“05 de Dezembro de 1976″


Não, não vou lembrar os detalhes. O tempo que passou escondeu as cores sutis, são borrões que lembro ou cores fortes e cheias, eles cobrem as dobras e as informações. Minha paixão por futebol começou na antípoda, na contramão do que meu irmão pensava. Ele era corintiano. Eu não poderia torcer pelo Corinthians. Nas idas e vindas, minha então pequena e tímida tendência barroca me fez torcer para a Lusa… mas esta é outra história, não é o motivo deste momento.

Nesta noite (20/06/2012), o Corinthians se classificou para a final da Libertadores. Sonho de todo corintiano. Era sonho do meu irmão também. E volto a ausência de lembrança sugerida no começo do texto. Era início de dezembro de 1976. O Corinthians chegara, após uma campanha difícil, à semifinal daquele Campeonato Brasileiro.

Fluminense x Corinthians, 5 de dezembro de 1976, Maracanã, domingo à tarde.

Corta para a casa da Rua Ipiranga, Vila São João, São Bernardo do Campo, a noite de sábado do dia 4 de dezembro envelhecia. Dona Conceição como de costume preocupada com o filho do meio, Davi, que não chegava nunca. Dormiu mal. Alguma coisa me dizia que ele tinha se picado para o Rio de Janeiro, falara daquele jogo a semana toda. Madruga adentro e nada de aparecer. Mãe sem sono. Nada do filho.

Domingo de manhã, alguém comentou que ele foi ao Rio (não lembro quem, eram os detalhes, detalhes, detalhes). A mãe não ficou tranquila. A manhã passou. E no fim da tarde tinha jogo ao vivo na TV. Final tão esperada. Futebol ao vivo na TV era um aconteciment raro, e todo mundo assistia, independente do time. A tv a pouco adquirida, Philco Ford, tava ligada. A mãe com a cabeça no Rio de Janeiro, não no jogo, no filho.

O Corinthians era bem Corinthians. Um time limitado tecnicamente, mas com jogadores marcadamente corintianos, no pathos, no profundo, brigadores. E lá iam escalados:

Tobias; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Wladimir; Givanildo, Ruço e Neca. Waguinho, Geraldão e Romeu.

Um time de batalha, sem brilhos individuais, talvez o único era meia Neca, um pouco mais habilidoso. O técnico era o Duque, o presidente, folclórico e esperto, Vicente Matheus.

Do outro lado, o Fluminense tinha um time de craques, timaço, futebol solto, toques rápidos, habilidade, com vencedor de Copa de Mundo e tudo, com a fama dos times cariocas, que jogavam com a bola no chão, toque rápidos, cheio de recursos.

Renato; Rubens Galaxe, Carlos Alberto Torres, Edinho e Rodrigues Neto; Carlos Alberto Pintinho, Cléber (Erivélto) e Rivellino; Gil, Doval e Dirceu.

O técnico era Mario Travaglini, o presidente do Fluminense era o ruidoso e arrogante Francisco Horta.

O clássico teve um adendo para aguçar. Um ano antes, o Corinthians negociara com o Fluminense, um dos seus maiores ídolos, Roberto Rivelino. Negócio polêmico e que rendera horas de bla bla bla nos programas esportivos, apesar de que depois do título perdido para o Palmeiras em 1974, o Reizinho do Parque caíra em mau conceito com parte da torcida corintiana.

O duro é que no Fluminense jogando mais solto e livre para atacar, Rivelino estava rendendo muito mais do que no Parque São Jorge. A bronca dos corintianos era em dobro. Condimento para o dia.

De testa eu falei que não lembrava os detalhes. Eu tava no sofá sentado, meu pai deitado e dizendo que o Fluminense era muito mais time. Corriqueiramente eu torceria contra o Corinthians, mas tinha a treta Rio x SP, era forte, talvez maior que a oposição ao irmão. Por outro lado o time que eu gostava no Rio era o Vasco, por conta do Roberto Dinamite. Indecisão.

Se não erro a TV era preto e branco. E começa o jogo, não me perco em detalhes, não lembro. A mãe cozia as palavras em lamento e pragas (medrosas, amedrontadas) para o filho rebelde que pegara um ônibus e fora para o Maracanã, um mundo desconhecido, ver o time do coração. O jogo era quase um sacrilégio na casa. Corria.

Pela manhã até próximo ao jogo, corriam as informações no rádio, ouvia muito rádio, eu e meu pai. Os corintianos haviam invadido o Rio de Janeiro, aquele bando de paulistas desajeitados chegaram na manhã de domingo fincando suas bandeiras nas praias lindas e descoladas do Rio. A torcida do Flamengo os recebera em festa como aliados invasores. Eram 70 mil corintianos que dividiriam a festa do “maior do mundo”.

Fiquei colado no rádio ouvindo e imaginando o meu irmão nas suas aventuras. Imaginei tanto que hoje não saberia descrever o que realmente ele contou depois e o que eu inventei na minha sanha curiosa de criança. Futebol, Maracanã, Rio de Janeiro, coisas mágicas e naquele momento distantes o bastante para dar asas á ficção. Os repórteres e comentaristas douravam e transformavam aquilo em ópera,

O jogo, o jogo, os detalhes, o Fluminense abriu o placar com Carlos Alberto Pintinho, toque sutil, golaço. Minutos depois, o Corinthians empataria através do carioca, vindo do Bangu, jogador com a cabeleira black no formato e clara na cor, daí o apelido, Russo. Cabeça de área, brigador, fez um gol de puxeta dentro da área coalhada de gente e levou ao drama o restante da partida.

Meu pai dormitava aos poucos durante o jogo, isto acontecia normalmente independente da intensidade e emoção que rolava, e o jogo corria, era silêncio nas ruas vizinhas, de corintianos apreensivos e todo resto calado a espera da vitória do Fluminense. Meu irmão sempre usava o jargão: “existem os corintianos e os que não gostam do Corinthians”.

Eu não havia decidido. Não sabia se torcia para lá ou para cá. Se o irmão tivesse perto, reinaria a alma mais pó de arroz do universo em mim, mas ele tava longe e eu podia ser livre para escolher. Eu e minha eterna escolha pelos “losers”, errei ao acertar. Fui Corinthians naquela tarde de 1976, o time mais marrudo contra o time “toque leve” do Nenseeeeeee (que se ouvia em eco no dividido Maraca).

A ladainha do rádio ligado junto com o barulho da TV. A casa do domingo. A mãe se calara no quarto. Resignada? De jeito nenhum, quando em vez ela desandava uma fala direta, como se o filho fujão tivesse ali do seu lado. Chegara o final do jogo. O empate no tempo regulamentar. Os tais pênaltis.

Para brasileiro penal é sempre um drama no futebol. Não tinha final mais apropriado para aquela ópera. Tobias pelo Corinthians e Renato pelo Fluminense, os goleiros. Conversa ao pé do ouvido para escolher os cobradores. Aquele interregno clássico. O pulso do Maracanã era intenso. Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976.

Começaram as cobranças, e ai não tem como não pular mil detalhes, mas lembro do capitão da Copa de 1970, Carlos Alberto Torres, o marido da Terezinha Sodré (casal badalado dos anos 70) que foi o segundo a cobrar pelo Fluminense, Rodrigues Neto perdera o primeiro, e ele também perdeu. Ali se desenhava a explosão do Maracanã, naquela tarde, corintiano.

Zé Maria, o vencedor da Copa de 70 do lado alvinegro, na quarta cobrança ratificou a vitória corintiana. E a rua explodiu, Osmar Santos esgoelou e desatou a falar, falar sobre a alma corintiana no rádio, meu pai pigarreou e sorriu, minha mãe fez muxoxo e marrenta deve ter sorrido por dentro. As ruas eram corintianas. Eu praguejei contra os cariocas, criança ufanista que era. Coisa que passou.

Em algum lugar do Maracanã meu irmão pulava o desafogo da noite mal dormida e de toda a adrenalina acumulada, creio. Era um mar de bandeiras, de vibração, a TV mostrava a festa nas arquibancadas.

O Maracanã era tão lindo, mais ainda pela impossibilidade de vê-lo de perto. E o domingo se fechava na tarde. O fim.

Dia seguinte, só no dia seguinte, meu irmão estava em casa. A bronca, a fala da mãe, um tanto aliviada, o mano na sua cara de bamba levado, quase em delírio pela vitória, pela ida ao Rio, a primeira, pelo Corinthians que amava. Pouco contou da história do jogo e da viagem, ficou em silêncio negociando a tolerância da mãe, ficou o mistério e eu pude sustentar minha versão ficcional. A vida seguiu na casa da Rua Ipiranga.

A poesia nem sempre acaba em beleza, dias depois o Corinthians sucumbiria diante do Internacional de Porto Alegre de Falcão, Figueroa, Batista, Dadá Maravilha, este um timaço. O quase título do Corínthians teve seu clímax naquela tarde do Maracanã.

Esta é a minha história do jogo de1976, a invasão corintiana no Rio. Creio que mandei meu irmão de emissário na época para agora contar esta história, nesta madrugada, logo após o Corinthians se classificar pela primeira vez para uma final de Libertadores. O futebol é sempre catártico.

É o que posso fazer.

Como em 1976, no dia de hoje meu irmão não estava aqui ao meu lado vendo o jogo, ele partiu para uma viagem mais longa e não verá também a final da Libertadores. Como naquela tarde de 1976 vou ter que contar a minha versão e a dele também, encher de palavras um silêncio que insiste em ser silêncio.

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4 comentários
  1. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaai, que lembranças odiosas!!!!!!!!!!!!!!!!! lembrei de tudo!! (O @RLivre já tinha começado a me lembrar!!!) noooooooooojo! acho que não vou mais torcer pelo curintia não.

  2. Ricardo,

    Jamais esqueça, somos irmãos. Este post é de uma sensibilidade, deixa qualquer um emocionado.

    Abraços,

    Arnobio

  3. Éder disse:

    Belo texto, emocionante. Como futebol.

    Ainda mais pra quem também tem um irmão corintiano…rs!

    Abraço!

    Éder

  4. Chorei ao ler a historia, em 1995 fiz isso com minha avó e fui para Ribeirão ver a final com o Palmeiras, nunca mais me esquecerei disso, muleke que era e apaixonado que ja fui, hoje não faço tanto, evito confrontos….

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