Arquivos

Arquivo mensal: abril 2012

Só vou comer agora da farinha do desejo,
Alimentar minha fome pra que eu nunca me esqueça,
Ah como é forte o gosto da farinha do desprezo,
Só vou comer agora da farinha do desejo.

Jards Macalé

Vou, volto, revolvo, movo, bulino, retorno ao assunto biblioteca. Para muitos um lugar em vias de extinção, a ser substituído por vias eletrônicas, para outros um local necessário, mas inexplicavelmente fora de suas rotinas e para outros tantos uma instituição inacessível, física ou simbolicamente.

Vamos falar de modernização de bibliotecas.

Sempre que se toca no assunto modernização de instituições, dentro do pressuposto que a referida parou no tempo e no espaço, a primeira coisa que inferimos é o que se pode trazer de fora, o que é alheio, que venha a transformar, cimento novo, novos alicerces. Modernização, repaginamento, nova postura, novos horizontes, o nome varia, os preceitos muito pouco.

Os vários jargões são usados conforme a conveniência, mas nem sempre o objetivo fica muito claro. Muitos acham modernização e biblioteca uma antítese. Exagero? Sim, mas muitas vezes confirmado até por quem defende as bibliotecas. A imagem de si próprio tem um peso enorme sobre decisões e caminhos.

O rompimento com uma postura anacrônica será sempre louvável, uma instituição pode sobreviver décadas remoendo seus vícios, dialogando com seus erros. A hora da virada, da mudança, tem que ser provocada e todo um planejamento deve ser feito para que as oportunidades não sejam desperdiçadas.

Modernizar uma biblioteca: o atendimento, o acervo, a estrutura física, o sistema, as atividades culturais. São pontos interconectados.

E assim, ouvimos sempre o mote: modernização de bibliotecas. O que na maioria das vezes não leva em conta a história da biblioteca, como ela se desenvolveu e em que momento e o porquê ela parou de sintonizar sua função com desafios e necessidades do tempo.

O que modernizar, para que modernizar, com que intuito modernizar e principalmente com quem e para quem modernizar. A “modernização” não é um conceito virtuoso por si.

Sem conhecer o patrimônio acumulado no tempo, a trajetória dos seus agentes diretos, os desejos e os recalques internos, como se constrói uma proposta de mudança? Modernizar vira uma peça autoritária quando não se dialoga com quem ou o que convencionamos rotular de arcaico.

Os profissionais que atuam numa biblioteca são esses agentes ativos, que transformam e se transformam na experiência da biblioteca. O patrimônio citado acima é tanto aquele do material armazenado na biblioteca, como o da cultura construída através do tempo, pelos funcionários e pelas políticas instituídas. Cada elemento deixa sua marca e seus reflexos.

A determinação de uma mudança de rumo que se refira ao dia a dia, aos costumes, a cultura e à forma de lidar com as rotinas de trabalho e a organização de uma biblioteca, deve estar acompanhada do profundo conhecimento e do dialogo com as fontes e os seres desejantes dessa biblioteca. Pessoas…

Sempre “a priori” costumamos perceber a poeira dos livros e a olhar carrancudo de funcionários insatisfeitos, mas devemos nos perguntar: “onde foi que isso começou, o quê e como se perdeu”?

Não se trata apenas de aplicar questionários e dinâmicas de grupo. De sugerir formulas mágicas que se pretendam transformadoras. Uma instituição ferida e com a auto-estima em baixa tende a expor mazelas e pintar um cenário de terra devastada sobre tudo que depende e deriva dela.

O segredo, a poesia, a reinvenção é extrair do patrimônio material e imaterial acumulado das pessoas, dos objetos (livros, móveis) a saída, o mote da mudança. A busca de novos caminhos deve ser feita de maneira coletiva, usando como alicerce, inclusive, estas marcas negativas que o tempo deixou.

O discurso sobre a inadequação da biblioteca paira sobre a sociedade. Não raro, ouvimos que a tecnologia vai eliminar a necessidade de bibliotecas. Por outro lado, o contraponto é de que a biblioteca se renova com a tecnologia atualizando seus usos e seu papel social. Deriva desses raciocínios o senso comum de que modernizar uma biblioteca é aparelhá-la de modernos recursos tecnológicos.

Esta é uma distorção que pode comprometer todo um trabalho, pois no meio dessa história existem as pessoas. Os processos de cada item devem ser respeitados. Principalmente no que se refere a recursos humanos. A máquina não fala por si, parece óbvio, mas é canto de sereia de muita empreitada frustrante.

Pessoas não são “modernizáveis” automaticamente, não se faz “upgrade” de mentalidade. O que existe é processo, amadurecimento coletivo, valorização da história, e daí, evita-se de colocarmos um ser desanimado e despreparado diante da última invenção tecnológica.

Os termos modernização, requalificação, revitalização, adequação quando aplicados de uma maneira arbitrária ou falsamente democrática podem comprometer qualquer mudança.

Um exemplo prático e simples dessa visão autoritária é o descarte de acervo. Descartar acervo muitas vezes carrega o sinônimo de limpar a biblioteca, abrir espaço, e nem sempre é eficaz. No próprio descarte é que iniciamos a decisão de como vai ser o novo perfil da biblioteca. Acervo renovado e descarte bem feito, com critério e seguindo parâmetros previamente discutidos é peça fundamental. Construir respiros e não lacunas nas estantes. Moldar uma política de aquisição e acervo.

Outro mito perpetuado é a modernização dos sistemas de informação. Sem dúvida um sistema ágil e múltiplo facilita o trabalho e o dia a dia de uma biblioteca. Em primeiro lugar a construção, implantação e utilização devem ser plenamente acompanhada e compartilhada com aqueles que fatalmente serão os primeiros usuários do sistema: os funcionários da biblioteca responsáveis pelo atendimento. Parece elementar, mas nem sempre este preceito é seguido. Sistemas mirabolantes são sugeridos, implantados, sem a participação de quem efetivamente vai usá-lo. O resultado podemos imaginar.

Além do que o “sistema” deve dialogar e estar aberto ás constantes mudanças que a natureza dinâmica da WEB impôs ao mundo conectado. Redes sociais, formas rápidas de comunicação e troca de informações. A construção do conhecimento e a disponibilização de informações em uma biblioteca passam por um sistema de que esteja aberto a estas possibilidades.

O espaço físico é talvez o elemento fundamental da biblioteca. Não que a beleza, a comodidade e a espacialidade determinem por si o caminho da biblioteca, mas nela e em suas reconfigurações podem estar embutidos e aglutinados todo o desejo e o anima de um local que queira de fato fazer circular a informação viva, a matéria prima do processo coletivo de construção do conhecimento.

Pensar os setores, os espaços, os móveis, as cores, tonalidades, as divisões físicas de acervo, a harmônia entre luz natural e artificial, as interligações dos serviços. E como o ser humano vai circular sobre o tal labirinto de referências e informações.

Por fim as atividades culturais. Mudar “o fazer cultural” de uma biblioteca é de primeira mudar o foco das atividades organizadas e provocadas dentro dela.Estabelecemos um foco, temas e formatos que tornem as atividades culturais da biblioteca claras para os frequentadores contumazes e aberta para que possam atrair outros segmentos, dentro de outros interesses.

Não se tratar aqui de alongar o assunto sobre escolha de temas ou formatos, o que se tem decidir é o que a biblioteca vai abordar e como deve chegar ao público alvo. O processo vai determinar (e daí a parceria com os diversos públicos é fundamental) as mudanças estruturais de uma programação cultural da biblioteca.

Modernizar é um passo, de início uma intenção, que não se congele dentro de uma formula e metas esparsas. Não deixar de fora a invenção, a farinha do desejo e a vontade de avançar.

Este é apenas o início da discussão, sem pretensão de receita ou de ditame…hora de debater, hora de agir…

All I wanted was your time
All you ever gave me was tomorrow
All I wanted was your time
All you ever gave me was tomorrow

O espanhol, Buenaventura Durruti Dumange e seus seis mil homens de várias partes do mundo, a resistência ao franquismo, a luta pela liberdade. A coluna que abraçou Barcelona e Zaragoza. Resistiu com armas e plantou a utopia do coletivismo. Durruti liderava a frente anarquista, era a Coluna Durruti.

Durruti morreu em circunstâncias obscuras no ano de 1936.

Logo após, o franquismo grassaria na Espanha durante muitos anos.

Não pretendo fazer resumo da Guerra Civil Espanhola, quero sim achar o mote para falar de uma banda de várias formações, todas elas em torno do cantor e guitarrista egresso de Manchester, Vinny Reilly.  Final dos anos 70, era o Duruti Column.

Em pleno momento punk e suas referências anarquistas, Vinny, supostamente, quer homenagear Buenaventura e dá este nome à banda. O som não tem nada de explosivo, são peças delicadas e minimalistas (na concepção e nos instrumentos) com referências jazzísticas, eruditas e outros sons pouco presentes na cena punk, como o flamenco.

Do seu jeito, Vinny anarquizava a cena pós(punk) de Manchester cometendo delicadezas. Superando os problemas com anorexia e a peculiaridade de sua música.

Começou com o “The Return of the Durutti Column’ de 1979 na lendária Factory Records e gravou regularmente até o último álbum “A Paean To Wilson” em 2009.

Os dois personagens se equivalem em resistência.

Uma das peças de Durutti/Vinny que mais gosto, gravação de 1983 do álbum “Friends in Portugal”

Tomorrow (Never Comes).

Fico pensando que a melodia ficaria viajando em falso pelo mundo se não existisse Burt Bacharach.

Bacharach aliviou a tese do fim da beleza no século 20. São mais de 90 sucessos (creio que seja isso). Um top hit permanente que recheou décadas.

Não caberiam  todos nomes de canções e de intérpretes num post. The Shirelles, Gene Pitney, Andy Williams, Jack Jones, Dusty Springfield, a preferida Dionne Warwick…os filmes, as orquestras, os parceiros…as letras de Hal David.

Desde que comecei a gostar e ir atrás de informações sobre música, lia entrevistas e citações de músicos de todos os estilos que reverenciavam Burt Bacharach. Os roqueiros, muitos, citando-o como o maior dos melodistas.

Além do mais, ouvia Burt pela vida, rádio, casa de parentes, listas de amigos, lojas de discos, canções que fizeram passar bem o tempo.

Um século (pop) nas mãos de Burt Bacharach.

As canções desse tal “maestro do pop”  foram entrando na minha vida.

O mais importante são as histórias que conduzem a música, que não tem nexo, nem jeito de contar sem a presença dela. As músicas existem antes das histórias. Mas passam a fazer parte “delas”, ficam indissociáveis.

Eu tenho uma:

Noite de desesperança, as idéias confusas, precisava tomar uma decisão. Ia e voltava e não tomava coragem, sensação total de “o mundo caiu”. Muita tristeza vem sem música, não cabem as melodias. Seco, duro, tão somente as palavras. Essa era uma dessas, nem forçando  vinha à memória qualquer canção.

Entrei no chuveiro para me despedir. Era o banho do “vamos embora, e decerto isso seria logo após. Me sentia pesado e lento.

Desde sempre tenho um rádio à beira de qualquer chuveiro onde eu possa deixar. E lá estava o rádio, quietinho.

Virei o cilindro do on/off.

Depois de um pequeno silêncio começou…sem letra…só a melodia… a letra viria a fazer parte (isso bem depois), a  versão tocada naquela noite não tinha as palavras só os vocalises…o rádio não me traiu…

Tell me now is it so don’t let me be the last to 
know
My hands are shakin’ don’t let my heart keep 
breaking ’cause
I need your love, I want your love
Say you’re in love, in love with this guy, if not 
I’ll just die

Esta letra seria o total paradoxo do momento, não poderia ser mais inadequada. Momento de abandonar. No entanto a melodia sozinha deu conta de deixar tudo simples, tudo leve. E veio.
This Guys in Love With You.
Desde então costumo dizer que esta é a música mais bonita desde sempre. A história se foi. A dor daquele momento nem é de longe a maior que eu tive. Ficaram o chuveiro, o rádio, a melodia…o tempo organizou assim…
Não cabem mais detalhes, são desinteressantes e datados. Hoje apenas tapete de condução para a música.
A canção ficou aqui comigo e reitero:
Fico pensando que a melodia ficaria viajando em falso pelo mundo se não existisse Burt Bacharach.
Mestre!!

I think I’m one of the best songwriters in the world”

 Michael Head

Michael Head é tido como uma cara de pouca sorte. Nos anos 80 liderou o Pale Fountains, banda de Liverpool, de onde veio o Fab Four. O dobro em responsabilidade. Liverpool é a referência da reinvenção do rock, de lá vieram as idéias e a realização de um novo formato da industria cultural. Além do mais são contemporâneos dele o Echo and Bunnymen e do Teardrope Explodes (Julian Cope), bandas que tiveram razoável sucesso em suas carreiras.

Pale Fountains não rolou, foram dois discos (Pacific Street de 1984 e …From Across the Kitchen Table de 1985) e um contrato rompido com a então poderosa Virgin Records. Muita expectativa e vendas baixas. industria implacável.

Michael Head perambulou pela vida depois do fim da banda. Heroína, depressão, caminhos tortos. Histórias imprecisas contam que ele dormia em estações de trem de Londres e do interior da Inglaterra. Irreconhecível. Os ecos da música de Burt Bacharach e das melodias sessentistas que tanto o influenciaram, tudo isso passava longe.

No final da década de 80, Michael e seu irmão John voltariam à cena musical com “The Shack”. Longe da heroína, mas também ainda longe do sucesso. Primeiro disco  do The Shack (Zilch/1988) não embalou e o segundo (Waterpistol/1995) demoraria anos para ser lançado, já que as “masters” foram perdidas de forma misteriosa. Como os discos do Pale foram sucesso de crítica, mas não de público.

Foi com “HSM Fable” de 1999 que o eles atingiram um certo sucesso. Michael Head voltaria a sorrir, não pelas vendas do álbum, mas por ter suas melódicas canções compreendidas e ouvidas por um público maior. São verdadeiramente belas as suas canções. Depois vieram “Here’s Tom The Weather” (2003) e “The Corner of Miles and Gil” (2006).

Michael teve o privilégio de tocar e gravar em 2000 com um dos seus ídolos, o lider da influente banda Love, Arthur Lee (Shack and Arthur Lee – Live in Liverpool) , uma das referências do psicodelismo que ele trouxe em suas canções e em sua trajetória.

Má sorte ou boa sorte não bastam para contar sua história. Michael Head e seu vários projetos (Pale Fountains, Shack, The Streams, Michael Head & The Red Elastic Band) é um exemplo de resistência, persistência e uma permanente qualidade. Ele foi ao inferno e voltou sem parar de tocar e pensar sua música.

Michael Head não é um cara amargo. Persiste. Toca, faz  shows, compõe, acredita na música. Esta vivo.

A frase que inicia o post é, paradoxalmente, de uma singeleza a toda prova.Michael se acha “o melhor”, sim, mas é apenas para se manter vivo e continuar fazendo o que sabe:   belas canções.

Ederaldo Gentil faleceu na última sexta (30/03) à noite. Ederaldo Gentil, tenho que explicar, era um sambista, profícuo sambista. Sambista baiano, compunha sambas tristes na Bahia. É difícil para muitos admitir que o samba é triste, ainda mais quando baiano. Ederaldo caprichou tanto que fez até um samba com um título para despistar “Esquece a Tristeza”:

Deixa esta tristeza

E vem brincar ao lado meu

Lembra é carnaval

E ficar triste

Hoje faz mal

Ederaldo nasceu na Bahia, e ali no centro de Salvador, achou seu rumo no samba, no carnaval, nas brincadeiras de menino, cantou junto com o povo. Inspirado, compôs logo depois e mais ainda, cantou suas composições. Se virava como podia e a música não lhe deu sustento. Entre bicos e descaminhos aportou no carnaval. Carnaval não paga salário, nem garante título. Mas foi (é) assim com muitos e Ederaldo não desistiu:

Lá na Bahia

Todo branco tem um nego na famia

Gegê, Bantu ou nagô

Seu doutor, vim de Luanda

Pra namorar a sua fia

Nego amor, nego amor

E o compositor brasileiro, Ederaldo Gentil, foi fazer música pra mais gente ouvir. Despontou, muita gente o “descobriu”, fez sambas (alguns tristes) gravados por Jair Rodrigues, Conjunto Nosso Samba, Eliana Pitman, Roberto Ribeiro, Alcione, e continuou Ederaldo do centro de Salvador:

Vem que a feira é do rolo 

vem quem tem pra rolar 

quem tiver faz o troco 

quem tem para trocar

E o samba que pouca importa se nasceu no centro do Rio, na Bahia, no Vale do Paraíba ou  se já o era na África,  este  samba acolheu o rapaz Ederaldo, o homem Ederaldo Gentil veio ao Brasil cantar seu Ouro e Madeira. Um samba que vive na memória de muitos:

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce do lodo

Gerando pérolas finas

E como um desses muitos casos neste pais do ECAD, Ederaldo pinçou canções de muito sucesso, mas que não “mudaram” sua vida. A grana não veio (é sempre mais fácil e comodo taxar o artista de “péssimo administrador de sua carreira) e o tempo passou.  A inspiração e a beleza perenes em sua obra, não contaminaram sua vida prática. Entre o desejo de um país que acolhe seus artificies, das letras, das melodias, e aquele que as esquece como capa de disco envelhecida, o segundo vence quase sempre:

É o INPS, FGTS

IRSS, o seguro e o PIS

Com trinta de trabalho

Estou aposentado

E com mais de 70

Eu penso ser feliz

Ederaldo gravou meia duzia de discos, registros parcos de um talento visível. Podemos intuir que muita coisa ficou represada entre a idéia e a impossibilidade de realização. Música popular é assim, nem sempre vem a tona, chega tarde ou nem chega aonde deve:

Quando eu cheguei era manhã

Fazia frio e um vazio dentro em mim

Nas mãos a mesma esperança

No peito a minha ilusão

Sem saber prá onde ir

Não adianta lamentar a perda de Ederaldo, a velha máxima das “flores em vida” do Nelson Cavaquinho deve prevalecer. Bacana seria olhar ao lado, para trás, para onde quer que seja e ouvir, falar, enxergar, lembrar dos compositores que descansam esquecidos e querem sua obra cantada e viva. Ederaldo fez sua parte, honremos a vida que levou:

Tal qual uma real posição

Cada mão com sua impressão digital

Bem maior o brilho do sol no verão

Cada qual no seu lugar natural

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.219 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: