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Arquivo mensal: abril 2009

Confesso para vocês que escrever esse post foi dificil para mim. Teimosia e implicância. Desde moleque eu fui daqueles caras que procuravam na música algo mais que o prazer de só ouvir. Gostava (gosto) de conhecer músicas e histórias diferentes, de descobrir coisas, bandas, artistas obscuros, garimpar para me divertir. Quando você é mais novo, isso se torna até uma maneira de afirmação, de destaque, de tentar fugir do óbvio, de se destacar na multidão de incógnitos. É ilusão, mas diverte.

Tudo isso para falar que hoje, apesar de uma vida de resistência, confesso que admiro um músico, que nem de longe, precisa de qualquer concessão da minha admiração para ser o que é pra tantas pessoas: Raul Seixas. Eu pouco ouço Raul, mas durante a vida, direta ou indiretamente, ouvi todos os discos do baiano. Não há como ignorá-lo. A resistência vinha de alguns amigos fanáticos, que colocavam Raul num pedestal inatingível. Ele é muito mais que isso.

Em algum momento explodiu na cabeça do jovem Raul Seixas o impacto do rock and roll, e ele transformou isso na sua vida, como músico, como produtor, como artista. O fato é que ele  jamais esqueceu que morava no Brasil, e nunca deixou de ser um músico e artista extremamente urbano, antenado e brasileiro. Em sua música junto ao rock and roll,  tem ecos do brega, do forró, baião e da música, de fato, popular. Raul Seixas nunca fez força ou marketing para penetrar no imaginário do povo. Ele realmente tava lá , rs. Essa falta de limites, fez com ele adiantasse várias misturas, que de forma equivocada, foram anunciadas e incensadas como pioneiras nas mãos de outros artistas, muito depois do maluco tê-las feito.

O misticismo, a comicidade, o lado até gaiato por vezes, a rebeldia (de fato), colocam Raul Seixas em um lugar muito específico da historia do rock brasileiro. O fanatismo de seus seguidores, chega a irritar, muitos levam ao extremo algumas coisas que o raulzito dizia apenas para confundir, para zombar da caretice. Mas é diferente com vários outros ídolos da música?

Eu trabalho em biblioteca pública. Nas idas e vindas de projetos de leitura e contato com o público, tenho oportunidade de conhecer muita gente de perfis completamente diferentes. Dificilmente alguém ignora por completo a obra do baiano. Sempre há uma citação de uma canção que seja, e de gente muito diferente entre si. Você entra em boteco e lá está um fulano curtindo uma fossa com A Maçã, se um guri ouve Plunct, Plact Zum, já se identifica de pronto, os místicos com Gita … e por aí vai.

Gostemos ou não, Raul aponta o seu dedo para o “bem” e para o “mal”!

Ser músico popular não é fácil, estar no imaginário de muita gente é muito difícil. Raul Seixas é o músico POPULAR, sem maneirismos no termo.

Que bacana poder falar isso, aos quarenta e dois anos, e me redimir de tanta bobagem que disse por aí a respeito desse artista realmente popular. Como Raul, o bom mesmo é poder mudar de idéia, passar a vida e se portar de maneira mais livre e aberta. Ele viveu e morreu de excessos, e deixou uma obra respeitável. Ele sabia muito bem onde queria chegar, tristeza ou alegria, o fizeram chegar.

Valeu, Raul dos Santos Seixas, eu também sempre fui muito reclamão.

Toca, Raul!

Apenas parte dos artíficies do que se pode chamar “moderna música popular brasileira” são incansavelmente propagandeados por todas as mídias. Não acho que isso sobrevalorize ou desvalorize alguém, mas vulgariza discussões mais complexas. Omissoes sao a regra, descaso com fatos e descontextualizacao sao constantes.

A necessidade de hierarquizar nomes e importâncias, faz com que sutilezas passem despercebidas e alguns autores sejam esquecidos pela falta de rótulo para serem enquadrados e mesmo pela complexidade de suas obras.

Fala-se bastante da era de ouro da música brasileira (décadas de 30 e 40 do século passado), mas  é bem raro entrar-se em pormenores, as delicias da nossa música  ficam para os persistentes e podemos buscar nos historiadores e jornalistas, como Tinhorao, Sergio Cabral, Vasco Mariz e dentre outros, fica tudo na escala dos iniciados e as pérolas lindas são pouco ouvidas e divulgadas.

Um exemplo desses “esquecidos” é compositor, pianista carioca, Custódio de Mesquita Pinheiro.

De família rica e boa pinta, nascido e criado nas Laranjeiras, Mesquita se notabilizou por suas canções em parcerias com: Mario Lago, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Noel Rosa … e pelo esmero  e sofisticação com que tocava piano e bateria. Sua vida, devido a extrema discrição, é recheada de histórias obscuras e teses controversas. Boêmio e relaxado nos estudos, achou na música guarida e campo fertil para exercitar seu talento.

Formou-se regente pelo Instituto Nacional de Música, mas antes disso ja se notabilizara  por compor sambas, fox e marchinhas , nunca deixou de andar com sambistas e com o pessoal de teatro (foi vice-presidente e fundador da SBAT) que à época representavam o supra sumo das más companhias.

Esse transito entre o popular e o erudito, deu-lhe munição para misturar harmônias sofisticadas com letras populares e ritmos diversos. Sutilmente, era dado um grande passo na música brasileira, esta síntese fundamental. Sem maiores delongas, suas canções provam isso. É so ouví-las.

O primeiro sucesso de Custódio, letra e melodia do próprio, foi lançado no carnaval de 1934, “Se a lua contasse” :
Tudo que vê
De mim e de você
Muito teria o que contar
Contaria que nos viu brigando
E viu você chorando
Me pedindo pra voltar

Compôs musicas que ficaram  bem conhecidas como Nada Além, em parceria com Mario Lago (na voz de Orlando Silva):

Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
Que é demais para o meu coração
Acreditando
Em tudo que o amor mentindo sempre diz

“Mulher” com Sady Cabral, que seria gravada, nos anos 70 por Nara Leão:

O teu amor
Tem um gosto amargo
E eu fico sempre a chorar essa dor
Por teu amor
Por teu amor,
Mulher…
“Saia do Caminho” com Evaldo Rui, em 1956 Aracy de Almeida gravaria essa música a transformando em um clássico da dor de cotovelo:
Junte tudo que é seu, seu amor, seus trapinhos
Junte tudo o que é seu e saia do meu caminho
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinho
Nosso amor já morreu
E a saudade se existe é minha
Fiz até um projeto, no futuro, um dia
Custódio faleceu em 1945, aos 34 anos, a carreira foi abortada, bem provável que viriam mais e mais do que suas cento e trinta e três composições.
Para saberem mais sobre a vida de Custódio Mesquita, procurem o livro: Prazer em Conhecê-lo – A vida de Custódio Mesquita – Bruno Gomes Ferreira, Editora Funarte, 1986.

Lendo a coluna do Pedro Alexandre Sanches, essa semana na Carta Capital, fiquei sabendo do disco War Child Heroes, onde graúdos como Dylan, Brian Wilson, Kinks, Blondie, Paul McCartney escolhem pares mais novos para gravar versões de suas canções. A intenção é arrecadar grana para a ONG War Child, que cuida de vítimas em guerras pelo mundo afora. Os fabricantes de armas, talvez, tenham ações dos grandes conglomerados do show bizz internacional. A velha lei do morde e assopra, do cobertor curto e molhado …

Sem dúvida essa versão de Heroes do Bowie pelo TV On The Radio, entra na conta das boas coisas. No final das contas, além de todas as intenções, o que sobra é a música:

Em 03  de abril de 1882,  morria no Missouri, um dos bandidos mais pop da historia da humanidade: Jesse Woodson James. Forjada no contexto da Guerra Civil Americana e facilitada por um Missouri esgarçado pela própria guerra, a vida bandida e a lenda criada em torno de Jesse James passou de boca em boca por gerações no mundo inteiro.

Leia mais sobre Jesse James: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jesse_James

O bandido pop e sua história cheia de lendas e feitos geraram vários produtos  na industria cultural:  no cinema, vide o recente: O Assassinato de Jesse James com Brad Pitt, na música, Jesse James Bolero do Prefab Sprout (do álbum Jordan: The Comeback, 1990 – confiram abaixo), são bons exemplos. Ao procurar acharemos tantos outros …

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Jesse Woodson James :  Condado de Clay, Missouri, 05/09/1847 –  Saint Joseph, Missouri, 03 de Abril de 1882

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