arquivo

Arquivo mensal: novembro 2008

Atacando em dois tempos novamente: Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin).

Na versão original Sly Stone com seu apelo dionisíaco, caldeirão de soul/funk e psicodelia que iria influenciar tanta gente no futuro.

E a versão do Magazine, um dos artífices do que se passou a ser chamado de pós-punk.

Dois tempos, dois momentos da mesma canção:


sou_0511771 sly-family-lp1


Fui hoje conferir a exposição Container Art no Parque Villa Lobos. A proposta é bacana, você entra em containers e assiste bons a exemplos da produção de videoarte brasileira.

Pude ver um vídeo do João Moreira Salles feito para Ana Cristina César: “Poesia é uma ou duas Linhas e por trás uma Imensa Paisagem”

Ana Cristina César, poeta e tradutora nascida no Rio de Janeiro em 1952. Vida curta e uma produção de boa qualidade, confessional, intimista e rigorosa.

ana_cristina_cesar

Depois de publicar poemas em revistas e jornais alternativos foi incluída na antologia 26 Poetas Hoje (1976), organizada por Heloísa Buarque, junto com outros nomes da chamada poesia marginal: Chacal, Chico Alvim, Cacaso…

O primeiro livro “A teus pés” (1982) fez parte da antológica coleção “Cantadas Literárias” lançada pela Editora Brasiliense:

SETE CHAVES

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha
grande história passional, que guardei a sete chaves,
e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.
Conta mais essa história, me aconselhas como um
marechal do ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo
fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher
moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa – com
arbítrio silencioso e origem que não confesso –
como quem apaga seus pecados de seda, seus três
monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.


Ana Cristina César suicidou-se em 1983.

Ainda foram lançados: Inéditos e Dispersos (1985), Nova Seleta (1999 – organizado pelo poeta e amigo Armando Freitas Filho) e Correspondência Incompleta (2000).

Abaixo o vídeo de João Salles, numa versão com pouca qualidade que consegui no youtube.

CONTAINER ART

de seg. a dom., das 10h às 18h30; até 28/11
Parque Villa-Lobos Av. Professor Fonseca Rodrigues, 2001

Tel: 3023-0316

grátis

http://www.containerart.com.br/


No próximo domingo a cantora de soul/funk Chaka Khan e o saxofonista Brandford Marsalis se apresentarão no Parque da Independência localizado no Ipiranga em mais um show do projeto Telefônica Open Jazz.

Os dois farão shows separados e em algum momento ainda não previsto se juntarão no palco.

E a terceira edição do projeto, que em 2007 trouxe Diana Krall e em maio passado Maci Gray e Herbie Hancock.

Dia 23/11 – domingo

15:00 h

Parque da Independência

Avenida Nazaré, S/N

Ipiranga

Grátis

Abaixo Chaka Khan com a banda Rufus nos anos 70 e Brandford Marsalis tocando Dienda.


A primeira vitrola que tivemos em casa era um Gründing, o que veio antes não sei, não estava presente. Depois veio um terrível som  da CCE (que vivia dando pau). Qualidade de som não era o forte. Mas eram os discos que importavam, alguns eram amados pela família toda, outros nem tanto … A casa era plural, samba, pop, trilhas de cinema e novela. Com o meu aparecimento, o barulho começou. Devagar fui compondo uma coleção dos primeiros barulhos.

Alguns desses barulhos, como disse eram menos populares na família do que outros. E se  fosse perguntado a minha mãe qual banda que ela mais odiava e o disco mais temido, sem dúvida viria: o Slade de capa vermelha.

E já vão longe as tardes pós-escola quando eu chegava e colocava pra tocar em volume insuportável:  Slade Alive! Eram exaustivas audições , aqueles momentos tinham como marca incontestável a estridente e ágil guitarra de Dave Hill, os vocais roucos e sempre no limite de Noddy Holder e a corrente adrenalina juvenil. O Slade carregava uma aura de se adiantar ao punk, em som rude e direto, o que o rock trazia de rudimentar e básico. E barulho, muito barulho.

O disco gastava agulhas…

Lado A  começa suave com a música do Alvin Lee “Hear me Calling” que já no final com as guitarras dobradas aponta a barulheira que virá pelas faixas com “In Like Shot From My Gun” (uma das preferidas). Uma parada para a balada de John Sebastian (do Lovin’ Sponfull) “Darling Be Home Soon”, onde o vocalista Noddy Holder surpreende a todos com um arroto extemporâneo, finalizando o lado uma música retirada de um compacto “Know Who You Are”.

Lado B explode a pauleira trê faixas:  “Keep on Rocking”, “Get Down and Get with It” e no final uma das mais bacanas versões da malhada “Born to Be Wild” do Steppenwolf. Esta é a sequência mais ruidosa e cheia de emoções que marcou o limite da paz caseira e me levava ao delírio ao tocar guitarras imaginárias. Na real o som vinha do que Chuck Berry, Little Richard e outros precursores, haviam feito vinte anos antes, acrescidosmuito mais decibeis e distorções.

O Slade saiu de Wolverhampton, Inglaterra, rapazes da classe operária, de início eles se chamavam Ambrose Slade e carregavam o peso e a responsabilidade de serem conterrâneos dos Beatles, influência inapelável, juntavam a isso os também presentes r&b e soul que encantavam a garotada inglesa. Após um confuso momento skinhead, movimento influente naquele momento (o famosa Spirit 69), mergulharam de cabeça no glam rock e emplacaram dezenas de hits nos anos 70. Para tal tiveram um grande auxílio do produtor Chas Chandler, baixista da formação original do The Animals, assinaram com a Polydor, e cairam na estrada.

Com roupas brilhante, botas extravagantes frequentaram com singles as paradas e tocaram bastante em rádios:  “Coz I Luv”, “Look Wot You Dun”, “Gudbuy T’ Jane”, “Take Back Home”, “Mamma We’re Crazy Now”, “C’mon Feel The Noyze”, “Far Far Away”, ” Merry Xmas Everybody”, “Everyday” …

O Slade foi uma das bandas mais populares dos anos 70, em especial no Reino Unido, teve e ainda tem milhões de fãs pelo mundo. Odiados pelos críticos e amados pela rapaziada. Eles não tinham o padrão estético de rock stars, pareciam mais operários desajeitados, ornados com botas plataforma, roupas extravagantes, lantejoulas e aquele sorriso irônico pairando sobre tudo. Fanfarrões e divertidos.

Me diverti demais correndo os sebos do centrão de sampa para procurar os albúns da banda: Sladest; Slayed; Old, New, Borrowed and Blue; In Flame; Nobbody’s Fool; Whatever Happened to Slade; Alive 2 ... ouvi o Slade pela primeira no final de 1979, a banda já não era tão popular aqui e os discos iam sumindo das prateleiras. No meio da busca tantas outras bandas e discos caíram na minha mão, muitos acidentalmente, todos ajudaram a formar uma discoteca completamente anárquica.

Noddy Holder esgoelando e clonando os cantores de blues e rock and roll com bastante volume, alguns enxergam semelhanças no seu jeito de cantar com Screaming Lord Sutch, cantor inglês dos anos 60.  Jim Lea emprestando algum brilho no baixo, teclados e arranjos.  Dave Hill usando todos os clichês possíveis e imagináveis na guitarra, ainda assim com riffs geniais. Don Powell na batera, um Ringo mais etílico.

Slade ilustrou o começo da minha vida musical.

A diversão incontidas dos caras gerou muitos fãs que logo seriam ilustres e gerariam barulho próprio: Gene Simmons (Kiss), Dee Dee e Joe Ramone, Kurt Cobain, Lemmy Killmister (Motorhead), Andy Taylor (Duran Duran), Noel Galagher (Oasis), o Slade, sem vaticínios, é uma das bandas que mais influenciaria a sonoridade crua do punk, muito por suas performances ao vivo, básicas e barulhentas.

Eles caprichavam no inglês proletário (cockney) linguagem das ruas, cantavam como os fãs falavam, fizeram várias giros pela Europa e outros lugares do mundo, ficaram ricos e populares. Quando vemos os clipes antigos e imagens de shows,  podemos observar a banda se divertindo, coisa rara no  business rock, onde,  sucesso, glória e tédio se confundem, se misturam, para gerar figuras mal humoradas, megalomaníacas e taciturnas.

No final dos anos 70 a avalanche punk ironicamente fez o Slade parar e se recolher, eles voltaram em 1980 numa apresentação do Reading Festival. Renascia mais pesada a banda glitter. Lançaram em 1982 o álbum Till Deaf do Us Apart ,neste recomeço aconteceu algum sucesso nos EUA com a balada “My Oh My” e “Run Runaway”. Seguiram até 1987, e logo após lançarem o álbum Rogues Galery se separaram e nunca mais a formação original se reencontrou.

Dave Hill e Don Powell prosseguem até o momento com o Slade 2 tocam pela Europa, e ainda curtem a velha sensação de gigs, fãs e a vida rock and roll.  Jim Lea  grava esporadicamente tendo lançado o álbum Therapy em 2007. Noddy Holder, a voz/alma do Slade tem um programa na Picadilly Radio Manchester, atua em peças de teatro e participa de alguns programas de TV.

Slade é a minha banda preferida até hoje. Ao escutá-los uma carga de lembranças e de episódios voltam a ter vida, bons e ruins. História.  Os vinis e cds estão jogados em algum lugar da casa, mas não sairão daqui. Se você nunca ouviu Slade, e pretende, não espere uma banda genial que mudou os rumos da música. Slade mudou a música, sim, mas a mudança foi tão barulhenta que quem estiver do seu lado vai reclamar ou … amar. Valeu, Slade!!

C’mon Feel The Noyze!!!

So cum on feel the noize

Girls grab the boys

We get wild, wild, wild,

At your door

Abro espaço no blog para o meu camarada Liu Say Iam, residente numa maison no litoral paulista, tradutor de legendas de filmes de Kung Fú, sociólogo, ceramista e principalmente um cara bacana.

Fã de música convincente, o china folgado escreveu essa homenagem à James Brown logo depois do passamento do rei do soul.

Ah, já ia esquecendo, o Liu acabou de lançar um livro: Segredo da China, confira nesse endereço:

http://macunaimanews.blogspot.com/2008/10/segredo-da-china.html

Dedico este post ao meu brother Nino Brown, presidente do fã clube James Brown Brasil, representante da Zulu Nation Brasil e admirador de soul music.

atyaaaclw4w-f4icxtsczh05cyv3lc-x7cgi31j3ycjmbyrx4z8uvlpyrbb7i3g4ezsnxi4y7y6683drx96cfvhw-rajtu9vbpt6kmw6p4qgixs3u3vktkji23tw

Tardiamente publico as palavras do china escriba, antes tarde…


Um negão folgado


Por Liu Say Iam


Sempre dentro do princípio de celebrar os descerebrados seresteiros do apocalipse, lá vai um exemplar perfeito de maluco-beleza-doidão-irresponsável, cheio de aptidão pra se meter em rolos com polícia, mulherada, colegas, imprensa e consigo mesmo.

Em tempos de Pelé e Condoleeza, dá gosto termos visto um negão folgado que nunca quis ser exemplo pra criancinhas, nem pra própria raça. Ao contrário, viveu e morreu feito o desvairado que era, saco de pancada de burocratas analistas do comportamento.

Gauche involuntário, às feições de Muhamad Ali, Charlie Parker, Mike Tyson ou Diego Armando Maradona, a figura chamada James Brown foi persona non grata nos salões da vida pública, atirando pelo ralo milhões, mulherões e mansões, que auferia com facilidade igual com que detonava.

jamesbrown-1

Nasceu em Barnwell, aos 3 de maio de 1933, o mano, no estado de Carolina do Sul (primeiro estado norte-americano a se rebelar contra Lincoln e iniciar os Estados Confederados que levariam à Guerra da Secessão), no auge da recessão econômica e em meio rural com fazendas de algodão e tabaco, onde negro valia um pouco menos que piolho de cachorro.

Daí que se imagina: o cara ou pira, ou vira marginal barra-pesada, ou preacher da comunidade negra. Pois o nosso “herói” incorporou as 3 coisas, com o agravante de trazer nas veias o vírus do swing, misterioso dom de integrar-se aos fluidos rítmicos da natureza, como se os sugasse do chão, da terra agreste onde se intercomunicam África, Américas, Europa, Ásia e Oceania.

jamesbrown

É fácil deduzir que cedo começou a freqüentar reformatórios e canas pelos arredores da costa sudeste por não ter saco pra colher algodão, passar graxa em sapato de bacana, nem figurino pra balconista ou coroinha. O que neguinho enjeitado e ferrado faz em situações tais (além de roubar)? Tenta as carreiras de boxeador, jogador de beisebol, futebol, ou qualquer outra atividade que lhe abra frestas de esperança para um futuro cheio de grana, birita e gatas; porque caras assim não têm paciência de esperar, bater cartão, carregar madeira em obra ou dormentes em ferrovia. São caras iluminados por alguma coisa que só eles entendem, e ou descobrem a que vieram ou se acabam nas beiras de estrada ou nas sarjetas de cidade.

James Brown sobreviveu, apesar de perna-de-pau nos esportes, ex-trombadão e pinguço em tempo integral. O que o salvou é o que vem salvando transgressores, bandidos, anti-sociais e psicopatas, no decorrer da história: the sound of music. O cara tinha música por herança genética, dança por atavismo e ritmo por privilégio orgânico. Um animal musical, monstro dançante.

jamesbrown-4

Tipo desse cai de pára-quedas numa das incontáveis igrejinhas protestante de negões no interiozão sulista, em meio a farms, barns e bars, daqueles pregadores com voz de trovão e coral mandando ver gospel como se estivesse num palco de vaudeville, ou seja, cultos a Deus cheios de molho, ritmo e balanço. Aquilo, mais do que o sagrado verbo, deve ter escancarado a porta secreta da alma do moleque transgressor, explodindo por soltar todos os santos e demônios.

Dali partiu pro gospel e, estando sempre cheio de olheiros, ou ouvidores, as igrejas e clubes do pedaço, deve ter sido fisgado por um caça-talentos de sorte e encaminhado aos botecos à beira do rio, onde sem dúvida a voz poderosa e a originalidade logo fizeram dele atração, chamando a atenção dos empresários e produtores, naqueles tempos áureos de massificação fonográfica.

Note-se que no mesmo entorno geográfica, e quase à mesma época, explodiram fenômenos musicais com a força de, por exemplo, Elvis, Little Richard, Chucky Nerry, Lerry Lee Lewis, Johnny Cash (Bob Dylan viria logo depois) e tantos outros, todos de ascensão meteórica, infância problemática, desajuste social e ligados, de uma forma ou outra, às batidas de raiz negra e “caipira”: gospel, spiritual, soul, blue, jazz e folk.

james_brown523

Em 1950, já com banda montada e carreira profissional, passou a bagunçar os palcos com apresentações encharcadas de swing, virtuosismo e alta voltagem erótica. Grava um primeiro compacto em 1956, emplacando seu primeiro hit “Please, Please Please”; mas veio a explodir definitivamente na década de 60, ao definir sua persona artística, dançando feito um deus pagão dentro de roupas espalhafatosas e soltando um vozeirão tão irresistível quanto versátil, pontuado por graves, agudos, berros, gritos e sussurros.

Virou a fera incontrolável com o qual o público estranhava, mas delirava. Foi a década em que gerou as definitivas “I Feel Good”, “Papa is Gotta New Bag” e “Say it Loud: I’m Black and I’m Proud”, dos maiores clássicos soul, estilo negão, carregado, malandro, balançado e erótico. Impossível ouvir parado, quieto, indiferente.

O homem foi precursor. Suas desmunhecadas e safadezas fizeram a cabeça de futuros ícones. Seguidores confessos são Michael Jackson, David Bowie, Mick Jagger, Tina Turner, Madonna, entre outros, além de mobilizar a black music nossa, através de gente como Benjor, Tim Maia, Simonal, Gil, Tony Tornado, até a galera atual do funk, hip hop, rap, dance e outras modalidades afro. Tudo isso fez James Brown, enquanto aprontava rolos contra empresários e contra a própria banda, afora internamentos em clínicas de desintoxicação, sumiços misteriosos e retornos em alto estilo. Enquanto pôde subir rebocado num palco, nunca deixou de brilhar, honrando o apelido, que ganhou devido a uma canção sua: “Sex Machine”.

jamesbrownf008wu82

Foi encardido a ponto de bater as botas logo na noite de Natal de 2006, só pra encher o saco de médicos, enfermeiros, papa-defuntos, amigos e parentes. Morreu por conta de seqüelas de uma pneumonia, mas muito mais pelos excessos que cometeu a vida toda. Vai saber como durou tanto!

De qualquer modo: arruaceiro pra alguns, safado pra outros, obsceno pra muitos, neurótico pra maioria, foi, para todos, gênio. Alguém que deixou uma larga avenida a ser seguida, e cuja influência vai durar ainda muito tempo.

Só resta socar os punhos dos manos, botar “I Feel Good” a todo volume e tentar uma rebolada secreta, agradecendo: “Valeu, negão folgado”!

james-cartoon-big

Valeu, Liu!!

%d blogueiros gostam disto: