada um quer carregar o seu “popular” e moldá-lo de acordo com a sua conveniência. Há um popular inventado para cada tese. Os historiadores adoram correr dessas delimitações. Nada de mal nisso, até que entramos numa discussão objetiva. Musica Popular Brasileira ou MPB, a aparência é de um termo inequívoco que representa a musica que o povo brasileiro faz ou gosta ou a música que se faz no território do Brasil. É? Não é.

Sabido é que o termo MPB foi criado  no meio da década de 60 do século passado. A bossa nova entrava na segunda fase, o engajamento e o protesto contra a ditadura militar nascente deram forma a MPB. Letras engajadas, música urbana, intelectualizada, pós-samba ,  as influências do nordeste, as contradições da industrialização e os laivos da guerra fria. Seu palco privilegiado eram os grandes festivais transmitidos pelas redes de televisão.  A MPB era a música dos engajados, dos universitários, dos pensantes. A MPB nasceu como um segmento em separado, dividido, apartado do “restante”.

O termo, a sigla MPB, marcou determinada época, serviu como trincheira de resistência política e estética, contra a ditadura, contra a invasão da música estrangeira. Foi o início. A caminhada a favor do violão, contra a guitarra, em 1967, tinha em suas fileiras, Gilberto Gil e Elis Regina, que eram já grandes nome da MPB recém-nascida. Logo depois, ambos voltaram atrás, se eletrizaram, mas este momento ficou marcado, um emblema da MPB.

Com o passar dos anos a MPB foi se “dourando” e atingindo o status de tudo que era sofisticado e “não popularesco”. Era (é) preciso ralar para ganhar a insígnia “MPB”, não esta(va) na mão de qualquer um. Esta distinção, esta diferença marcada, serviu bem a indústria cultural, que “sem maldade”, criou compartimentos, estilos, subgêneros, públicos segmentados e vendeu grandes tiragens de discos.

Diria o apocalíptico Theodor Adorno que nem a MPB não é boa, não é integral, que ela é vítima da “padronização de suas estruturas formais”, música menor, e se nem ela é, imagine o que esta fora do rótulo? Vem de longe este pensamento. Antes de tudo eram o erudito e o popular, as grandes marcações da diferença. O bom, o adequado, complexo e o ruim, o estabelecido, marcado pelo conforto, pelo estereótipo, ligeiro. E a MPB marcou o seu ligeiro, seu oposto, definitivamente ela não era o popularesco.

Se para os mais apurados de outrora nem a MPB seria adequada (a velha separação entre o erudito e o popular), o fato é que ela também nasce marcada pelo mesmo desejo/necessidade de distinção: “Tenho que ser diferente da música do outro”. Mas quem será o outro? O caos?  A música chula e sem ousadia. A música popularesca que se criou às margens de tudo isso. Enquadrada, parceira e, claro, outro produto da indústria cultural, que se baseava na música romântica “superada” pela bossa, na guarânia, nos tons mexicanos, na jovem guarda, nos ritmos nordestinos não “sofisticados”, nas letras de amor apelativo. Um grande mercado.

Tropicalistas bagunçaram esta lógica, a jogaram dentro de uma caixa dourada. Era tropicalista, não era brega, usava o brega ou a “não MPB” para fazer a MPB, o fuleiro, o fácil, o customizado, o confortável ficavam de fora ou serviam como alegoria. Quando eu era menino se falava música de empregada doméstica e de pedreiro.  Isso não era MPB. Depois derivou para o sambão jóia, pagode, guitarreiros, axé, breganejo, forró de teclado, funk… música do “outro”. Nomes, nomes.  A questão de classes presente e marcada.

Aparentemente os preconceitos se diluíram, e isso já ficou marcado lá nos anos 70, quando Caetano chamou Odair José para duetar. Diluir não é quebrar. O truque é atrair, fazer tributos, tornar “cult”, o fuleiro e fetichizar canções “fracas” na sua origem. E o que é “sofisticado se junta ao “outro” criando mais um produto.  A tropicalia e seu legado não é tão “chiclete com banana” como aparenta. A distinção entre popular e popularesco se aprofunda, pois depende do “Midas” que quebre a barreira entre um e o outro.

O salto dos anos 70 aos 80, fim da ditadura, rock brasil (que nunca foi admitido como MPB), os medalhões, outrora rebeldes, se tornaram o mainstream e se acomodam. Como disse um gaiato: MPB vira música de motel chique. A MPB esta confortável. Ela dilui o ritmos todos, contorcendo virando outras coisas, mas permanece MPB e distinta. O auge, porém, tem data longínqua. A MPB se torna uma segmento especifico , uma escaninho distinto nas lojas.

Vamos seguindo: MPB não é forró, não é samba, não é baião, não é rock, não é reggae, não é choro, nem rap… mas o tempo a misturou com tudo isso. Então, o que ela não é? Ela não pode insistir a ser o contrário do “ie ie ie”, eternamentecerto?

A revelia de qualquer rótulo a tecnologia mudou a relação das pessoas com a música, e a própria música. Ela ocupa agora espaços variados com as formas rápidas de acesso e as facilidades de produção. Facilita-se a escolha, mas aprofunda o efêmero. O tempo da música se acelera. O baile, o rádio e a tv são apenas parte dos referenciais, o acesso se ampliou. Podemos ouvir tudo que não ouvimos antes e bem rápido, as possibilidades de se informar aumentaram muito. O tempo encurta suas mangas e seu alcance. A música sempre retorna no tempo, por saudosismo ou necessidade de reconstrução, é redescoberta.

A música segmentada (em gênero e gênese) vai ser superada pela tecnologia? Os rótulos vão ficando mais confusos  e a tal MPB se mimetiza com vários outros (isso não é novidade), mais ainda com a crise dos formatos: LP, cd, mp3, streaming e a perda de identidade (e lugar) da industria fonográfica. Posso ser brega, sofisticado, fuleiro, erudito, alienado, engajado, sútil, ogro com apenas alguns cliques e minutos após deixar de ser tudo isso. Sem entrar em loja, sem comprar vitrola ou quaisquer suporte, sem exposição. Você pode se sentir confortável e ouvir só a sofisticação ou ser cult arejado, também uma brega empedernido.

Pra terminar: e se nesta altura do jogo jogássemos o rótulo fora, a quem serviria? Todo significado que a sigla carrega(va) se esvaiu? MPB, Música Popular Brasileiro, Música pra Pular Brasileira, Musica do Povo Brasileiro. Questiono se MPB (rótulo, sigla) sirva para distinguir algo hoje. Já me falaram que não importa o nome, que é apenas um rótulo. Será verdade? Arrepia-me o relativismo.  Podemos falar que hoje existe tão somente uma música brasileira dentro de várias? Tá liberado pra ser “brega” ou “sofisticado”  sem culpas? MPB pura ou misturada?

Pra cantar samba
Não preciso de razão
Pois a razão
Está sempre com os dois lados

Candeia

O negócio é falar de samba no dia do samba?

Dia do samba, o dia em que Ary conheceu a Bahia. Esta é uma das histórias.

Tomei a liberdade de falar do samba e com os seus heróis e falei antes do tal dia (nem lembrava do dia) : http://klaxonsbc.com/2011/11/29/samba-presta-esta-homenagem/ para adiantar que o samba dispõe de uma história que supera o dia que deram para ele.  O samba segue samba com sangue negro, branco e mestiço, nobre origem da mil vidas e mil faces. Ele muda pra driblar. Samba que alegra, samba que entristece, pois é triste sua origem. Deixa falar.  Pra falar de samba, tocar o samba, não precisa de razão.

O samba tem escopo, apoio e filosofia. Mora na filosofia. É bom que o samba siga apenas como escravo dos seus gozos. E não é por falta de filosofia que o samba vai perecer. Nem que seja aquela filosofia lá do quintal. E o samba apresenta suas odes filosóficas. Em homenagem ao samba. Dos bambas filósofos que cantaram e defenderam o samba. Lembrando que nínguem é dono da verdade do samba e ele não carece de catedráticos, nem de autoridades pra falar por ele.

De Noel, de Monsueto, Candeia, do Mussum, Adoniran…e daqueles com nome qualquer..

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