Modernizar biblioteca


Só vou comer agora da farinha do desejo,
Alimentar minha fome pra que eu nunca me esqueça,
Ah como é forte o gosto da farinha do desprezo,
Só vou comer agora da farinha do desejo.

Jards Macalé

Vou, volto, revolvo, movo, bulino, retorno ao assunto biblioteca. Para muitos um lugar em vias de extinção, a ser substituído por vias eletrônicas, para outros um local necessário, mas inexplicavelmente fora de suas rotinas e para outros tantos uma instituição inacessível, física ou simbolicamente.

Vamos falar de modernização de bibliotecas.

Sempre que se toca no assunto modernização de instituições, dentro do pressuposto que a referida parou no tempo e no espaço, a primeira coisa que inferimos é o que se pode trazer de fora, o que é alheio, que venha a transformar, cimento novo, novos alicerces. Modernização, repaginamento, nova postura, novos horizontes, o nome varia, os preceitos muito pouco.

Os vários jargões são usados conforme a conveniência, mas nem sempre o objetivo fica muito claro. Muitos acham modernização e biblioteca uma antítese. Exagero? Sim, mas muitas vezes confirmado até por quem defende as bibliotecas. A imagem de si próprio tem um peso enorme sobre decisões e caminhos.

O rompimento com uma postura anacrônica será sempre louvável, uma instituição pode sobreviver décadas remoendo seus vícios, dialogando com seus erros. A hora da virada, da mudança, tem que ser provocada e todo um planejamento deve ser feito para que as oportunidades não sejam desperdiçadas.

Modernizar uma biblioteca: o atendimento, o acervo, a estrutura física, o sistema, as atividades culturais. São pontos interconectados.

E assim, ouvimos sempre o mote: modernização de bibliotecas. O que na maioria das vezes não leva em conta a história da biblioteca, como ela se desenvolveu e em que momento e o porquê ela parou de sintonizar sua função com desafios e necessidades do tempo.

O que modernizar, para que modernizar, com que intuito modernizar e principalmente com quem e para quem modernizar. A “modernização” não é um conceito virtuoso por si.

Sem conhecer o patrimônio acumulado no tempo, a trajetória dos seus agentes diretos, os desejos e os recalques internos, como se constrói uma proposta de mudança? Modernizar vira uma peça autoritária quando não se dialoga com quem ou o que convencionamos rotular de arcaico.

Os profissionais que atuam numa biblioteca são esses agentes ativos, que transformam e se transformam na experiência da biblioteca. O patrimônio citado acima é tanto aquele do material armazenado na biblioteca, como o da cultura construída através do tempo, pelos funcionários e pelas políticas instituídas. Cada elemento deixa sua marca e seus reflexos.

A determinação de uma mudança de rumo que se refira ao dia a dia, aos costumes, a cultura e à forma de lidar com as rotinas de trabalho e a organização de uma biblioteca, deve estar acompanhada do profundo conhecimento e do dialogo com as fontes e os seres desejantes dessa biblioteca. Pessoas…

Sempre “a priori” costumamos perceber a poeira dos livros e a olhar carrancudo de funcionários insatisfeitos, mas devemos nos perguntar: “onde foi que isso começou, o quê e como se perdeu”?

Não se trata apenas de aplicar questionários e dinâmicas de grupo. De sugerir formulas mágicas que se pretendam transformadoras. Uma instituição ferida e com a auto-estima em baixa tende a expor mazelas e pintar um cenário de terra devastada sobre tudo que depende e deriva dela.

O segredo, a poesia, a reinvenção é extrair do patrimônio material e imaterial acumulado das pessoas, dos objetos (livros, móveis) a saída, o mote da mudança. A busca de novos caminhos deve ser feita de maneira coletiva, usando como alicerce, inclusive, estas marcas negativas que o tempo deixou.

O discurso sobre a inadequação da biblioteca paira sobre a sociedade. Não raro, ouvimos que a tecnologia vai eliminar a necessidade de bibliotecas. Por outro lado, o contraponto é de que a biblioteca se renova com a tecnologia atualizando seus usos e seu papel social. Deriva desses raciocínios o senso comum de que modernizar uma biblioteca é aparelhá-la de modernos recursos tecnológicos.

Esta é uma distorção que pode comprometer todo um trabalho, pois no meio dessa história existem as pessoas. Os processos de cada item devem ser respeitados. Principalmente no que se refere a recursos humanos. A máquina não fala por si, parece óbvio, mas é canto de sereia de muita empreitada frustrante.

Pessoas não são “modernizáveis” automaticamente, não se faz “upgrade” de mentalidade. O que existe é processo, amadurecimento coletivo, valorização da história, e daí, evita-se de colocarmos um ser desanimado e despreparado diante da última invenção tecnológica.

Os termos modernização, requalificação, revitalização, adequação quando aplicados de uma maneira arbitrária ou falsamente democrática podem comprometer qualquer mudança.

Um exemplo prático e simples dessa visão autoritária é o descarte de acervo. Descartar acervo muitas vezes carrega o sinônimo de limpar a biblioteca, abrir espaço, e nem sempre é eficaz. No próprio descarte é que iniciamos a decisão de como vai ser o novo perfil da biblioteca. Acervo renovado e descarte bem feito, com critério e seguindo parâmetros previamente discutidos é peça fundamental. Construir respiros e não lacunas nas estantes. Moldar uma política de aquisição e acervo.

Outro mito perpetuado é a modernização dos sistemas de informação. Sem dúvida um sistema ágil e múltiplo facilita o trabalho e o dia a dia de uma biblioteca. Em primeiro lugar a construção, implantação e utilização devem ser plenamente acompanhada e compartilhada com aqueles que fatalmente serão os primeiros usuários do sistema: os funcionários da biblioteca responsáveis pelo atendimento. Parece elementar, mas nem sempre este preceito é seguido. Sistemas mirabolantes são sugeridos, implantados, sem a participação de quem efetivamente vai usá-lo. O resultado podemos imaginar.

Além do que o “sistema” deve dialogar e estar aberto ás constantes mudanças que a natureza dinâmica da WEB impôs ao mundo conectado. Redes sociais, formas rápidas de comunicação e troca de informações. A construção do conhecimento e a disponibilização de informações em uma biblioteca passam por um sistema de que esteja aberto a estas possibilidades.

O espaço físico é talvez o elemento fundamental da biblioteca. Não que a beleza, a comodidade e a espacialidade determinem por si o caminho da biblioteca, mas nela e em suas reconfigurações podem estar embutidos e aglutinados todo o desejo e o anima de um local que queira de fato fazer circular a informação viva, a matéria prima do processo coletivo de construção do conhecimento.

Pensar os setores, os espaços, os móveis, as cores, tonalidades, as divisões físicas de acervo, a harmônia entre luz natural e artificial, as interligações dos serviços. E como o ser humano vai circular sobre o tal labirinto de referências e informações.

Por fim as atividades culturais. Mudar “o fazer cultural” de uma biblioteca é de primeira mudar o foco das atividades organizadas e provocadas dentro dela.Estabelecemos um foco, temas e formatos que tornem as atividades culturais da biblioteca claras para os frequentadores contumazes e aberta para que possam atrair outros segmentos, dentro de outros interesses.

Não se tratar aqui de alongar o assunto sobre escolha de temas ou formatos, o que se tem decidir é o que a biblioteca vai abordar e como deve chegar ao público alvo. O processo vai determinar (e daí a parceria com os diversos públicos é fundamental) as mudanças estruturais de uma programação cultural da biblioteca.

Modernizar é um passo, de início uma intenção, que não se congele dentro de uma formula e metas esparsas. Não deixar de fora a invenção, a farinha do desejo e a vontade de avançar.

Este é apenas o início da discussão, sem pretensão de receita ou de ditame…hora de debater, hora de agir…

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5 comentários
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Como modernizar, tornar atrativo um espaço tão rico de tantas gerações? Hoje presa ao mundo virtual/Digital, é um desafio imenso, nas escolas, nas redes sociais, no programas educacionais, mostrar a Biblioteca como espaço de conhecimento e de um mundo fantástico, atraindo as crianças e os jovens.

    Arnóbio

  2. Cara, acabei de lembrar, que qdo eu tinha 8 anos, ganhei na escola um livro chamado arranhão engavetado, era simples, mas o legal foi o motivo por ter ganho, da minha turma, ou seja toda a segunda série, eu ganhei pq a professora desenvolvia um trabalho com violão, musica e eu participava com letras de rap e num unico mês li uns 2 livros, foi bacana a experiencia, ninguém substitui as pessoas na bibliotecas.

  3. Não é à toa que Borges imaginava o paraíso como uma grande biblioteca. Bem mais preguiçoso que o gigante argentino, imagino-o uma mezzo-biblioteca, mezzo-cedeteca, com livros, discos, filmes à mancheia e um aparelho de som da Bose!!!!! :-)
    Mas, gracinhas à parte, é preciso pensar a biblioteca como um organismo vivo, pulsante, capaz de encantar e transportar as pessoas a esse “mundo fantástico” de que fala o Arnóbio. Talvez a atmosfera solene e o clima reverencial que circunda a biblioteca, em geral, seja um pouco intimidador, mas impõe-se que os gestores sejam criativos e pensem em maneiras de tornar esse espaço o mais acolhedor possível, retirando dali essa idéia, equivocada, de que seja um ambiente asséptico ou hermético.
    Todavia, é preciso criar a cultura da biblioteca, mas sem passar às pessoas a impressão de que ali é um espaço de diversão, como um playcenter da vida. A biblioteca é um espaço de cultura e tem que possuir seus mistérios – faz parte do seu encanto primordial. Creio que é por isso que Calvino dizia que uma biblioteca ideal é composta de 50% de livros que você já leu e de 50% de livros que você pretende ler. Os que a frequentam precisam se tornar seus cúmplices, mas não devem ter com ela aquele tipo de “intimidade” banalizadora. Equilibrar essas abordagens é o segundo maior desafio dos nossos gestores. O primeiro, como você bem observou, é torná-las um espaço público que as pessoas reputem tão indispensável quanto um hospital, uma escola ou um posto de saúde.
    Abraços – bom encontrar por aqui “transeuntes” virtuais tão ilustres e queridos quanto o nosso Arnóbio, o homem para quem o ofício de refletir e de nos convidar a fazê-lo é tão natural quanto é para nosotros o ato de respirar! Pena que ele seja corintiano :-) Mas como dizia minha avó Lalá: “não existe um bom sem defeito”. E podia até ser pior: ele podia torcer praquele time cujo símbolo é uma ave que come lixo!

    • Érico,

      Seu comentário toca num ponto fundamental: a biblioteca não precisa virar um circo (nada contra o circo) e se transformar em algo distorcido para afirmar sua relevância.

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