Meu tio Lincoln tinha um bar perto da minha casa. Eu tinha cinco anos e morava na Avenida Kennedy em São Bernardo do Campo. 

Foram poucas vezes que eu fui lá, mas é nítida a imagem dele atendendo com o cigarro na boca, servindo doses de bebidas fortes. Eu achava meu tio bem velho e ele tinha pouco mais de quarenta anos. Suas roupas, atitudes, o jeito de lidar com as pessoas. 

Quando penso no tempo, lembro da imagem do meu tio no balcão daquele bar, a luz fraca, os clientes folclóricos. Para mim meu tio já estava há muito tempo no mundo e aquele bar era o lugar de observar, de refletir. 

Passei a vida pensando que quando chegasse aos 40 anos seria velho e teria um balcão pra contemplar o mundo. Tive vários balcões na vida, trabalhei em loja de discos, livraria, me formei bibliotecário e tive inúmeros balcões para olhar a vida pelos livros e leitores. 

Privilégio, não precisei esperar tanto tempo. 

Ontem, amanheci com meio século. Quarenta e cinco anos depois aquele menino que admirava a maestria do tio ao fazer coqueteis populares de cachaça e outras misturas, mudou o olhar sobre o tempo. 

Hoje, já não tenho balcão para me separar e proteger da vida dos outros. O balcão se diluiu ao tempo que passou e deu espaço para outras fronteiras.

No tempo que ainda vem, espero poder olhar atento às coisas do mundo, descobrir e desfazer novos balcões. E que esse tempo seja leve e que o velho sempre esteja longe, até o dia que perder todo o sentido.

Abandonei o futebol. Os motivos são óbvios. A humilhação dos 7×1 (corroborada na Copa América), a decadência da Lusa, meu time do coração que luta para se manter na série c do brasileiro, e a coxinhice dos estádios de futebol, são motivos maiúsculos pra que eu retire o futebol da minha vida.

Mas o futebol está comigo em lugares escondidos, às vezes ele me encontra, às vezes eu esbarro nele por aí.
Duas imagens me trouxeram o futebol à vida na última semana. 

De alguma maneira a fotografia do menino José Carlos Vilella Jr apareceu na retina. O registro do choro feito no final da derrota brasileira para a seleção italiana, em cinco de julho de 1982, publicada no Jornal da Tarde, estava carregado de tristeza e frustração de um lado e de muita esperança de outro.

 

O Brasil dirigido por Telê Santanna, na Copa de 1982, trazia muitas diferenças do Brasil dirigido pelo capitão do exército Claudio Coutinho em 1978, existia uma mudança de fato.

Desconstruíamos a ditadura, o Brasil em campo era parte da leveza da abertura, com Socrates da democracia corintiana, com outros menos engajados, mas que encantavam nosso jeito amador de entender o futebol e de esperar por dias melhores.

O Brasil reaprendia a ser livre, sorrir e ter esperança. Havia complexidade no choro do menino do Sarriá. Acho que não foi à toa que eu virei as páginas de um livro velho e me deparei com essa foto.

A outra imagem que me remeteu à leveza que pode ter o futebol foi a alegria dos torcedores islandeses depois da histórica vitória contra a Inglaterra na Copa da UEFA. Eu não vi o jogo, nem mesmo os gols, só as fotos. Serviu.

Até então a Islandia não existia para o futebol. Assim como até 2008 a Islandia era o país da cantora Bjork e do gelo, quando surgiu nas manchetes de jornal como exemplo da quebradeira promovida por seu presidente Geir Haard, um fundamentalista neoliberal, agora execrado e enterrado na historia islandesa.

O Brasil esperançoso de 1982 andou, reconstruiu a democracia, teve eleições diretas em 1989, depois dela mais seis. Ironicamente após o 7 x 1 contra a Alemanha, vive um vergonhoso processo de interrupção da democracia. Michel Temer é o sete gols tomados na política, para o país é essa a maior derrota.

A Islandia construiu coletivamente um caminho para recuperar a esperança roubada pela sanha neoliberal. Na política o povo islandês inventou uma saída pela autodeterminação, reforçada pela recente eleição do historiador Gudni Jóhannesson. Portanto, o gol de Sigthórsson na virada contra a Inglaterra não foi um ato isolado.

Não, o futebol não opera milagres, nem revela nada que não esteja explicito nos rostos, nas ruas, nas vidas das pessoas. O futebol não define povo nenhum, no máximo ele reflete as coisas do mundo e é ai que ele sobrevive, preserva alguma verdade e poesia.

Desde o anuncio oficial da reeleição de Dilma Roussef (26/10/2014), começamos a nos enredar numa narrativa triste e limitada no dia a dia da política.

Não se cria, não se vislumbra horizonte, as utopias foram definitivamente abandonadas e prevalece o medo, a perplexidade e o imobilismo.

Parece a descrição empobrecida de um filme de suspense ou/e terror? É bem provável.

Num mundo onde os personagens se alternam entre aécios, moros, jucás e temers, o que esperar?

Um cotidiano empobrecido, onde as únicas emoções ficam circunscritas às manchetes e leads viciados e aos debates fadados à incompletude e ao niilismo.

O mundo da política brasileira fenece e parece apenas esperar o novo escândalo para se fazer presente.

Brasileiro não sabe votar, brasileiro não sabe se comportar em público, brasileiro é mal educado, brasileiro fala alto, brasileiro não sabe comer, brasileiro é brega, brasileiro é atrasado, brasileiro não lê, brasileiro se veste mal, brasileiro paga mico em aeroporto, brasileiro rico é brega e pobre é feio. Tudo isso falado por brasileiro que não é nada disso, mas é brasileiro. Ou seja: brasileiro nunca é brasileiro, brasileiros são os outros.

 

zecarioca1

Um dos tabus da casa da Rua Ipiranga era nunca ver tv após as 23:00. Claro, ninguém obedecia.

Dia de semana, madrugada do dia 30 de outubro de 1974. Todos falavam da luta do século. Muhamadi Ali x George Foreman no zaire.

O primeiro era uma verdadeira lenda, rebelde, peitou o governo dos eua ao se recusar a servir o exército na guerra do vietnã.

Foi ameaçado, afastado do boxe, mas venceu. Talvez, o maior esportista do século XX.

O adversário George Foreman era uma potência, forte, campeão olímpico em 1968, uma carreira de muitos nocautes.

Ali, que estava há três anos sem lutar oficialmente, entrava em grande desvantagem.

Não vou tentar nenhuma narrativa da luta, pois a distância do tempo e o registro do primoroso texto “A luta” de Norman Mailer, não me permitem.

Ali foi entretendo Foreman, que era mais forte, por oito rounds. Dançava, pulava, caçoava, apanhava. Foreman, cansado, vacilou e foi a nocaute.

Um dos maiores símbolos da black power venceu.

Eu, nos meus oito anos de idade me diverti com as sarrices de Cassius Clay aka Muhamadi Ali, sua dança, seu boxe leve pesado, um ballet de aço.

Meu irmão vibrava e comentava. Éramos os rebeldes da madrugada.

Com o tempo aprendi quem realmente foi Ali. Que ele é muito mais que socos e jabs.

Muhamadi Ali nos deixou na última madrugada e me fez lembrar daquela madrugada do ano de 1974, quando eu, ele e o mundo, vencemos.

Há dois anos eu vim trabalhar na Câmara Municipal a convite do vereador Antonio Donato por intermédio do professor José Castilho Marques Neto para contribuir na elaboração do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca.

Desde 2012 foram diversas feitas articulações entre Sociedade Civil, Executivo e Parlamento – primeiro através de Grupo de Discussão e a partir de 2014 de um Grupo de Trabalho – com ampla participação popular que resultou no texto final aprovado em novembro de 2015 na Câmara Municipal.

Em 18 de dezembro de 2015 o Prefeito Fernando Haddad sancionou a Lei Nº16. 333, que instituiu o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB.

Agora está mais do que na hora criar e empoderar o Conselho (consta nas premissas do Plano) que reúne sociedade e civil e poder público e fazer cumprir as metas estabelecidas no plano.

É bom lembrar que políticas públicas consolidadas tornam o livro e leitura mais político, esquecer ou se omitir diante disso é um grave erro, especialmente nesse momento de total despolitização.

Abaixo, o primeiro cartaz eletrônico que publiquei no facebook, logo após iniciar minha participação no processo (junho de 2014), um convite para uma audiência pública.

Agradeço a todos companheirxs dessa jornada, especialmente ao pessoal do GT.
Que o que está estabelecido no PMLLLB seja devidamente cumprido…

 

Nos “Cadernos do Cárcere” Gramsci afirma que o plano ético-cultural, a expressão de saberes, as práticas culturais, modos de representação e modelos de autoridade junto com a estrutura econômica e a organização política são elementos centrais para se obter a hegemonia dentro de uma sociedade.

As discussões sobre a chamada ideologia de gênero e da escola sem partido, pautadas pela direita de forma sistemática nos últimos tempos, não são apenas um delírio retrógrado fruto de pensamentos exótico, antes de tudo, elas colocam uma disputa por hegemonia.

É uma forma de impor e determinar um debate no campo cultural e educacional através de valores que irão moldá-lo, a novidade é a proatividade e a rapidez em ocupar os espaços políticos, tática que sempre fora utilizada pela esquerda, e que a direita está se apossando de forma produtiva e orgânica no campo do legislativo.

Há uma militância aguerrida – principalmente ligada às igrejas católica e evangélica, mas não só, uma prova disso é a força que os dois assuntos está ganhando na mídia – pronta para fazer barulho e exercer pressão em câmaras municipais, assembleias legislativas e no congresso.

Quem acompanhou as votações dos planos municipais e nacional de educação no tocante a questão do que eles chamam ideologia de gênero sabe muito bem do que estou falando.

Este é um assunto que deve ser tratado como prioridade pelo campo progressista, pois a direita está muito bem articulada. Se a educação não é uma prioridade e não é considerada estruturante, nos curvemos então ao sabor dos fatos.

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