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Arquivo mensal: junho 2012

Não há nenhuma ilusão sobre a integração total das raças, tampouco o porvir da democracia racial no mundo. Sem triunfalismos, sem evocações demagógicas. Mas o mundo vai mudando em sutilezas. Muitas vezes esconde as mazelas, o perverso em gestos pequenos ou em movimentos simulados. A neblina de nossos tempos

Os dois gols do atacante italiano de pais ganeses, Mario Balotelli, contra a Alemanha na semifinal da Eurocopa são um emblema do mundo enviesado. Ele que foi abandonado quando criança, criado por país adotivos, um negro num país dominantemente branco. São estas histórias que mais confundem do que traduzem. Representam muito mais do que pensamos dominar.

Em nossos exercícios de pieguice sonhamos ser esta  uma história de sagração das raças. Jovem de 21 anos, o atacante se destacou com gols e polêmicas na Inter de Milão. Vivia às turras com o técnico português José Mourinho (a ditadura dos técnicos de futebol), entre gols geniais e indisciplina. Foi para o Manchester City e continua a saga de irreverências.

Não é o exemplo, não é bonzinho, não é “grato” por estar onde esta. Balotelli é o gol e seu físico que o faz ganhar grana e sair da lista de cidadãos de segunda classe. Sabe que escapou por um triz e exerce este “direito”.

Balotelli não representa pouca coisa, ele colore uma seleção branca, da terra de Mussolini, da terra do time racista, Lázio, onde parte considerável do pensamento odeia tudo que não seja parecido com o que é igual a si. Não é o caso de jogar toda uma nação na cota racista, seria a outra face da estupidez. Mas é emblemático, como já disse, Balotelli bagunça a lógica.

Ele sofre  xingamentos jogo a jogo. Há muitos olhos e desejos à espreita de seus erros. Como gladiador pós-moderno fecha o rosto e se esconde na auto-confiança e repele tudo com atitudes agressivas. Marrento. Guerra surda.

É um tempo de contradições, onde a intolerância cresce, e uma potencial vitima dessa intolerância, por um desvio estatístico, vira herói de um país em crise economica, em crise de autoestima. É um momento que mais oscila do que afirma.

Balotelli é a anti-afirmação de nossos tempos.

Não, não vou lembrar os detalhes. O tempo que passou escondeu as cores sutis, são borrões que lembro ou cores fortes e cheias, eles cobrem as dobras e as informações. Minha paixão por futebol começou na antípoda, na contramão do que meu irmão pensava. Ele era corintiano. Eu não poderia torcer pelo Corinthians. Nas idas e vindas, minha então pequena e tímida tendência barroca me fez torcer para a Lusa… mas esta é outra história, não é o motivo deste momento.

Nesta noite (20/06/2012), o Corinthians se classificou para a final da Libertadores. Sonho de todo corintiano. Era sonho do meu irmão também. E volto a ausência de lembrança sugerida no começo do texto. Era início de dezembro de 1976. O Corinthians chegara, após uma campanha difícil, à semifinal daquele Campeonato Brasileiro.

Fluminense x Corinthians, 5 de dezembro de 1976, Maracanã, domingo à tarde.

Corta para a casa da Rua Ipiranga, Vila São João, São Bernardo do Campo, a noite de sábado do dia 4 de dezembro envelhecia. Dona Conceição como de costume preocupada com o filho do meio, Davi, que não chegava nunca. Dormiu mal. Alguma coisa me dizia que ele tinha se picado para o Rio de Janeiro, falara daquele jogo a semana toda. Madruga adentro e nada de aparecer. Mãe sem sono. Nada do filho.

Domingo de manhã, alguém comentou que ele foi ao Rio (não lembro quem, eram os detalhes, detalhes, detalhes). A mãe não ficou tranquila. A manhã passou. E no fim da tarde tinha jogo ao vivo na TV. Final tão esperada. Futebol ao vivo na TV era um aconteciment raro, e todo mundo assistia, independente do time. A tv a pouco adquirida, Philco Ford, tava ligada. A mãe com a cabeça no Rio de Janeiro, não no jogo, no filho.

O Corinthians era bem Corinthians. Um time limitado tecnicamente, mas com jogadores marcadamente corintianos, no pathos, no profundo, brigadores. E lá iam escalados:

Tobias; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Wladimir; Givanildo, Ruço e Neca. Waguinho, Geraldão e Romeu.

Um time de batalha, sem brilhos individuais, talvez o único era meia Neca, um pouco mais habilidoso. O técnico era o Duque, o presidente, folclórico e esperto, Vicente Matheus.

Do outro lado, o Fluminense tinha um time de craques, timaço, futebol solto, toques rápidos, habilidade, com vencedor de Copa de Mundo e tudo, com a fama dos times cariocas, que jogavam com a bola no chão, toque rápidos, cheio de recursos.

Renato; Rubens Galaxe, Carlos Alberto Torres, Edinho e Rodrigues Neto; Carlos Alberto Pintinho, Cléber (Erivélto) e Rivellino; Gil, Doval e Dirceu.

O técnico era Mario Travaglini, o presidente do Fluminense era o ruidoso e arrogante Francisco Horta.

O clássico teve um adendo para aguçar. Um ano antes, o Corinthians negociara com o Fluminense, um dos seus maiores ídolos, Roberto Rivelino. Negócio polêmico e que rendera horas de bla bla bla nos programas esportivos, apesar de que depois do título perdido para o Palmeiras em 1974, o Reizinho do Parque caíra em mau conceito com parte da torcida corintiana.

O duro é que no Fluminense jogando mais solto e livre para atacar, Rivelino estava rendendo muito mais do que no Parque São Jorge. A bronca dos corintianos era em dobro. Condimento para o dia.

De testa eu falei que não lembrava os detalhes. Eu tava no sofá sentado, meu pai deitado e dizendo que o Fluminense era muito mais time. Corriqueiramente eu torceria contra o Corinthians, mas tinha a treta Rio x SP, era forte, talvez maior que a oposição ao irmão. Por outro lado o time que eu gostava no Rio era o Vasco, por conta do Roberto Dinamite. Indecisão.

Se não erro a TV era preto e branco. E começa o jogo, não me perco em detalhes, não lembro. A mãe cozia as palavras em lamento e pragas (medrosas, amedrontadas) para o filho rebelde que pegara um ônibus e fora para o Maracanã, um mundo desconhecido, ver o time do coração. O jogo era quase um sacrilégio na casa. Corria.

Pela manhã até próximo ao jogo, corriam as informações no rádio, ouvia muito rádio, eu e meu pai. Os corintianos haviam invadido o Rio de Janeiro, aquele bando de paulistas desajeitados chegaram na manhã de domingo fincando suas bandeiras nas praias lindas e descoladas do Rio. A torcida do Flamengo os recebera em festa como aliados invasores. Eram 70 mil corintianos que dividiriam a festa do “maior do mundo”.

Fiquei colado no rádio ouvindo e imaginando o meu irmão nas suas aventuras. Imaginei tanto que hoje não saberia descrever o que realmente ele contou depois e o que eu inventei na minha sanha curiosa de criança. Futebol, Maracanã, Rio de Janeiro, coisas mágicas e naquele momento distantes o bastante para dar asas á ficção. Os repórteres e comentaristas douravam e transformavam aquilo em ópera,

O jogo, o jogo, os detalhes, o Fluminense abriu o placar com Carlos Alberto Pintinho, toque sutil, golaço. Minutos depois, o Corinthians empataria através do carioca, vindo do Bangu, jogador com a cabeleira black no formato e clara na cor, daí o apelido, Russo. Cabeça de área, brigador, fez um gol de puxeta dentro da área coalhada de gente e levou ao drama o restante da partida.

Meu pai dormitava aos poucos durante o jogo, isto acontecia normalmente independente da intensidade e emoção que rolava, e o jogo corria, era silêncio nas ruas vizinhas, de corintianos apreensivos e todo resto calado a espera da vitória do Fluminense. Meu irmão sempre usava o jargão: “existem os corintianos e os que não gostam do Corinthians”.

Eu não havia decidido. Não sabia se torcia para lá ou para cá. Se o irmão tivesse perto, reinaria a alma mais pó de arroz do universo em mim, mas ele tava longe e eu podia ser livre para escolher. Eu e minha eterna escolha pelos “losers”, errei ao acertar. Fui Corinthians naquela tarde de 1976, o time mais marrudo contra o time “toque leve” do Nenseeeeeee (que se ouvia em eco no dividido Maraca).

A ladainha do rádio ligado junto com o barulho da TV. A casa do domingo. A mãe se calara no quarto. Resignada? De jeito nenhum, quando em vez ela desandava uma fala direta, como se o filho fujão tivesse ali do seu lado. Chegara o final do jogo. O empate no tempo regulamentar. Os tais pênaltis.

Para brasileiro penal é sempre um drama no futebol. Não tinha final mais apropriado para aquela ópera. Tobias pelo Corinthians e Renato pelo Fluminense, os goleiros. Conversa ao pé do ouvido para escolher os cobradores. Aquele interregno clássico. O pulso do Maracanã era intenso. Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976.

Começaram as cobranças, e ai não tem como não pular mil detalhes, mas lembro do capitão da Copa de 1970, Carlos Alberto Torres, o marido da Terezinha Sodré (casal badalado dos anos 70) que foi o segundo a cobrar pelo Fluminense, Rodrigues Neto perdera o primeiro, e ele também perdeu. Ali se desenhava a explosão do Maracanã, naquela tarde, corintiano.

Zé Maria, o vencedor da Copa de 70 do lado alvinegro, na quarta cobrança ratificou a vitória corintiana. E a rua explodiu, Osmar Santos esgoelou e desatou a falar, falar sobre a alma corintiana no rádio, meu pai pigarreou e sorriu, minha mãe fez muxoxo e marrenta deve ter sorrido por dentro. As ruas eram corintianas. Eu praguejei contra os cariocas, criança ufanista que era. Coisa que passou.

Em algum lugar do Maracanã meu irmão pulava o desafogo da noite mal dormida e de toda a adrenalina acumulada, creio. Era um mar de bandeiras, de vibração, a TV mostrava a festa nas arquibancadas.

O Maracanã era tão lindo, mais ainda pela impossibilidade de vê-lo de perto. E o domingo se fechava na tarde. O fim.

Dia seguinte, só no dia seguinte, meu irmão estava em casa. A bronca, a fala da mãe, um tanto aliviada, o mano na sua cara de bamba levado, quase em delírio pela vitória, pela ida ao Rio, a primeira, pelo Corinthians que amava. Pouco contou da história do jogo e da viagem, ficou em silêncio negociando a tolerância da mãe, ficou o mistério e eu pude sustentar minha versão ficcional. A vida seguiu na casa da Rua Ipiranga.

A poesia nem sempre acaba em beleza, dias depois o Corinthians sucumbiria diante do Internacional de Porto Alegre de Falcão, Figueroa, Batista, Dadá Maravilha, este um timaço. O quase título do Corínthians teve seu clímax naquela tarde do Maracanã.

Esta é a minha história do jogo de1976, a invasão corintiana no Rio. Creio que mandei meu irmão de emissário na época para agora contar esta história, nesta madrugada, logo após o Corinthians se classificar pela primeira vez para uma final de Libertadores. O futebol é sempre catártico.

É o que posso fazer.

Como em 1976, no dia de hoje meu irmão não estava aqui ao meu lado vendo o jogo, ele partiu para uma viagem mais longa e não verá também a final da Libertadores. Como naquela tarde de 1976 vou ter que contar a minha versão e a dele também, encher de palavras um silêncio que insiste em ser silêncio.

Carlos Reichenbach era um daqueles caras ímpares (sem eufemismos). Cineasta, amante do cinema, da música, da literatura, dos papos que incluíam tudo isso, da política, da liberdade, dos detalhes da vida.  Um utópico, inconformista, radical na beleza que esta palavra carrega e afirmava isso continuamente.

Seus filmes acima do “bom” e “ruim” expressavam suas idéias (isso não é pouco nesses tempos cujo as idéias são desvalorizadas, ficam a margem) e ocupavam lugar especial na filmografia Nacional. Atravessou mais de cinco décadas fazendo filmes de fato.

Filme Demência, Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Dois Córregos, os filmes da fase “boca do lixo”, como “Ilha dos Prazeres Proibidos, os curtas…Sua produção implicava em filmes e numa longa peregrinação de textos, entrevistas, palestras e papos sobre cinema, sobre a vida e as paixões que compunham a matéria prima dos seus filmes.

Gosto especialmente de Alma Corsária.

Lembro de uma palestra do Carlão nos anos 80 lá na Três Rios, ele relatou apaixonadamente suas andanças pelos cinemas, suas descobertas, sua relação com a cidade. O homem a obra, os diálogos apresentados de maneira simples. Falava de detalhes técnicos e da poesia do cinema, sem separar, integralmente. Um homem que pisava nas ruas. Desde então acompanhei tudo que pude sobre ele.

De vez em quando ele parecia aqui nas redes sociais e postava links de filmes de vários estilos e épocas, todos com a marca do seu gosto personalíssimo, verdadeiras aulas. Chamava estes posts de “socialismo”, não perdia a oportunidade de marcar seus atos, generoso.

A perda do Carlão é a típica perda irreparável, não dá pra construir, para inventar outro Carlão, nem no cinema. Sem mais metáforas esvaziadas (ele detestaria). Falta fará.

                                                       

                           Low lie, the Fields of Athenry
                           Where once we watched the small free birds fly.
                           Our love was on the wing, we had dreams and songs to sing,
                           It’s so lonely ’round the Fields of Athenry.
                                                                                 Pete St John
Final de tarde, final de expediente, estava acompanhando pelo twitter os resultados e comentários dos jogos da Eurocopa. Espanha dando um vareio na Irlanda, 4 x 0. A retranca do técnico Trappatoni da Irlanda não vingara. Torres e companhia passearam, perderam gols, a Espanha venceu fácil.

Do futebol que houve importa pouco.

O que marcou mesmo foram os comentários emocionados dos amigos Marinilda e Arnóbio. Os dois tuitavam com evidente emoção a descrição de uma torcida irlandesa cantante, derrotada e cantante. Arnóbio comenta todo o contexto do momento irlândes: bancarrota econômica, futebol ruim e o paradoxo do canto e da festa. Sofrido povo irlândes. Marinilda exalta sua escolha de torcer para os “losers”, estar sempre do lado dos derrotados, velha sina comunista.

Sem televisão, sem informação, sem link de imagem e de som, cheguei em casa curioso para saber qual a canção que eles cantavam, e como foi este momento catártico e intrigante de celebração diante de uma acapachapante derrota. Pela alegria de estar vendo o time de coração, pelo prazer de estar do lado dos camaradas?

Muita bobagem e preconceito se fala dos irlandeses. Em todos os filmes  irlandês representa o tosco, iletrado e violento. Os policiais sem ética, as famílias desagregadas, o papel subalterno no “american dream” O caráter sanguinário e extremista das suas causas e ações políticas. Os nordestinos da Europa, os grosseiros, todas estas escrotices racistas e preconceituosas que generalizam e diminuem um povo.

Mas a Irlanda ama sua cultura, sua música, seus tipos folclóricos, sua história e memória, sua capacidade de enfrentar adversidades.

Uma passagem histórica trágica: a grande fome de 1845-1849, causada principalmente por uma contaminação das batatas, base da alimentação irlandesa, que matou quase 30% da população. Naquele  momento a história muda radicalmente e vários irlandeses se espalharam pelo mundo, em desvantagem, fugidos da fome e de um país sem oportunidade. Pulando outros períodos, hegamos à história recente e  vemos a Irlanda como um dos países mais afetados pela monolítica receita neoliberal que assola a Europa, novamente eles vivem um péssimo momento, com outras tintas, mas com a mesma gravidade.

Porém, os irlandeses cantam e é bonito.

Fui pesquisar na internet, youtube, foruns, etc, digitei:

What song were the irish supporters singing at the end of match with Spain?

E o rio de informações da internet me levou até “The Fields of Athenry” uma canção dos anos 70 que faz alusão justamente à grande fome,  conta a história de um homem que é preso por roubar comida para a família que esta passando fome, ele vai seguir num barco para uma colonia e esta se despedindo da esposa. Athenry é uma pequena cidade no leste da Irlanda que foi castigada na grande fome.

The Fields of Athenry  virou hino das torcidas dos times de rugby e futebol, das organizações política nacionalistas irlandesas, é cantada na alegria e na tristeza, uma canção de perseverança, uma canção de um povo orgulhoso de ser quem é, mesmo perdendo, que vive a alegria de poder cantar ao lado dos camaradas, com cerveja e com união.

O futebol vem perdendo a magia e cada vez mais se transforma em produto de cálculos frios e mercadológicos, nesta onda toda talvez este seja um dos momentos mais bonitos, e por demais inspirador, da Eurocopa:

Nota: o vídeo que postei originalmente tinha 6 minutos e mostrava o longo momento em que soou o canto dos irlandeses no estádio, a inteligente ferramenta do direito autoral o retirou. Fica esse de um minuto e pouco, postado por fã no youtube.

 

A cidade, novamente a cidade. Quando você se sente sozinho no tema, e invariavelmente este sentimento não passa de pretensão, ”descobre” que muita gente se debruçou sobre, em crônicas, contos, filmes, relatos soltos, registros variados. E nas canções, sempre elas…

Cada canto da sua cidade pode confortar um momento de tristeza, de aparente isolamento, de sentida distância. A sua cidade pode ser feia, pode não ter uma ponte de belas observações, tampouco parques de perder a vista. Porém, seus passos estão (estiveram) ali, no meio dos buracos, das ruas descontínuas, das mal arranjadas arquiteturas, sua cidade, suas marcas, suas escolhas.

A cidade é sempre a cidade.

O mundo se transforma á revelia das canções, dos filmes, da literatura. Olhar a cidade e congelar um momento pode servir de pista para entendermos anos depois uma intricada série de fatos e aspectos relevantes que marcaram uma época. A vida da cidade na fala do cronista e a satisfação de “ter” cidade para si de alguma maneira.

Ray Davies (parte dos Kinks) tomou para si o olhar/retrato distanciado e revelou a cidade que desenhava, que aspirava, o poder arquitetônico do cancioneiro.
“Waterloo Sunset” é um desses momentos. Ele usou o território de sua cidade imaginária, sua música para ilustrar suas observações. Davies possui um desses olhares sagazes. Sorte nossa que ele desistiu da pintura e foi escrever canções, pois os quadros ficam em museus.

“Every day I look at the world from my window

But chilly, chilly is the evening time

Waterloo sunset’s fine”

A cidade pode parecer obscura e fria, ela pode estar morrendo ou aparentemente liquidada. Jerry Dammers do The Specials em “Ghost Town” aponta ao olhar “outra”cidade (Glasgow) que não exatamente aquela em que ele vivia ou pela qual tinha especial afeição. A síntese e o sentimento de uma época, os anos 80. Cidades que se esvaziavam, tristes, que sofriam os efeitos da recessão e prenunciavam o legado da era Tatcher e do fundamentalismo liberal que se exacerbaria nos anos 90. As cidades perdiam os espaços comuns e públicos, os jovens não tinham onde trabalhar, desolação:

“This town, is coming like a ghost town

Why must the youth fight against themselves?

Government leaving the youth on the shelf

This place, is coming like a ghost town

No job to be found in this country

Can’t go on no more

The people getting angry”

A cidade pode vir num retrato amargo, pesaroso, como a descrita em “Dirty Old Town” pelo cantor, compositor e ativista inglês Ewan McCall, na década de 40. Esta canção ficaria popular na interpretação do The Pogues (banda irlandesa) nos anos 80. Ela fala sobre o amor num cenário sombrio de uma cidade industrial do norte da Inglaterra, e ao descrever o seu desolamento o compositor catalisou o sentimento de vários cidades e citadinos no mundo. Veja a minha São Bernardo claramente nesta canção:

“I met my love by the gas works wall

Dreamed a dream by the old canal

Kissed a girl by the factory wall

Dirty old town

Dirty old town”

Thomas Baker Knight ou simplesmente Baker Knight, músico e compositor de inúmeros sucessos nos anos 50 compôs e entregou para Rick Nelson em 1958, “Lonesome Town”. A cidade dos desencantos, dos corações partidos, ponto culminante dos lamentos, da comunhão dos desamores, aqueles momentos que a música e o compositor pop conseguem congelar perfeitamente. Nada é para sempre, assim como uma canção de rádio. A cidade, apesar da letra triste, é o palco do convite para se redimir:

“Goin’ down to lonesome town,

Where the broken hearts stay,

Goin’ down to lonesome town

To cry my troubles away.

In the town of broken dreams,

The streets are filled with regret,

Maybe down in lonesome town,

I can learn to forget.

[To forget]“

Uma canção que nasce para uma cidade e vai para outra é “Streets of London” composta por Ralph McTell em 1969. Inspirada nas perambulações desse compositor inglês por cidades européias, ele a escreveu observando os moradores de rua de Paris, sendo que de início ela chamaria “Street of Paris”. A escolha por “London” se daria pela sonoridade da palavra e veladamente pela força uniformizante e comum da penúria. A história da cidade contada nas andanças de rua, nas particularidades dos passos de cada um, por quem ocupa, vive nas ruas e suas várias motivações, a sensação de que você nunca vai estar sozinho nelas:

“So how can you tell me you’re lonely,

And say for you that the sun don’t shine?

Let me take you by the hand and lead you through the streets of London

I’ll show you something to make you change your mind”

E a cidade e seus pedaços, onde crescemos, onde acontecem os fatos que se pulverizam em outros tantos, mas que ficam marcados e preenchem várias interpretações das coisas que se passam na vida toda, longe do local de origem. Nossa cidade íntima, querida e particular. Lou Reed, conta sua formação, sua adolescência na canção do álbum homônimo “Coney Island” de 1975, ilha no sul do Brooklin, pedaço de New York. O pedaço de Lou Reed. A cidade é sempre única e de cada um:

“Ah, but remember that the city is a funny place

Something like a circus or a sewer

And just remember, different people have peculiar tastes

And the Glory of love, the glory of love

The glory of love, might see you through

Yeah, but now, now

Glory of love, the glory of love”

E pode ser uma cidade qualquer, que pertença a qualquer um, que empreste a sua rua permanentemente ou apenas de passagem para a história. A cidade que dialoga com várias histórias, que repisa, mas não acumula que esquece rápido o que se passou nela. Cada pessoa leva consigo como cópia os seus relatos. Retrato único e volátil. A cidade balcão de passagens.

Assim, ela pode ser uma cidade que dorme e registra ainda que de olhos fechados o que se passa, sem lembrar depois. Testemunha frívola. Cidade de madrugada como registrou Torquato Neto em “Três da Madrugada”:

“Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
três da madrugada
tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim…
nada
noite alta madrugada
na cidade que me guarda
e esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim…
triste madrugada
tudo é nada
minha alegria cansada
e a mão fria mão gelada
toca bem leve em mim
saiba:
meu pobre coração não vale nada
pelas três da madrugada
toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim
que não tem mais fim”

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