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Arquivo mensal: outubro 2008

A música pop esta coalhada de versões, cover e afins, nem sempre valem a pena, mas algumas dão novo sentido a uma canção, as vezes até superam a original ou são apenas divertidas.

Pretendo postar de quando em vez a matriz (nem sempre) e a versão de músicas.

Para começar: Under the Boardwalk.

O “não vídeo” do Tom Tom Club é tosco, mas não achei coisa melhor, rs.

The Drifters – 1964

Tom Tom Club – 1981

O cantor/compositor Scott Walker acaba sendo o favorito de muita gente que gosta de musica obscura, eu não gosto de coisas que fiquem em grupinhos, principalmente coisa boa, nada melhor do que lançar luzes sobre o rapaz. Pelo menos tentar.

Nascido Noel Scott Engel em Ohio, EUA no ano de 1943, Scott Walker deu seus primeiros passos ao sucesso na música formando junto com Gary Leeds e John Maus os Walker Brothers.

Tudo começou na Inglaterra onde os três firmaram contrato com a Philips e assim conseguiram ficar famosos na terra natal.

Além de não serem irmãos, eles não eram ingleses e foram enquadrados na British Invansion ( bandas inglesas que tomaram os EUA em meados da década de 60), o grupo foi formado em Londres e entrou no embalo, as baladas com belos arranjos orquestrais e a voz personalissima de Scott davam o tom.

Os Walker que, de fato, não eram brothers, emplacaram diversos hits (Make It Easy on Yourself, The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore)e fizeram fama na seara dos teen idols na primeira metade da década de 1960.

Em 1967, Scott partiu para a carreira solo e lançou Scott Walker 1, o primeiro disco traria alguns ecos dos Walkers, mas a influência do cantor e compositor francês Jacques Brel nas letras e nas melodias (inclusive com alguns covers) serviram para bagunçar ainda mais o coreto. Basta ouvir Mathilde de Brel e Montague Terrace do próprio Walker.

Os quatro primeiros albuns de Walker foram nessa onda, letras tristes e densas falando de temas da barra pesada e marginalidade passando por críticas ao stalinismo, isso tudo ocorria no auge da flower power e da psicodelia.

Os arranjos contribuiam para dar densidade às músicas e colocar Scott numa zona cinzenta e pouco comercial, Bacharach, Previn, Kurt Weill e principalmente Brel foram coverizados por Walker, mas não eram versões contemplativas, existia uma ligação de consanguinidade entre esses clássicos e a forma Walker de criar uma canção.

Walker seguiu lançando albúns, o sucesso e repercussão rareavam e discos como Til the Band Comes In (1970), Moviegoer (1972) onde ele cantava versões de temas dos seus filmes preferidos, Any Day Now (1973) que traz uma surpreendente versão de Maria Bethania composta por Caetano Veloso, acabaram ficando no limbo.

Em 1975 ocorreria uma breve volta dos Walker Brothers, quando emplacaram um hit chamado No Regrets (música de Tom Rush) e depois de três albuns sumiram novamente, já não diziam tanto. Scott Walker se entregou à uma reclusão de 7 anos.

Da década de 1980 até o momento Scott lançou  três albuns: Climate of Hunter !984), Tilt (1995) e The Drift (2006). Principalmente nos últimos discos vem cada vez mais se afastando do tradicional conceito de canção e dialoga com experimentos da música erudita, mas a voz grave e épica ainda esta por perto.

Walker é um detalhista e perfeccionista, as suas canções e letras refletem isso, talvez o rótulo de obscuro e excêntrico tenha servido bastante a jornalistas preguiçosos, que em geral, não escutam os discos e reproduzem o que foi dito antes. A reclusão de Scott parece mais um recurso para poder se expressar na hora que realmente tem algo a dizer.

Ele fez escolhas e acabou influenciando e sendo reverenciado por muita gente: Bowie, Nick Cave, Brian Eno, Pulp, Cocteau Twins, Goran Brejovic, Associates, Divine Comedy…

Em 2006 o diretor Stephen Kijak lançou o documentário Scott Walker:30 Century Man, co-produzido por David Bowie e ainda não exibido em nossas terras.

Vale a pena saber mais sobre Scott Walker:

http://www.the-drift.net/

Para baixar:

Scott Walker 1 (1967)

http://www.mediafire.com/?d2mzm2yn2jm

Scott Walker 2 (1968)

http://www.mediafire.com/?w4y4lte02jd

Scott Walker 3 (1969)

http://www.megaupload.com/?d=4CUUI60M

Scott Walker 4 (1969)

http://www.mediafire.com/?on8ai8pg0q62bcs




Outubro amanhece com cara de maio e então o poema se encaixa:


Poema do mais triste maio


Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.

Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.

E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.

As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam
E os versos que me vêm, vêm tardos.

Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.

Manuel Bandeira – Maio, 1964

O escritor norte americano Jac Jean-Louis Lóbris de Kerouack (Jack Kerouack), nasceu em Lowell, Massachusetts em 12/03/1928 e morreu em  St. Petersburg, Flórida em  21/10/1969, foi ao lado de Allen Ginsberg e William Burroughs, um dos principais nomes da literatura beat.

Escreveu mais de 12 romances, ficando famoso com a publicação de On the Road (Pé na Estrada), em 1957, produto de uma viagem por sete anos pelos EUA com o amigo Neal Cassady.

Pé na Estrada: narração direta, alucinada, incansável, apelidada de prosódia bop, analogia ao jazz bebop, estilo muito caro aos beatnicks. A fala incensante.

Nesse livro, ele dá o tom, o sentido, a “batida” certa na existência de sua geração, desenho e base para os desdobramentos da contracultura.

Mas isso é reducionismo, On the Road tem que ser lido e curtido. E cada qual faz a estrada e reconstitui suas paradas.

Ler a obra e ler sobre depois, melhor pedida.

Outras de suas obras importantes são o livro de poemas Mexico City Blues, de 1959, e o romance Big Sur, de 1962. Nos ultimos anos de sua vida Jack se isolou e teve problemas com alcool, se entregou a um ostracismo, fim da estrada, analogia pobre, mas apropriada.

Hoje faz 39 anos que Jack Kerouac foi embora.

Aproveito a oportunidade para lembrar Júlio Barroso, jornalista, dj, dublê de cantor, compositor e, principalmente, uma antena ligada no mundo.

Júlio liderou o banda Gang 90, e em 1983, lançou o disco Gang 90 e as Absurdetes. Faz parte do álbum a canção Jack Kerouac escrita em parceria com Alice Pink Pank.

Julio Barroso não teve tempo pra ostracismo, morreu jovem, aos 30 anos, caiu da janela do seu apartamento em Sampa. Nada muito explicado, acidente ou um voo incerto. Fim da estrada.

Talvez a comparação de Júlio com Kerouac, nem seja a mais perfeita. Porém, não existe nada mais beat que Julio Barroso, foi onde quis e realizou uma obra curta e certeira.

Não dá explicar Keroauck, nem Júlio Barroso num post ligeiro, bacana é ir atrás, ler, ouvir e construir nosso próprio retrato dos caras, aqui fragmentos:

Jack Kerouac

Alice Pink Pank/Julio Barroso

Ontem a noite eu sonhei
que eu era Jack Kerouac
E subi num terraço: rua Houston
E vi as duas torres gêmeas brilhando.

O cabelo louro da menina
As tranças negras do crioulo
A sua guitarrra – a sua angústia calma.

Eu desci
Peguei a minha lata de spray
Sai pela rua, pintei dois olhos verdes nas paredes.

Ontem a noite eu sonhei
que conversava com Jack Kerouac
Ele chegava e me dizia
“Hey Man! eu renasci black
E agora sou um tocador de piston!”
Eu só sei que o som era tão alto que despertou o mundo inteiro
Eu acordei, e saí mandando brasa nas estradas do mundo.

Ei Jack! Bye Bye

De Brooklin, New York, o Gang Gang Dance prepara desde de 2001 a sua mistura de batidas não necessariamente dançantes, psicodelia e ecos do rock vanguardista novaiorquino.

Os albúns lançados pelo selo Social Registry: Gang Gang Dance (2004), God’s Money (2005), Saint Dymphna (2008),  as influências de Brian Eno notadas claramente, o fato deles terem andado em turnê com o Animal Collective já dão um bom caldo e vale a pena perder algumas horas ouvindo os caras.

Os componentes da banda já tocaram em outros grupos de NY como The Cranium, Actress, Russia, SSAB Songs and Jackie-O Motherfucker todos com o pé no chamado avant rock.

O disco preferido da crítica ,que costuma classificar o som da banda como tribalismo futurista seja o diabo que isso for, é o Gods Monkey de 2005, mas é o último  Saint Dymphna, lançado há poucos dias, que esta ai abaixo para download, confiram:

http://rapidshare.com/files/144695084/Gang_Gang_Dance__Saint_Dymphna.rar

http://www.myspace.com/ganggangdance

Em cada momento, em cada época da vida temos discos que fazem nossa cabeça. Não tem muito a ver com as listas de críticos, com os discos antológicos que operam revoluções na história da música. São as tais revoluções intimas que podem se universalizar. Muitas vezes do nada acordamos e lá está o nosso disco preferido em alguma lista de outrem. Felizmente nessa área não há unanimidade.

Poderia falar de vários discos,  um em especial fez minha cabeça e me ocorreu agora. Na verdade eu demorei para tê-lo em vinil, tinha apenas uma fita cassete e mal gravada, por muitos anos essa foi a minha referência. Era época dos discos que saiam e sumiam, não tinha onde baixar, viravam raridade e dá-lhe especulação e preços proibitivos.

Trata-se de “Mico de Circo” do Luiz Melodia.

O disco começa com “A Voz Morro” de Zé Keti com arranjo da Orquestra Tabajara de Severino Araújo , Luiz que não queria ficar estereotipado como cantor de samba, exerce seu direito de gravar samba no melhor clima gafieira:

Eu sou o samba
A voz do Morro sou eu mesmo
Sim Senhor,
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei dos Terreiros

Seguem músicas com arranjos e regências de Perinho Santana, João Donato, Armandinho, Marcio Montarroyos , Oberdan Magalhães (Banda Black Rio) time de bambas que deu bom caldo . Baladas, choros, samba-blues, não importa por onde anda o ritmo, a voz de Melodia esta lá, peculiar, soberana.

Gosto muito de Presente Cotidiano de versos:

Quem quer morrer de amor se engana
Momentos são momentos, drama
O corpo é natural da cama
Vou caminhar um pouco mais atrás da lua
Vou caminhar um pouco mais atrás da rua

O flagrante romântico e urbano de “Onde o Sol Bate e se Firma”:

Estou em torno da cidade
Trajes elegantes sobre mim
Vejo vitrines, vejo boutiques
Só não vejo quem eu quis
Os transeuntes me agitam
Me perco sobre a multidão
Mas vejo através das lentes negras
Lindo, teu corpo lindo
Serás amor minha canção


O samba-funk cheio de malandragem de” O Morro Não Engana “, alias o disco é uma homenagem aos marginais do morro (Cara de Cavalo, Mineirinho, Mico Sul e outros) que de alguma forma estava próximos ao menino criado no morro do Estácio:

Subi o morro, subi cansado
Pobre de mim, pobre de nada
Morro do medo
Morro do sono
Morro do sonho
Morro do asfalto
Morro do clima lá em cima
O morro é de morar

 

Ah, depois de um tempo consegui o vinil por uma grana em um sebo, daí veio o cd e acabou com esse elitismo de “coisa rara”.

Abaixo vou colocar trecho de uma entrevista que saiu no site www.gafieiras.com.br onde Melodia fala sobre o lançamento do disco:

Max Eluard – Fugiu mesmo?
Melodia – Saí batido. Fugi, em termos. Fui para um lugar onde eu estava bem acomodado com a Jane. Eu a conheci novinha, linda, maravilhosa, morenão, um cabelão. É ruim de não ficar lá! [risos] Foi quando escrevi todo o Mico de circo, um LP meu. Cheguei ao Rio e o concluí. Foi quando homenageei toda a bandidagem do Morro do São Carlos, de Mineirinho a Mico Sul, e acabou entrando Angela Maria, Jamelão. Eu queria somente homenagear a bandidagem, mas acabaram indo todos os bandidos. Foi toda a marginalidade. Inclusive, coloquei “Tributo a…”, aí comecei a escrever “Fulano de tal”, “Fulano de tal”, Cara de Cavalo. Tinha umas senhoras que me viram miudinho no Morro do São Carlos, e aí também pus o nome, Dona Moca, Dona Eurídice. Sabe, saí botando o nome de várias senhoras que moravam no morro. E com esse Mico de circo, “fugi” e voltei à liberdade. Estava liberto quando me encontrei com a Banda Black Rio. Chamei o Oberdan [n.e. Flautista e saxofonista, o maestro Oberdan Magalhães comandou a Banda Black Rio em três discos, Maria Fumaça, Gafieiras universal e Saci Pererê. A banda se desfez logo após sua morte, em 1984]. “É o seguinte: o disco já está em cima, é isso que eu quero.” Entramos no estúdio. Chamei o João Donato, que fez os arranjos também. Quem mais escreveu na época para mim? Perinho Santana.

Baixar:http://rapidshare.com/files/245610563/1978_-_Luiz_Melodia_-_Mico_de_Circo.rar

Falar da crueza de São Paulo, cidade que acolhe repelindo, é lugar comum. São Paulo surpreende, nos dá oportunidades unicas de beleza se observada no contrapelo. Dias inusitados, luzes diferentes, ruas vazias que não calam, pois sempre há vozes querendo gritar algo. São Paulo tem dias estranhos, improváveis.

Engraçado, cada qual tem sua mania. Em São Paulo cabem muitas manias.

Eu tenho mania pelo Viaduto Santa Efigênia. Não tem a ver com a cara inglesa que ele empresta àquele canto de sampa. O viaduto é bonito. É uma implicância. Das boas.

Mas falava de dias estranhos: 26 de dezembro de 2007, pós natal, o centrão vázio e as pessoas, claro, ausentes das ruas. Sampa só pra mim. Bobagem. Como disse acima há sempre vozes povoando as ruas vazias de sampa.

Mas a luz dessa foto, fim de tarde, nos baixos do Viaduto Santa Efigênia, sempre será minha. Centro de  sampa desocupado para desocupados. Não sei se o Viaduto ou a música de Adoniran, quem sabe os dois, me fizeram perceber que São Paulo sempre terá alguma luz escondida.

VENHA VER
VENHA VER EUGÊNIA
COMO FICOU BONITO
O VIADUTO SANTA EFIGÊNIA
VENHA VER

FOI AQUI,
QUE VOCÊ NASCEU
FOI AQUI,
QUE VOCÊ CRESCEU
FOI AQUI QUE VOCÊ CONHECEU
O SEU PRIMEIRO AMOR

EU ME LEMBRO
QUE UMA VEZ VOCÊ ME DISSE
QUE UM DIA QUE DEMOLISSEM O VIADUTO
QUE TRISTEZA, VOCÊ USAVA LUTO
ARRUMAVA SUA MUDANÇA
E IA EMBORA PRO INTERIOR

QUERO FICAR AUSENTE
O QUE OS OLHOS NÃO VÊ
O CORAÇÃO NÃO SENTE

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