Nao leve a mal me dê o meu agora, em festa de rato nao sobra queijo.

Não leve a mal me dê o meu agora, em festa de rato nao sobra queijo …

(Candeia)

Quero falar de algo do passado que opera no presente. Algo que já deveria estar superado. Muitas vezes a história é irônica, cínica.

Eu não posso dizer o nome da entidade, pois digo o nome da lei que a criou. Não que este nome seja proibido ou peça de baixo calão. Eu não posso dizer o nome, porque não acho que este nome deva existir. Dizer o nome seria reforçar um anacronismo que persiste em exister. Portanto eu não QUERO dizer o nome.

Mais fácil é colocar a lei que o criou a coisa que representa o nome a ser evitado. O numero da lei à frente e ano que foi promulgada. São emblemáticos, o número da lei, e principalmente, o ano. O ano que esta lei foi promulgada pertence ao século passado: 1973.

Neste ano, e reforço que foi no século passado, ocupava a Presidência da República Federativa do Brasil (apesar de tudo não era Estados Unidos do Brasil) um general do Exército Brasileiro, o nome dele é sonoro e incômodo: Emílio Garrastazu Médici.

Este general não foi eleito por ninguém, ele foi escolhido pelo Exército Brasileiro para estar ali, vivíamos em pleno período de ditadura. Esta ditadura começou em 1964 com um golpe de Estado que solapou do poder o Presidente João Goulart.

A tal lei criava uma entidade que se encarregaria de concentrar a arrecadação sobre os direitos autorais relativos a composições musicais e derivados. Onde se tocasse música a tal entidade estaria investida do direito de arrecadar uma porcentagem e repassar uma porcentagem da porcentagem arrecada para o autor da música.

Nesta entidade de gestão coletiva, coletiva, pois possuem em sua estrutura interna dez entidades ligadas ao registro de composições, não há nenhuma representação do Estado, o interesse coletivo (da população) não se expressa em nenhum poro dessa entidade que foi criada no período da ditadura. Coerente demais. Ela foi criada no período da ditadura, Estado autoritário, que exclui a participação direta do povo.

Como tudo que foi criado no período da ditadura (isso tem que ser repetido tal como o refrão de diversas canções populares que enriquecem os bolsos da referida entidade) ela tem muitos detalhes que não são muito claros ao universo de interessados que dela depende. E dela dependem compositores, músicos, intérpretes, arranjadores, consumidores, amantes da música… nunca é muito claro e democrático.

Estes detalhes envolvem dinheiro e um patrimônio mais raro ainda: composições musicais, expressão artística, registros de valor cultural. Tudo isso jogado na mão de uma minoria obscura e fechada que extrai lucro desse universo Muito coerente, pois ela foi criada na época da ditadura.

No dia 15 de Março de 1985 o último Presidente eleito de forma indireta pela ditadura militar, com detalhe de ser civil, criou o Ministério da Cultura (MINC). Até então a Cultura compunha o Ministério junto com a Educação o MEC. O Ministério da Cultura foi recebido com louvor por todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a cultura. Natural seria que este Ministério nascido mantivesse uma relação com a entidade criada pela ditadura. Nunca houve algo claro.

O detalhe novo (nem tanto) é que “a ditadura acabou”. Vivemos hoje em pleno exercício do sétimo governo eleito de forma direta e democrática após o fim da ditadura militar. Não obstante ser o sétimo governo eleito que deixa longe a tal ditadura, a Presidenta eleita foi vítima direta dessa ditadura. Ficou presa, sofreu tortura, perseguição política por lutar pela volta da democracia, e entre outras coisas, para o direito de elegermos diretamente o Presidente da República.

A Presidenta que foi perseguida pela ditadura foi apoiada, numa eleição polarizada, por diversos artistas que foram vítimas como ela dos desmandos e fascismos da ditadura. Entre eles um compositor e cantor (Chico Buarque) que combateu como pôde a ditadura e foi muito importante (dentre tantos) para o restabelecimento da democracia. O apoio desses artistas foi muito importante para a eleição da Presidenta.

Muito provavelmente em reconhecimento pelo apoio a Presidente nomeou para o Ministério da Cultura a irmã do cantor e compositor referido acima. A irmã (Ana de Holanda) também é cantora. Seria um desfecho alegre de uma historia triste? A irmã cantora do compositor perseguido pela ditadura seria a condutora de uma relação transparente com a obscura entidade criada pela ditadura para operar e solapar cantores e compositores.

Infelizmente e ironicamente não foi o que aconteceu. Por esses caprichos da história, a irmã do compositor representa de forma direta uma parte da classe artística que defende os interesses da tal entidade obscura e criada pela ditadura. Irônico? Não sei. Um dos mais claros e transparentes atos da Ministra foi declarar apoio (retoricamente negado) à entidade obscura criada pela ditadura.

Ela não esta sozinha, apesar de representar uma forma de pensar o direito autoral e a arrecadação ultrapassada, muita gente pensa como se pensava na época da ditadura, até a Ministra irmã do compositor perseguido pela ditadura que foi nomeada pela Presidenta eleita em 2010, que também foi perseguida pela ditadura.

A tal entidade que não mantém nenhuma relação com o Estado, continua obscura e fechada para o restante dos interessados (as pessoas em geral) continua operando da mesma forma. E com detalhes novos. Agora quer arrecadar dentro de cada respiro de música que seja executada e veiculada.

Esse blog, por exemplo, é um dos novos alvos da entidade criada pela ditadura. Coloco e divulgo músicas que gosto e tento relacioná-las com os meus textos e minha vida. Divulgo as músicas e os compositores, parte deles pouco conhecidos e/ou esquecidos. A tal entidade criada pela ditadura agora quer cobrar os direitos de veiculação de blogs como o meu. Cada vídeo postado ou música anexada em stream pagaria o direito autoral.

Pago e me calo? Fecho o blog por falta de recursos?

Em nenhum momento foi discutida a transparência e modificação da entidade criada pela ditadura referida. As conclusões de uma CPI foram ignoradas, a visão de parte representativa da classe artística que é contra não são levadas em consideração e a sociedade civil é sumariamente ignorada. As alternativas construídas num mundo onde o direito autoral muda em função da novas tecnologias e do próprio fazer artístico serão também ignoradas? Até aonde eu sei não há nenhuma imposição de mudança, a única imposição é de manutenção do modelo vigente, pior, aprofundamento do mesmo.

Como no tempo da ditadura?

Elegi a sétima Presidenta (primeira mulher) após a ditadura. Do meu jeito luto diariamente contra o obscurantismo e qualquer forma de pensamento autoritário. A Presidenta eleita nomeou para compor o seu Ministério, a irmã do compositor que lutou contra a ditadura e apóia a tal entidade anacrônica. Isso não representa pouco.

Nada mudou? Perdi algum capítulo da história?

No fundo esta solidão sempre esteve aqui, sempre, disfarçada em fumaça, em copo, em sorriso.

Mas era terça feira, sim, de verdade uma terça feira. Ao contrário do que já foi dito pode acontecer qualquer coisa numa terça. Lá no fundo uma jukebox. Eu “detestava” aquela jukebox. Deveria ter nela uns 200 discos, nunca contei. Lembro da música que tocou duas vezes seguidas certa noite: “Sailing” do Rod Stewart. Eu não admitia Rod Stewart, talvez na fase “The Faces”, ou antes ainda com o Jeff Beck Group, mas que raios de luxo eu queria? Tanta sutileza para aquelas madrugadas de somas derrotadas, como e pra que escolher a música? Baita frescura.

Bebida quente. Terça, quarta, sei não, apenas sei que a luz do bar era quase amarela, não um truque pirotécnico, mas fraca, definitivamente amarela. As moças dos cartazes das propagandas de cerveja ficavam turvas, de dia talvez fossem lindas, mas nem eram lindas, pois aquela outra moça engajada e esperta, minha seguidora no tuinto, afirmou que propaganda de cerveja com mulher gostosa é exploração negativa da imagem da mulher. Ufa! Eram sempre turvas então, porra!

Era uma inteira noite de terça, sim, pois ela já envelhecera tanto que nem mais seria chamada de terça, era quarta de madrugada. E a solidão incomodava como sempre e  sempre usada para justificar as burrices da noite…  Companhias desagradáveis, pessoas falando demais, de menos, urros e silêncios. Conversa mole e carregada, o tempo vai passar e passa. No final era tudo engraçado. Ou a companhia desagradável era eu mesmo.

Eu dizia da jukebox, ela (alguém)  investia novamente na música que eu não esperava e era uma do Zé Augusto:

Nada mais importa agora
Você foi embora e eu fiquei tão só
Sigo, sem saber meu rumo
Eu não me acostumo sem você aqui

Eu nem gostava de beber, mas estar ali fazia com que o exercício fosse automático, já fazia algumas horas (duas, três) que a moça de olhos grandes que trabalhava na padaria havia passado na rua. Bonita. Calculei que passava das três e meia. Comprava mais cerveja e na medida do copo minha identidade ia esvaziando. Falava qualquer coisa. Fofoca do boteco, comentário sobre a vida de frequentador. O cúmulo. Se eu afastasse os olhos como narrador externo sorriria do patético. Eu nem gostava de beber, mas bebia.

De que vale ter tudo na vida
De que vale a beleza da flor
Se eu não tenho mais teu carinho
Se eu não sinto mais teu calor

É de lascar. Um amigo eclético me contara outro dia, que o José Augusto fazia muito sucesso em países da America Latina, Peru, Colômbia, era ídolo. Sorri ao lembrar, aquela informação encaixava no momento. Virou relevante com a trilha no fundo. Ensaiei falar sobre com alguém, mas cada qual estava afundado na sua história própria. Fiz que fiz que e guardei para mim. Àquela hora era a vista ou desistir, não dava para ter conversa a prazo. Calei, sorri.

Tudo era motivo para ir embora, não tinha mais nenhuma cor no rosto do Suélio,  o balconista/dono do bar. Ele sempre destaca filosófico que às vezes é o dono, outras o balconista. Assim toca o seu negócio se adaptando às circunstâncias. Nenhuma cor naquela hora, então, apenas pedir a conta e ele vinha solícito com aquele rascunho sempre honesto, tantas cervejas e o garrancho destacando os quentes e os petiscos. Pagar e andar.

A jukebox repetiu a música do José Augusto, eu comecei a imaginar a letra em espanhol e ri, ninguém entendia porque que eu ria naquele momento. O eco do som aumentou na noite. A música quase sozinha comigo no salão. Genial fim de noite. Minha casa é perto, quase extensão, vou decidir, vou dormir. Amanhã, talvez, e ao menos a música do Rod Stewart. Eu ria, ria… mas nem aparentava…

Hoje, eu estou tão livre
Posso amar a quem quiser
Mas nada me interessa
Mesmo que ofereça o mundo aos meus pés
Sei, outro alguém te ama
Pensa que você já me esqueceu
Mas ao sentí-lo perto
Tudo é tão deserto, você pensa em mim

A solidão sempre esteve por aqui. Ela vai embora comigo disfarçada em farol, faixas, asfaltos, solta na rua.

Uma noite comum.

Conheci minha cidade nublada. Contam que na madrugada que nasci garoava fino. Minha mãe diz que em São Bernardo geava como açucar, cidade perto da Serra. Aprendi que era assim mesmo. Não reclamava a falta de sol. A cidade antes de eu nascer era mais fria. Pensava assim. Mas ainda nos anos 70, infância, ficava dias sem ver o sol. Tal qual a “Londres de neblinas finas” de outrem.

Lembro bem do ano de 1976, manhãs gélidas, sempre acordei cedo, ia para escola perto de casa. O caderno, o lápis, os dedos, primeiras palavras, o frio, o frio…os cabelos chegavam levemente molhados na escola. Era o alerta da manhã. Roupas úmidas e improvisadas e fuga dos guarda-chuvas.

Sobra de roupa de algum parente, usava uma incomoda malha vermelha grossa que colocava por baixo do guarda pó branco. Sim, usávamos guarda-pó. Nele era colocado (pela mãe) um bolso com o simbolo e o nome da escola: EEPG Estrada do Mar. E a professora explicava que a “Estrada do Mar” era o caminho que o Imperador (D.Pedro I) fazia de Santos a São Paulo. Devia garoar demais para cima da caravana do imperador. São Bernardo, no meio do caminho, recebia em conta gotas (de garoa) o Imperador.

Várias dessas histórias se misturam ao horror das filas onde cantávamos todo o dia o Hino Nacional antes de subir para a sala de aula. Cabeçudo e grandão, eu ficava sempre entre os últimos. Quase fora da cobertura, no frio, na garoa. Quando em vez variavam os hinos, da Bandeira, do Soldado e algumas canções ufanistas. Era a ordem instaurada. Sorte é que menino é rebelde sem razão, muitos de nós não cantavam o hino. E ficava aquele gosto de ser indisciplinado. Achava até bonito os hinos. Muitas vezes hinos frios e molhados.

Eram frias as manhãs. Mas o frio se misturava ao prazer nos intervalos, do recreio. Garoava na quadra e improvisávamos uma bola de papel e durex. Chute para cá e para lá. Tombos na garoa. Eu, o gordo, caía sempre, levantava vermelho e já partindo para a revanche. Não podia vacilar. Estes jogos não tinham vencedor. Eram os jogos da garoa. Não consigo lembrar dos gols ou passagens geniais, apenas da quadra molhada e do desafio.

A minha infância da garoa, das tardes mais sós a imaginar jogos e passatempos. Nem sempre a rua, quando garoava, mas a rua era até mais graciosa na garoa. Inventar os mesmos brinquedos, solitários e em grupo, na garoa. Voltar encharcado para casa, não por chuva caudolosa, mas por insistir em ficar na garoa. Molhado a longo prazo. No final era como ter nadado na tempestade. Tarde inteira na garoa.

Aos nove anos, míope, os óculos inimigos da garoa. Vivia secando com a borda da camisa os óculos molhados. Dormia de óculos, jogava bola de óculos, pouco enxergava sem ele. Descobri que melhor eram as lentes molhadas do que a miopia molhada. Entendo agora que os vidros ajudaram marcar a presença da garoa. Como as lentes, as janelas, o vitraux da sala, os parabrisas dos ônibus, que me protegiam e ao mesmo tempo me lembravam que eu vivia sempre com ela.

Hoje quando vejo a minha cidade nublada e garoenta não reclamo. A fiel companheira que me viu nascer, marcou vários momentos, às vezes volta. Já não garoa tanto em SBC, foi-se o tempo dos dias e dias sem sol. Hoje os intervalos são curtos, o seco prevalece. Mas a garoa vem sempre lembrar e lamber sua presença. Bem provável que não mais nos merecemos. Eu, a garoa, os tempos úmidos que se foram.

Rock and Roll, branco, preto, dos campos de algodão, caipira, urbano, barulhento e lírico. Minha perdição.

Você pula da cama de manhã e o mundo parece te assombrar, talvez o medo da juventude que não tinha ainda o barulho. Não tem motivo, o desânimo é a velha busca da canção perfeita, que encaixa, que te animará o dia, que o fará melhor.

Cash, Clapton, Carl..

Que venha a vida, que venha o dia, que venha a canção, é bom repetir:

Rock and Roll, branco, preto, dos campos de algodão, caipira, urbano, barulhento e lírico. Minha perdição.

Para todos os amigos e amigos:

A música chega, interfere, modifica nosso cotidiano, a ela é dada de forma reducionista a função de  pano de fundo. Muitas vezes não é nem uma questão de gostar ou não gostar. A teoria do gosto vulgarizada, não dá conta, fetichizada, dá menos conta ainda.

E a “Moça” do Wando fez eco na vida de muita gente. No ano de 1976 as rádios populares tocavam este canto sestroso do músico mineiro. E os anos não deram limbo à canção, ficou, Wando ficou. Verdade é que embrulhado num pacote difuso chamado “brega” onde cabe qualquer música que tenha algo de estranho ao “bom gosto” hegemônico. Todo mundo tem algo de brega e este hegemônico não passa de um barco furado.

Wando , artista popular, sem pompas e tradições inventadas.

O meu conhecimento sobre Wando não ultrapassa o senso comum. Desde os anos 70, sua música chega aos meus ouvidos envolta em ironias e sarros. Constante presença. Calcinhas, trilhas de novelas, entrevistas engraçadas, sinceridade e trajetória impecável. A impressão que fica e que ele ria de quem achava que estava rindo dele, e com elegância. Sempre foi o quis ser.

Do período autoritário à era do politicamente correto caricato, Wando preservou a sua integridade. E não é a integridade impositiva, do bom gosto, do transgressivo bem comportado. Artistas como Wando constroem sua trincheira de luta, criam o próprio espaço. E ele permaneceu, independente de quem quis enquadrar sua música onde ela não cabia.

Wando faleceu nesta madrugada (08/02/2012). Foi nosso autêntico fazedor de “torch songs”.

A “Moça” agora tem 36 anos. Na sensualidade da canção fica uma pontinha de melancolia.

Boa viagem, camarada.

Gritos, tambor, dança, dança, dança!

 Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança!”

                                                         (Rimbaud)

O Rock and Roll é por definição ambíguo e incoerente. Música inventada e calcada em várias matrizes. Blues, R&B, folk, boogie woogie, country, swing, festa de negros que aderiu brancos. Música de quebrar quadris com apelo sexual. Nasceu negro, bissexual, homossexual, birrento, libertário, contestador, iconoclasta e pronto pro consumo. Chuck Berry, Little Richard, Bill Halley, Eddie Cochrane, Gene Vincent e mesmo Elvis Presley, não eram exatamente uma boa referência para a sedenta juventude do pós-guerra. Mas era o que teenages precisavam, eles (consumidores potenciais), o mercado, a industria cultural.

Nasce o rock, pansexual, multiculturalista, contestador e … integrado.

Nos últimos meses tem causado espanto em tantos as declarações e reações de roqueiros sobre questões políticas e comportamentais. Dinho Ouro Preto (cantor do rock 80, Capital Inicial) num palco de um festival, lançou torpedos genéricos e generalizadores contra políticos. Roger Moreira (cantor do Ultraje a Rigor) vive dando declarações com fundo conservador no twitter e outros veículos. Lobão bate geral e pra todo lado, indo e vindo, dentro de um frenesi ideológico.

Poderia elencar aqui centenas de roqueiros que se assumem direitistas:

Johnny Ramone, guitarrista do Ramones, vivia às turras com o esquerdista e vocalista Joey Ramone, ao defender um ferveroso discurso republicano e conservador. Ted Nugent, guitarrista texano que surgiu na psicodélica e libertária década de 60, é hoje um fazendeiro milionário e figura de destaque do Tea Party. Johnny Cash, patrono de vários artistas e mago da mistura folk/rock/country, nunca escondeu suas posições conservadoras nos costumes e na política. Rush, trio canadense, tem letras e posicionamentos que ficariam um primor na boca do radialista homônimo Rush Limbaugh. O romance entre as bandas punk inglesas e o National Front, o orgulho separatista das bandas sulistas norte-americanas. A lista é longa…

E há os sofisticados, confusos, difusos. Como enquadrar o niilismo do Sex Pistols, a ambígua fase nazi do David Bowie, os delírios mal humorados do Lou Reed?

Tudo isso não deveria causar espanto. Onde esta escrito que o rock and roll carrega em si uma plataforma esquerdista e progressista no que se refere à costumes e á política? Como disse acima, ele nasce ambíguo e contraditório. Usar tatuagem, cabelo comprido, fazer cara de mau, fazer barulho com guitarras e refrões, não empresta necessariamente ao roqueiro uma marca ideológica progressista e esquerdista. Parece simples, não?

O rock nasce, adolesce, amadurece, envelhece, se afirma e se contradiz e escolhe. O rockeiro é o diabo a quatro…

A análise através de clichês e estereótipos coloca o rock, por um lado no pacote de manipulações da CIA. Os apocalipticos adoram misturar as rebolados de Elvis às tramas da Guerra Fria e do colonialismo cultural norte-americano. Do outro lado os utópicos vêm no rock a redenção das idéias libertarias e avançadas, o roqueiro seria o santo guerreiro contra a caretice. A realidade é misturada e diversa demais para esta delimitação. O rock esta no mundo que tem industria, consumo, discursos, opções e descaminhos e porrada de interesses.

Teoria da conspiração e deslumbramento não encerram o assunto.

Se formos nos aprofundar no cancioneiro do rock and roll encontraremos músicas: contra o aborto, racistas, misóginas (aos montes), que defendem claramente o credo liberal, chauvinistas, separatistas, pedófilas, que fazem apologia ao assassinato em massa, que minimizam a gravidade do estupro, que misturam de satanismo com nazismo, odes a ditadores…não tem fim. E há os esquerdistas que não são maioria. O rock é de esquerda, de direita, de centro, é diverso.

Rock não tem plataforma homogênea.

Isso tudo sem entrar na cabeluda discussão da arte e política. Apenas olhando de longe e tocando a superfície.

Não existe coisa mais perigosa que o relativismo.  Frases comuns: “Todos são iguais” , “Nada vai mudar” ,”Sempre foi assim”. E o mundo segue mudando e nada será como antes. Até para apontar lugares comuns usamos lugares comuns. Um punhado de clichês assinalados para um mundo que vive repetindo clichês nas falas e nos fatos. Uma via expressa para a barbárie.

Como se livrar desse impasse? Virar as costas e comprar um sorriso cínico para confortar dores e angustias passadas? Tripudiar sobre as ideologias como se num passe de mágica nossas vidas fossem vacinadas contra qualquer contradição?

São várias as opções confortáveis.

Vivemos no último final de semana a indignação,o sentimento de impotência frente a desocupação arbitrária dos moradores de Pinheirinhos – São José dos Campos (terreno há cinco anos ocupado), feita na manhã de um domingo nublado, à revelia de uma liminar da Justiça Federal, pela PM paulista sobre o mando do Governador Alckimin com o respaldo da Justiça Paulista. Parece que falo de países diferentes. Não, não é a mesma federação. E o país é governado sobre um pacto federativo. Supostamente.

Helicópteros, dois mil policiais, tropa de choque, rota, guarda municipal, uma liminar ignorada na calada de uma tarde de sexta e uma cobertura bem especial dos veículos de comunicação, distorção pela força e pelo convencimento palavrório. No amanhecer de domingo, simbolicamente sagrado para os descanso dos “bons homens”. E a ocupação passa ser de forma abrupta a memória dos sem teto.

Não se trata aqui de ficar batucando sobre interpretações juridicosas ou retóricas político partidárias. Os argumentos fortes para reduzir os danos e a gravidade dos fatos, ora são jurídicos, ora partidários. O ponto central é que foram colocadas em jogo vidas humanas. Que na verdade tem sua sorte rifada no contrapelo de um país (e ai não há relativização partidária que segure) onde a reforma agrária, a reforma urbana e a  questão da propriedade são colocadas num invólucro sagrado e congelada pela esquerda e pela direita. O sagrado.

Criminalizar os movimentos sociais e neutraliza-los tem o mesmo efeito. Jogar no bolso oculto da história o que caminha à revelia de pactos partidários costurados na preservação de poder é impossível. De algum jeito as contradições vêm a tona, com gritos e protestos, conflitos e, infelizmente, muitas vezes com sangue. Não cabe publicizar o sangue para ganhar uma eleição, como não cabe esconder o sangue para ganhar a mesma eleição. O maior escárnio é que isso tem cabido sempre. E não é pelo pacto federativo, tampouco pelas pessoas.

Pinheirinho não se resolverá na eleição para prefeito. A força e a truculência que juntam Pinheirinho à Cracolândia não são produto de mera relação causal. É um método claro e uma via política escolhida. Resta-nos apoiar ou combater. Não adianta pedir para ignorar por mero casuísmo. Pouco se faz apenas com o voto neste ou naquele, voto este  que funciona na maioria das vezes como desencargo de consciência. Não basta escolher, há que se construir o caminho. E assim ratificar que nem todos são iguais.

Soa ingênua, neste tempos de cinismos, uma constatação óbvia.

O mundo parece se engessar em velhos impasses. Que se renovam, que mudam de face, que se apresentam de formas diversas.

A música comunica rápido. Imagens e palavras. E a história se repete…

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