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Musica, Cinema, Cultura, Literatura

Um amigo, sim um amigo, era o barulho do skype pensado pra ser agradável que anunciava. Um amigo me chamava as duas e quatorze da manhã.

Uma chamada de skype de madrugada amedronta menos do que os velhos e estridentes telefonemas, o nome brilha e aquele barulhinho hightech anuncia macio o outro lado.

A conversa começa na voz:

- Oi, você tá bem ?

- Tô…bem, acho que tô, o dia hoje…

- Na verdade eu liguei pra dizer que penso que você deve parar de ter pena de seus personagens. Esse último é piegas demais.

A desgraceira que faz os blogs, basta escrever, escrever, apertar um botão e pronto, tá publicado. Foram duas madrugas pra atrás, uma história chegou pronta na cabeça.bonitinha, personagem triste. Instantâneo. Sentei, escrevi, publiquei.

Publiquei, publiquei…

E de longe, claro, alguém concluiu e fez juízo. Tudo bem que o personagem não era dos mais carismáticos, era apenas um cara no meio de uma historia interessante, ele mesmo não tinha tantos atractivos. O meu amigo, o nick do skype, o crítico, detonou.

Continua…

- Você estragou uma bela história por conta de um personagem que espelha sua auto piedade.

- Opa, opa, agora a piedade não esta mais no personagem, é minha? – subiu o tom da minha voz no meio daquele silêncio.

- Calma, não é pra tanto…bem, o fato é que tudo ficou impregnado de uma pieguice exagerada.

- Putz, piedade ou pieguice?

- Não importa…porque…

- Como não importa? A piedade pode ser épica, a pieguice nunca…

- Do jeito que eu tô falando nem a piedade, nem a pieguice podem ser épicas.

Aquela conversa no rumo da animosidade. Três da manhã. Segui e provoquei:

- Aliás, com que autoridade você desbeiça meu personagem? Com sua vastas leituras de um e meio Rubem Fonseca?

- Desqualificando meu prontuário você não salva seu personagem. Devo dizer que são personagens, porque é o segundo que você enxerta nas suas histórias com esse jeitinho de “ouvi Smiths minha adolescência inteira”.

- Você parou de ouvir Smiths?

- Não vem ao caso.

Escrever de sopetão só pode dar nisso. Você encaixa uma história no meio da madrugada, ela vem inteira e pronto, solta na vida. Pega um sujeito, mesmo sendo amigo, numa noite ruim e ele assassina seu personagem.

A voz trava, a ligação fica lenta e o recurso à mão e passar para a caixa de diálogo, sai a voz sobre o IP e entra o velho chat:

- Piegas ou piedoso, digno de pena ou com auto piedade? – esperava que ele resolvesse o conceito pra que eu pudesse espinafrar.

- Você não entendeu, vou ser claro: você quer que a humanidade tenha pena de seus personagens – a conversa vaga já estava ficando irritante.

- Você tá sendo evasivo. Então me diga quantos caras bons não quiseram que seus personagens fossem tristes e dignos de pena?

- Ah, então você admite??

- Psicanálise de boteco com panca de crítica literária, nem sei porque tô dando trela…o que eu admito é que você levantou um aspecto…

A conversa on line tem vantagens. Googlei: personagens piegas. Nada de registro relevante. Pieguice, auto piedade, nada disso servia. Não consegui ilustrar meus argumentos com uma citação espirituosa.

- Vá pro inferno, vc já escreveu alguma linha com pretensão à literatura? – apelei feio.

- Não, não mesmo, quem escreve às duas e pouco e já em seguida publica no blog é você, tô tentando ajudar e recebo patada e não é pela literatura, mas pela amizade.

- Desculpe…é piegas mesmo?

- Sim! – disse sem entonar em nada a frase.

Aquela conversa só seria salva com dignidade pelo fim da bateria do tablet que estava nos sessenta por cento, longe de acabar.

- Vc leu tudo, completo, até o fim?

- Claro, tem partes otimas, frases bem sacadas jogadas no meio de um personagem auto indulgente…

- PQP, mais um rótulo para o miserável?

Miserável? Eu disse isso!  Já havia incorporado a critica ao personagem ou a mim. Não era justo. Mal podia falar dele, criei e joguei na história. Piegas, auto piedoso, auto indulgente. Chega!

- Já são quase quatro da manhã – a voz sobre o IP não voltou a funcionar, teclava – quero parar esta conversa.

Silêncio…caiu a conexão?

O ruidinho discreto high tech e macio do Skype anuncia nova chamada. Demora uns segundos, conecta, a voz alta e clara.

- Você não ficou ofendido, né? Não chamei você de piegas, piedoso e auto indulgente, mas o personagem…

Como o blog ,rápido, instantâneo e publicável, o skype, voz e caixa de diálogo sumiram, offline salvador. Tinha até o recurso de deletar aquela conversa toda e bloquear o amigo crítico por uns dias. Fui dormir aliviado e guardei o personagem na memória disponível.

No dia seguinte mudei o nome do personagem.

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Quem acredita nos direitos humanos procura transformar a possibilidade teórica em realidade, empenhando-se em fazer coincidir uma com a outra. Inversamente, um traço sinistro do nosso tempo é saber que é possível a solução de tantos problemas e no entanto não se empenhar nela.

Antonio Cândido

A leitura é um direito, não se trata de afirmação genérica ou redundante, nenhum direito é redundante, o direito á leitura é capital ao indivíduo para que ele possa associar e compreender os vários direitos básicos, e assim pavimentar o caminho que impeça a barbárie. Não há mágica nesta afirmação, ela é substantiva, e rigorosamente, a luta pela sua confirmação é urgente.

Existem passos a seguir para tornar a leitura direito, e direito, como é sempre bom frisar, não é dádiva ou concessão temporária, claro que a conquista de um direito não o torna permanente, afirmar isso seria negar a historia e seus abruptos movimentos. Direito conquistado é por luta e dentro de relações complexas, há sempre os interesses satisfeitos e os contrariados. Nenhum direito acaba onde começa o do outro, eles estão sempre relacionados.

Um dos primeiros passos é entender que a sociedade civil e Estado não são antagônicos, a sociedade civil é parte do Estado e com ele não rivaliza, esta noção de público e privado serve a interesses de quem se apropria do Estado e dele tira proveito, a maioria da população fica na sombra dos interesses privados e é alijada do campo de alcance do Estado, na prática os seus direitos se diluem nesta cantilena.

A afirmação da leitura como direito passa pelo estabelecimento de um marco legal.

A política de Estado garante minimamente o estabelecimento de regras a serem cumpridas, o argumento liberal de auto regulação da sociedade é continuamente contrariado pela realidade, a democratização e acesso à leitura não vão brotar das relações de mercado, ou de ações isoladas e espontâneas.

Uma das propostas concretas para tornar a leitura um direito é a implantação planos do livro e da leitura nos âmbitos federal, estadual e municipal. As maiores fragilidades das ações em pro da leitura são o caráter volátil e episódico que as sustentam e um dos motivos dessa descontinuidade é a falta de mecanismos consistentes que garantam estes projetos e programas como ações de Estado, não de Governo.

A luta pelo estabelecimento dos planos do livro e leitura se desenrola através dos anos, mas aparece de forma marcante a partir de 2004 (início do Governo Lula) onde iniciaram as ações concretas para instituição de uma lei nacional (com participação ativa de Estados e Municípios). No caldo dessas discussões. diversas experiências na área de cultura e educação, programas, projetos, ações que se diluíram com o tempo justamente por conta da ausência de uma política de Estado.

Os eixos que servem como escopo dos planos do livro e da leitura:

  1. Democratização do Acesso
  2. Fomento à Leitura e Formação de Mediadores
  3. Valorização Institucional da Leitura e Incremento de seu Valor Simbólico
  4. Desenvolvimento da Economia do Livro

Como notamos os eixos abarcam todos os aspectos do caminho que separa e une o ser humano da leitura e da informação. No universo disso: pessoas, instituições publicas, privadas, livros e outros suportes, e toda a subjetividade do ato de ler que aponta questões bem objetivas e obstáculos muito concretos. E derivados desses eixos são incontáveis os assuntos que estão esperando um debate e um destino.

A escolha do viés político, dos valores que venham a construir estas leis é fundamental para o resultado final. Na democracia estas escolhas nunca são unilaterais, tampouco podem ser caracterizadas dentro de uma guerra entre estado e sociedade civil, até porque no meio de tudo, existem os interesses econômicos, que fazem valer sem vacilos cada centímetro da sua influência e tornam todos os “lados” facilmente visíveis.

Não há relativização possível que harmonize os interesses financeiros, as necessidades básicas da população e o papel do Estado. Esta negociação, este embate é, sobretudo político, e nada melhor que um marco legal discutido de forma igualitária e que leve a construção de um projeto para o país, não para fomentar grupos específicos, nem levando em conta interesses conjunturais, assim podemos chamar o resultado desse todo de política pública.

Os planos municipais do livro e leitura precisam não só ser discutidos, formulados, criados e votados, eles devem estar presentes no dia a dia dos Estados, dos Municípios, das pessoas, e ser o fruto dessa proximidade, esta é uma forma de trazer a leitura e a informação para perto do cotidiano, retirá-la da torre “fria” e distante ocupada por poucos.

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O garoto chegava querendo ser invisível dentro da banca de jornais, terça feira, o futebol do final de semana tava todinho narrado na sua cabeça. Mas ele queria as imagens, os relatos escritos, a revista Placar.

O radinho da pilha registrava de primeira, gols, polêmicas, histórias, falação, menos merchandising, mais drama e teatro amador. O futebol no limite da era do improviso.

Os jogadores profissionais eram um tipo diferente de ídolo, mais próximos, menos “eficientes”. O futebol era pertinho, quase na esquina.

O colorido da capa, revista Placar, os textos que estimulavam ler, alguns bons de verdade, lidos hoje ainda bons de verdade. Placar era na banca e a banca era outro universo mítico…

Banca de jornal eram as revistas em quadrinhos, outras que não que se entendia, revistas de historias de terror, fotonovelas, uma industria pop tão amadora como os jogadores ídolos, uma industria amadora, mas que custava alto e não cabia no bolso das calças rancheiras.

A vontade era de levar o colorido das bancas de jornais para dentro de casa, todos as imagens dos jogos ouvidos no domingo, ter os jogadores reais jogando nos times de botão, os heróis de quadrinhos, tudo palpável.

E á terça feira novamente, na banca de jornal toda a discrição que um menino de 10, 11 anos pode apresentar, esgueirar a banca e abrir discretamente a revista Placar, as imagens do futebol:

- Deixa a revista Placar aí, muleque – a voz era firme e indiscreta, definitiva.

Essa voz se repetiu algumas vezes, mas a rebeldia de abrir a revista insistia, o espaço colorido de mitos e imagens desejadas, era o espaço da transgressão, de tentar abrir o colorido da vida toda terça feira.

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E o rapaz insistia em não ter saudade de nada. A grita era enorme, a quantidade de pessoas que passava por ali reduzia seu tempo de pensar sobre coisas que já tinham sido. Não era a primeira vez que trabalhava num guichê de rodoviária, coisa antiga.

Seu tempo sempre foi diferente. Obedecia à lógica do fluxo, no principio interessava um rosto destacado, atentava aos vários tipos de sorriso, às carrancas, pulsavam por ali trechos de história. Observava as roupas, alguns perfumes incomodavam, e sempre os trechos de história…

Pegava o fortuito, o incompleto, sabia o destino, nunca o enredo. Fazia anos que esperava o nome do lugar e o horário, já havia trabalhado até em transnacional que mandava gente pra Bolívia. Quanto enredo perdido. Aquelas idas e vindas é que tiravam dele o luxo de ter saudade de algo.

Tickets verdes, cinza, azul, brancos, código de barras, horários, lugares, sobre tantos lugares ele desenvolveu uma fobia do “longe”, nunca queria ir, abominava viagens e deslocamentos, o máximo que partilhava com o deslocamento era saber o ruído dos onibus, a diferença entre eles, ouvia todo dia e sabia.

“Obrigado, brigado, obrigada, brigada, tchau”…silêncios…muitas vezes era o silêncio o seu dialogo com os viajantes, gente que para ir ao mundo precisava passar no seu mundo de quatro por três. Dia qualquer uma moça perguntou sobre uma foto de família que o seu antecessor deixara na mesinha de trabalho, disse que não era dele, a moça sorriu, talvez, da sua falta de enredo…”brigada”…

Tinha manias temporárias. Por um tempo brincou de advinhar para onde as pessoas iriam, era naqueles segundos entre a chegada e o pedido. Errava muito, era melhor pra inventar enredos do que pra descobrir destinos. E os enredos não passavam de destinos inventados. Essas manias passavam rápido.

Nunca teve tempo pra tentar entender porque não tinha saudade de nada. Nos últimos tempos dobrava o horário, pouco ficava em casa, percebera que há meses não ligava o rádio, ouvia sempre as músicas dos outros, as notícias dos outros, tava tudo pronto mesmo, mas sempre eram trechos, trechos que passavam e seguiam seus destinos.

Morava bem perto da rodoviaria, num quarto e sala variava sua vida do três por quatro. Mesmo dentro da casa se deslocava pouco, o que curtia era esmerar na brancura e no prumo da camisa bem passada, caprichava, os cabelos ainda fartos e a camisa limpa e branca, esse era o modo de se mostrar ao mundo, é certo que substituiam o sorriso e as demais expressões do rosto.

Por curto período dividiu seu guichê três por quatro com um rapaz de outra empresa. Ficavam os dois ladeados. O rapaz era falante, no início tentou enredar um papo com ele, mas o silêncio continuou. O rapaz estendia a conversa com as pessoas, isso o incomodava, mas os enredos cresciam e com eles o trechos, agora maiores, das histórias.

Durou pouco, bem pouco. Logo, tiraram o seu parceiro dali. Nem foi parceiro, mas foi uma historia completa, um enredo e um destino que ele soube inteiro e dessa feita pra dentro do guichê. Talvez isso trouxesse alguma saudade, passou, mas se completou. A diferença foi que o parceiro partiu sem ticket, atinou. Agora novamente sem saudade.

Feriados prolongados, festas de final de ano, dias santos, reclamações, palavras rispidas, pressa, atraso, cansaço…vivia no contrapelo, descansava nos dias sem destaque, sem emendas. Suas férias eram sem sentido. Ficava andando ali pelo centro, vez ou outra se deparava com algum onibus que costumava ajudar a encher sem nunca ver. Fora do guichê. Passavam os dias de férias. Era isso.

Seis e trinto e oito da manhã, entrava às sete, bebericou mais um café de coador, a menina da lanchonete era bonita, ele não sabia o nome dela, mas sabia seu gosto pela cor verde, pagou o café e deu um sorriso, a menina surpresa retribuiu, ele nunca sorrira antes, tampouco bebera mais uma dose de café. Era um dia diferente.

Manhã de pouco movimento, um rapaz chega e pede uma passagem para o norte, cidade no interior do Pará, vende para uma cidade próxima, não há caminho direto para aquele destino. Grande intervalo sem ninguém. O café bebido começa a atiçar a queimaçao, bebe água, tempo passa devagar. Outro grande intervalo.

Ficou olhando para a máquina de tickets, ela sem o barulhinho seco que emitia não era nada. Sem destino certo não tinha nem o ruído da maquina. Pensou sobre o tempo, sobre a maquina, sobre a saudade que não tinha. Bateu o dedo na lista, nem leu o nome da cidade, digitou o código e logo veio o barulhinho. Ticket emitido. Pegou a mochila, aproveitou o intervalo e foi buscar seu enredo sem destino certo.

abril 006

O tempo e o espaço eu confundo
A linha do mundo é uma reta fechada
Périplo, ciclo
Jornada de luz consumida e reencontrada
Não sei de quem visse o começo
Sequer reconheço
O que é meio, o que é fim

Tempo e Espaço – Paulo Vanzolini

Na introdução do documentário “Homem de Moral” de Ricardo Dias (2009), o zoólogo e compositor da música brasileira, Paulo Vanzolini, deixa a síntese das coisas que fez tão bem, ele apresenta o roteiro “completo” da sua vida artística nesta fala:

- Eu tenho muito divida com esta cidade de São Paulo … por exemplo, é um absurdo como gostam de Ronda, mas gostam. Eu devo isto para esta cidade, então eu queria que agora que estou chegando nos 80 e não tô vendo muito futuro pela frente, eu queria deixar um testemunho, uma antologia do qualé a minha dívida artística com a cidade de São Paulo. Então, esse projeto pra mim tem muito esse sentido de um amor com a cidade, de uma prestação de contas, de…com a cidade e com povo, o povo de cada um pessoalmente eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito.

Logo em seguida entra uma versão bela de “Ronda”, seu grande sucesso como compositor da cidade que amou com a cantora Márcia acompanhada de Isaías e seus Chorões.

Claro que Vanzolini não cabe nessa pequena introdução. Ele desenhou a sua cidade de São Paulo. Observou a cidade, e segundo ele próprio, a cantou como amador, ele que se considerava antes de tudo um cientista, um pesquisador, e como tal foi reconhecido e respeitado.

O seu amor paralelo, o amor das horas vagas, veio em canções e o colocou na história da música brasileira. Ainda que “subalterno”, o compositor que se subestima está na vida das pessoas, altamente estimado, não adianta negar.

O rio da vida correu deu volta à terra.
A cachoeira desceu, não sobe mais a serra.
Você sorri de olhos claros pra quem ficou com o que é meu.
E eu sorrio a quem diz que o final foi feliz,
Porque o bom senso venceu.

Se formou doutor  em Harvard,  mesmo assim deu tempo pra dar banda na cidade de São Paulo, andou de fato, no tempo e espaço em que São Paulo se mostra melhor, fora dos carros, a pé pelas ruas, tempo esse que não tem a ver com época, nos dias de hoje São Paulo daria a um homem como Paulo Vanzolini, tanto combustível como deu na década de 40 e 50.

Vou andando na neblina das ruas
Conversando com você
Cantigas da perdida felicidade.

Assim como ele se embrenhava nas matas para suas pesquisas e tirava conclusões, como levantava dúvidas e especulações, em suas letras Vanzolini tentava compreender um pouco da cidade que amava, vivia as matas e as ruas de asfalto sem dar hierarquia para esse amor, amor de dúvidas e certezas. Especulava as esquinas cientificamente.

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida

Vanzolini compreendia o seu legado de composições como “pedaços de memórias submersas de coisas que ouvi no rádio”, andar nas ruas, ouvir atento às surpresas em forma de canção com que a era de ouro do rádio lhe presenteava, era o rádio que ele ouvia com o pai, caldo rico do mundo que desenvolvia.

O meu pai ja me dizia
“Meu filho voce vai ter culpa de tudo
Se nao for por falar muito eh por ficar mudo
Voce nunca minta meu filho
Tambem nao disperdisse a verdade
Bata na cara da sorte
Ela acaba fazendo a sua vontade

E esse luxo de recursos, de repertório serviu para ilustrar a sua vida íntima, e a intimidade do alheio, é o benefício do compositor popular construir histórias e para tal usufruir de parceiros de qualidade, grandes interpretes, feliz o Vanzolini que dizia que a vida do zoólogo é muito ciumenta, que não tinha muito tempo fora do laboratório, imagine se tivesse.

Que teimosia

Nada nos une, tudo nos separa
Só quando a vida pára
E o tempo se distrai
Do momento que vai
Do grito ouvido ao vidro estilhaçado
É que eu paro ao teu lado e nós trocamos
Vidas perdidas por horas roubadas

Para quem ama as andanças pela cidade, o “professor de zoológico” como dizia Adoniram Barbosa, é fundamental. E para esse outro nobre, Vanzolini fez homenagem, na tiração de sarro e no gancho de papo de boêmios.

O pivô do enguiço foi um gato
Pertencente a cidadão, por nome de Rubinato
O miau sumiu, ele botou o dedo ni mim
Só porque me viu, encourando um tamborim

Na noite passada, onze e meia, provavelmente noite de alguma ronda, da ronda de alguém por São Paulo, Paulo Vanzolini encerrou seu ciclo. A cidade que ele cantou dormiu, como dormiu incólume nesses oitenta e nove anos que ele a fez como companhia, e podemos ter a certeza de que é assim que ele queria.

Cheguei na boca da noite, parti de madrugada 
Eu não disse que ficava nem você perguntou nada 
Na hora que eu ia indo, dormia tão descansada

Como grande cientista e arguto poeta, o compositor zoólogo Paulo Vanzolini que nasceu na cidade de São Paulo em 25 de abril de 1924 e deixou a cidade em 28 de abril de 2013, o sambista que não tinha ritmo nenhum (palavras do amigo Martinho da Vila) escreveu seu epitáfio bem antes dele acontecer.

No último dia da vida
Encontrei-me com os meus pecados
Uns maiores, outros menores
Mas no geral bem pesados
Do outro lado somente
A ingratidão que sofri
O anjo pôs na balança
E vestido de branco eu subi.

Agora só toco harpa
De camisola e sandália
Espio pra ver lá embaixo
A quadrilha da fornalha
Aquela ingrata hoje está
Trabalhando de salsicha
Espetadinha no garfo
Satanás fritando a bicha
Ô demônio: capricha!

Será que a  São Paulo que Vanzolini cantou não existe mais? A intensidade do que ele fez torna uma mixórdia a pergunta anterior, assim como é mixórdia ele dizer na introdução do referido documentário que não amava  todas as pessoas, não importa o que ele disse e se agora nos deixou. Como teimoso ele era, o seu legado teimoso não nos deixa, como a nossa São Paulo que não desiste.

E assim, para o povo todo que ele disse não ter amado individualmente, deixou um patrimônio tão vasto que sobra amor para todo mundo.

Sem saber
O que o dia de amanhã nos traz
Sem querer
Relembrar o que ficou pra trás
Pode ser
Que agente assim padeça mais
Pode ser
Mas que diferença faz?

Vida comprida e vazia
Dias e noites iguais
Vida comprida e vazia
Dias e noites iguais
Morte é paz

 

vanzolini

Roberto Carlos de Cachoeiro de Itapemirim completa hoje 72 anos. Roberto Carlos é um dado inescapável do imaginário pop brasileiro. Quando eu tinha 5,6 anos no início da década de 70, ouvir Roberto Carlos era uma extensão dos mais prosaicos hábitos do cotidiano. Todo mundo citava letras do rei, usava gírias ditas e tiradas das músicas dele. Namoros, brigas, saudades de família tinha condimentação do rapaz da jovem guarda.

Dias atrás outro cantor nascido em Cachoeiro fez aniversário, ou faria, se aqui entre nós ainda estivesse, Sergio Sampaio nasceu no dia 13 de Abril de 1947, portanto 6 anos mais jovem que o rei. Sergio nunca atingiu o estrelato, não fez parte do restrito espaço de ídolos pop brasileiro, de alguma maneira a maioria que o conhece lembra de uma música, composta e gravada em 1972, e ela dizia assim:

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Claro que não vou precisar colocar aqui qualquer trecho de letra de Roberto para lembrar quem ele é…

Tanto Sergio como Roberto saíram, em momentos e épocas diferentes, da pequena Cachoeiro para o Rio de Janeiro. Roberto queria a bossa nova, usou terno e violão para tentar ser clone de João Gilberto, nunca desistiu e após ser o rei da Jovem Guarda, atingiu o estrelato para não sair mais da vida dos brasileiros. Roberto desenhou sólida carreira, com todos os percalços e contradições de quem chega no topo, alvo permanente.

Sergio na sua viagem aportou na orla carioca para espalhar a sua mistura de referências pós tropicalistas, rock com o samba e choro (legado do pai, também compositor, Raul Sampaio) que nunca saíram da sua retina. Junto com Eddy Star, Miriam Batucada e Raulzito (um dos seus ídolos) gravou o Sociedade da Grã Ordem Kavernista, um disco inclassificável pelos artistas dificilmente enquadrados que dele participaram. Após, ele seguiu numa errática carreira sacrificada pelo álcool e demais desbundes, mas que deixou canções e álbuns brilhantes.

Comemorar Roberto Carlos é também não esquecer Sergio Sampaio. Sergio era fã de Roberto e morreu em 1994 sem satisfazer a vontade de ter uma canção gravada pelo famoso conterrâneo.

Roberto Carlos chega em 2013 como um ídolo cansado, que canta banalidades e cede às facilidades do preguiçoso entretenimento. Disco de final de ano, especial da Globo e pouca exposição. Seu trabalho atual é protocolar e auto referente, mas Roberto tem um forte caldo acumulado, três dezenas de canções inesquecíveis, que volta e meia seduzem caprichosamente novos ouvintes. Um clássico.

A lembrança de Sergio Sampaio chega em 2013 como um dos integrantes de uma duzia de malditos que legou canções e rebeldia, que marcou posição em defesa da sua integridade, e que levou no corpo a sua arte completa, e essa foi tão forte que o corpo não aguentou o tom. Sergio volta e meia é lembrado, exaltado e na sua coerência ainda não é enquadrado.

Esses dois rapazes de Cachoeiro do Itapemirim, Espirito Santo, colocam o mês de Abril na história da música brasileira, pela sombra da lembrança ou pela luz ofuscante do esquecimento.

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Fui procurar fotos de Genival Cassiano dos Santos para fazer um montagem e postar no Instagram. Tenho essa mania quase adolescente, monto um pequeno mosaico com quatro fotos, tenho preferencia por fotos preto e branco, uso um aplicativo e logo após mando pra rede. Tive dificuldade de achar foto dele no google, com muito custo fiz o mosaico.

Mas quem é Genival Cassiano dos Santos?

Genival nasceu em Campina Grande, Paraíba,  em 1943, muito jovem veio com a família para o Rio de Janeiro, e a historia o levou para o caminho de todo nordestino que descia ao sul, trabalhar no braçal, construção civil, as cidades que se erguiam no Brasil. Mas ele tinha outros planos, soul, samba canção, harmonias vocais e as batidas no violão tomaram lugar e vez.

Genival montou com seu irmão (Camarão) um grupo vocal chamado “Os Diagonais”, era 1964, e eles seguiam na rabeira da bossa nova, circuito de shows Rio adentro. Lançaram compactos, e em 1971, um álbum sem o Genival, mas não virou.

Genival se transforma, enfim, em Cassiano no início da década de 70, vai tocar guitarra na gravação do primeiro disco de Sebastião Rodrigues Maia e de quebra, emplaca duas composições na bolacha: “Eu amo você” e ” Primavera”. O “soul brasileiro’ teve vários nascimentos, mas podemos dizer que naquele momento ele se lapidava.

Um pulo de Cassiano na cena musical: de “sideman” do Tim Maia para o primeiro disco “Imagem e Som” foi rápido. Vocais sofisticados, boas harmônias e a levada de quem ouviu muita música na rádio, sonhou e foi pras cabeças com o violão e idéias. Objeto direto, o soul brasileiro nasceu sem glamour, como tudo que é de verdade.

Foram mais dois álbuns na década de 70: em 1973 gravou “Apresentamos Nosso Cassiano” em 1976 “Cuban Soul”. Músicas como “Coleção”, “A Lua e Eu”, “Ana”, Cedo Ou Tarde”, bem conhecidas ou menos. Sucesso popular não faltou a Cassiano, a carreira foi errática naqueles anos de conturbação.

No final dos anos 70 com problemas de saúde, perdeu um pulmão, Cassiano sumiu da cena musical. Por onde andou na ausência? Segundo ele mesmo, não deixou de compor, de ficar ligado em música, mas na vida mundana e comercial não aparecia.

Em 1991 era moda lançar tributos sacados por produtores. Liber Gadelha, músico e produtor chamou uns estrelados (Marisa Monte, Ed Motta, Luiz Melodia, Marisa Monte, Djavan) que junto com Cassiano registraram “Cedo ou Tarde”, no recheio as músicas conhecidas e relativamente conhecidas do paraibano.

Cassiano continua sendo lembrado, regravado, remixado, enaltecido, gravou com os Racionais MCs, vez ou outra alguém o cita em entrevista, em 2001 iria voltar ao disco com a produção de William Magalhães da Banda Black Rio, fez até participações em apresentações deles, não virou.

Cassiano é assim, some e aparece, nem sempre por opção, quando falamos no seu nome as pessoas costumam estranhar a referência e ai então você canta:

“Mais um ano se passou
 E nem sequer ouvi falar seu nome, a lua e eu
 Caminhando pela estrada
 Eu olho em volta e só vejo pegadas”

…e Genival passa a ser Cassiano no olhar de quem não conhece, compositor, artífice do soul brasileiro, direto, popular e quase sem fotos.

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