“Hoje é o passado do futuro” (Joelho de Porco)


Joelho de Porco foi uma banda que, longe de retóricas estereotipadas ou regionalismos burros, que melhor representou (a) São Paulo, no humor corrosivo, nas levadas pesadas do rock, na disfarçada melancolia, na total falta de pudor de expor o próprio ridículo e nas belezas menos fáceis. Joelho de Porco é São Paulo, São Paulo muda sempre, mas tem seus cânones. Como eles diziam numa letra São Paulo by Day.

Eles surgiram num festival do Colégio Rio Branco em 1966, de improviso. João Paulo de Almeida (voz), Fabio Gasparini (que tocou com meio mundo do rock paulistano) na guitarra, Gerson Tatini no baixo e Próspero Albanese na batera. De chiste, numa brincadeira, Fábio batizou a banda de Joelho de Porco, o nome pegou. Era só o começo.

A banda foi mudando de formação até que em 1973 com Próspero Albanese (bateria e voz), Rodolfo Ayres Braga (baixo), Tico Terpins (guitarra) , Gerson Tatini (guitarra) e Conrado Ruiz (piano) lançaram o primeiro compacto Lado A, “Fly America” e Lado b, “Se você vai de xaxado eu vou de rock’n roll”, Arnaldo Baptista produziu e deu uma canja tocando moog:

 “Se você quiser saber por que

não lhe digo você não merece ver
se você vai de xaxado, eu vou de rock and roll”

Em 1976 chegaria finalmente o primeiro álbum, São Paulo 1554-Hoje, sem dúvida as dez faixas definitivas e a melhor formação do Joelho de Porco. A bela voz e o forte sotaque paulistano de Próspero Albanese junto às letras e composições de Tico Terpins, são as inequívocas marcas da banda. Outro destaque, a levada e o riffs pesados da guitarra de Walter Bailot. Flavio Pimenta na bateria, Luiz Carlos Sá nos teclados completam. O registro clássico da banda  e um dos melhores discos de rock and roll gravados nesta nação.

O Joelho era uma verdadeira banda de rock and roll e não pedia desculpas por isso. O rock sempre foi um intruso no Brasil. Roqueiro era taxado de papagaio, imitador, diluidor e sem compromisso com o nosso cadinho cultura. O Joelho não papagaiava, eles acharam o timbre certo. Olhar e registrar o mundo ao redor e usar o rock para isso. É pouco? Para quem se reduz à forma eles foram apenas mais uma banda de rock e para esses o conteúdo sempre escapa.

Mas que olhar era esse?

Falavam da cidade, da vida, dos costumes, falavam deles mesmos com escárnio, usavam as gírias, os ícones da indústria cultural e os preconceitos e a lírica dos paulistanos. A cidade os alimentava, por isso é até hoje eles são sem rivais, a “banda paulistana”. Falavam com a “gente”. Não viraram piada datada, pois não eram apenas uma piada.

Quero descrever em timbre pessoal do São Paulo 1554-Hoje, tenho esse disco me seguindo há muito tempo, em fita cassete, vinil (vários), cd, mp3, youtube, os vários formatos do tempo, nunca deixei de ouvir, de me divertir, de me emocionar. Ao contrário do que muitos pensam, Joelho de Porco, especificamente este disco de 1976, não é uma piada pronta e que pode ser ouvida mais de uma vez, eles ficaram.

Vamos ao disco:

Para mim tudo em São Paulo nos anos setenta era perto do Mappin. Era São Paulo das esquinas violentas, o centro ficando perigoso (meu pai dizia isso), e o ícone da ligação, do progresso, da expansão da cidade, embaixo o Anhangabaú e em cima os “românticos” batedores de carteira:

“Andando nas ruas do centro
Cruzando o viaduto do chá
Eis que me vejo cercado
Trombadinhas querendo me assaltar”

 

Lembro exatamente de um dia que um tio me levou ao aeroporto para ver os aviões chegando. Não era algo incomum, era programa, era lazer, aquilo tinha algo parecido com ir ao cinema, as aeronaves eram atores de Hollywood, víamos de longe, era cinema, mas também era um reality show setentista e o Joelho registrou isso:

Triste comédia
A família paulistana
Não tem fim de semana
Não tem praia nem montanha

No aeroporto de Congonhas
Passa todos os domingos
Só pra vê avião descendo
Só pra vê avião subindo

Família tradicional paulista ou de qualquer lugar. Expectativas, filhos, destinos, desejos frustrados, isso muda? Gargalhei com tantos amigos, eu incluso, identificados com esta pequena peça de realidade que o Tico Terpins nos trouxe, não vai datar nunca:

O meu pai sempre dizia
-quero ver você doutor!
Minha irmã, sempre a escutar
-quero ver você casar

Eu sem caminho
Qualquer profissão
Papai decide o que vai ser de nós, yeah!

Faz dez anos é solteirona
E eu não sei o que fazer
O meu pai vive esperando

Meu diploma de doutor

Paulista, paulistano, sotaque de erres evidenciados e a forte presença da voz do interior. Prosaicos motivos de gozação do resto do país que São Paulo carrega até hoje, o Joelho exortava em pragas com a fruta boa e incomoda de comer:

Mardito fiapo de manga
Preso no maxilar inferior
Mardito fiapo de manga
Preso no maxilar inferior

Os estrangeirismos musicais mais marcantes da música brasileira: rock and roll e música mexicana. A música mexicana habita nossas rádios há décadas e só muda um pouquinho de forma, o Joelho vai na veia da síntese rock/mexicaníssimos e abusa do trocadilho:

Compre una habitación en Acapulco
Mucha tequilla con agua tónica
Yo borracho voy cantando
Cucurucucu u Paloma

Cachita Alvarez envitaste
a una fiesta con muchas personas
voy cantando
She loves you yeah

Wow México, wow México
Wow México, wow México
Wow México,
México lindo

A vida toda em luta com o peso acima. Desde menino, e pelo que lembro tive contato com este disco em 1978, ouço esta música quase como autobiográfica, o Prospero sabe do que fala:

Hey Gordão
Tome cuidado
Hey Gordão… não se arrisque mais
Você pode sentir
Que eu não digo por mal nenhum
Voe como uma pluma
Esqueça do macarrão

A letra bucólica, escapista que confronta o mato com a tecnologia, a citação de Roberto e o riff pesado do Baillot que tanto nos encantou, a voz irônica do Terpins, Boeing voa longe, rock and roll:

O boeing 723897
Pode te levar pra bem longe,
bem longe, bem longe
Da poluição
De lá pra cá
Pro meio da selva onde reina o leão

E tem de amor nesse disco, musica romântica como o Joelho de Porco pôde conceber, nem sei se eles queriam falar algo mais do que entendi, não faço idéia pra onde eles iam com esta canoa:

Cruzei meus braços
Fui um palhaço
Mas resolvi parar
Pra estraçalhar

Com quantos paus se faz uma canoa
Pra sair dessa e chegar numa boa
De canoa

Prospero Albanese um dia disse que apesar de ter entrado apenas em 1975 na banda, Tico Terpins foi a alma do Joelho de Porco. Terpins foi grande demais, dialogando, por exemplo, com o humor ancestral de Noel Rosa e Ary Barroso. Coisa muito pertinente, pois a “cantora de Noel”, Araci de Almeida, foi madrinha do Joelho de Porco e até dividiu um show com eles.

O cinema falado me ensinou
I love you, I love you, *EU TE AMO*
Marlon Brando, poderoso
Meu chefão, cinemascope
Eu estou sentado, a beira do caminho
Tranqüilo, trankilo, tranqüilo, trankilo

Faz comigo Ari Barroso; aquarela do Brasil
Debaixo das palmeiras assobiando, assobiando,
assobiando.

Canta, canta rouxinol… brasileiro!!!!
Na alvorada e o rouxinol
Faz cuco, maluco, trakilo, I Love You!

Todo disco de cabeceira tem sua música preferida, aquele que você pula tudo para chegar nela, que ouve, ouve e ouve, sem nunca cansar. E a estas se juntam referencias da vida, elas têm frases (palavras/partículas musicais) que sempre usamos e repetimos como desconversa, como chiste, sem graça, com graça, particulares e públicas. Música de sempre.

Outro dia fui ver o Próspero Albanese e Banda tocar no Centro Cultural Vergueiro, era uma quinta feira, não tava muito cheio, a platéia era composta de amigos e os poucos fãs da banda que pingaram. Claro que ele tocou parte do repertório do Joelho. Pude ouvir ao vivo finalmente a música que mais gosto do disco de 1976, foi um presente, saí no silêncio do rock and roll, satisfeito. O futuro foi bom pra mim.

A lâmpada de Edison
O código de Morse
Graham Bell no telefone

Lunático Armstrong
Sigmund Freud, sua ma… mãe…
Von Braun e seus cometas

Ao sul da linha imaginária
Éder Jofre, Roberto Carlos Braga

No hemisfério norte
Cassius Clay, Frank Sinatra, que trapaça

Eu vou enfrentar no escuro
Hoje é o passado do futuro

Eu vou escrever no muro
Hoje é o passado do futuro

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários
  1. Bem bonitos, conheci há tempos. Tinha até um disco deles.

  2. ótimo texto, cara! Muito legal as relações com sua infância, situou algumas músicas que não entendia direito. Faço parte de uma revista chamada O Rato (www.orato.com.br) e vou escrever sobre este disco na próxima edição. Abraços!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.219 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: