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Arquivo mensal: agosto 2010

“Nunca me frustrei em fazer música popular, faço isso com todo o prazer e gosto muito. Só de conviver com Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho], um sujeito fabuloso, com Garoto [Aníbal Augusto Sardinha], Dino [Dino 7 cordas – Horondino Silva], João [João da Baiana], Jacob [Jacob do Bandolim], excelentes músicos. Se eu tivesse ido à Europa, poderia ter sido um grande pianista, mas nunca seria um compositor brasileiro.”

Radamés Gnattali

Radamés Gnattali com Pixinguinha


O blogueiro que vos escreve é um dinossauro de esquerda, sem regozijo ou arrependimento, relato isso apenas como produto de erros e acertos. Nos últimos anos se tornou algo vergonhoso ou demodé ser de esquerda, de repente todas as contradições se resolveram e citar o velho Marx virou motivo de vários de acusações: fanatismo, anacronismo, exotismo.

 Não importa o que digam, apesar do palavrório que varia da desqualificação aos sofismas de novos rótulos empapados de neologismos, os velhos impasses continuam os mesmos, as desigualdades, as perversões, a sanha capitalista, os descompassos e as falsas acomodações classistas não convencem e ainda existem as velhas questões para serem debatidas, questionadas, o mundo não parou no pensamento único desejado por uma minoria, seja ele qual for esse pensamento congelado.

Na década de 90, era da derrocada de alguns tipos utopias socialistas, o revisionismo tomava conta de tudo. Era um tal de reconhecer o valor de Eugenio Gudin e Roberto Campos, de desqualificar inexoravelmente uma série de pensadores de esquerda, de admitir que a retórica liberal foi a fiel depositária dos avanços da sociedade, de taxar Leonoel Brizola de gagá ultrapassado, afirmar que o PT morreria junto com a decadência do “derrotado” Lula, fim das classes, fim da história, mercado onipresente, Consenso de Washingon …  ufa!! Os caminhos eram poucos: ou se lançar na guerrilha trotskista esotérica, cair no pasmado e envergonhado discurso de uma certa centro-esquerda ou aderir à folia liberal.

As duas derrotas de Lula para FHC, em 1994 e 1998, serviram para reforçar, em termos nacionais, esta síndrome de viralata da esquerda. Os governos FHC pautados pela agenda internacional de privatização, domínio dos sistema bancário (fato que nao mudou até hoje), flexibilização das leis trabalhistas e com o nada de políticas sociais (apesar da tentativa de disfarces)serviram para adensar as trevas e o imobilismo. Foram oito anos de pancadaria.

Em 2002, Lula conseguiu furar o bloqueio e foi eleito presidente com um formidável apoio popular e expressiva votação. Muita esperança e uma alegria quase colegial tomou a esquerda, os avanços sociais foram inegáveis, um tanto tímidos e desprovidos da necessária politização, o capitalismo financista deitou e rolou,  a oposição (dentro de todos os interesses que sempre representou) pouco a pouco foi tornando um Governo eleito com respaldo popular refém das suas chantagens oriundas do pensamento e da lógica neoliberal.

Em 2005 para dar os moldes oposicionistas à eleição vindoura, veio o mensalão, a fábula dos ladrões petralhas. A já manjada estrada do caixa 2 de campanha virou novidade e peça acusatória na boca da direita empenhada em enquadrar e vetar o segundo mandato de Lula. Foi o canto unívoco da mídia e da classe média: PT, partido de ladrões que institucionalizou e sistematizou a corrupção no país e outros pérolas do neoudenismo. Tudo isso turbinado pelo bunker midiático e seu exército de especialistas e demiurgos da decência.

E Lula foi buscar na base popular, como nunca antes… e no apoio sindical,  seu refúgio e reforço. Era o que precisava para desatar o nó; os inimigos eram os mesmos, a narrativa que se fingia como alternativa era a mesma dos anos 90, ficou fácil acreditar de novo e optar pela continuidade dos avanços. O uso quase exclusivo escandalo do mensalão e seu escopo demagógico, como plataforma única, salvou a esquerda. Perdeu-se a simpatia de uma certa classe média, ganhou-se outros mundos. Lula reelegeu-se em 2006 com grande votação.

Não quero dizer que a esquerda tenha achado ali seu rumo e suas novas bandeiras de luta, mas a o campo estava aberto para novas dúvidas e novos caminhos. A sensação era de que a esquerda não havia morrido e se ressaltariam a diversidade e as diferenças dentro de si, e com certeza, ela não estava só no PT.

Hoje, o que um obscuro senador do sul do país facultou como possibiludade de “fim dessa raça” foi o canto de fenix da própria, para fazer renascê-la. A força e o carisma de Lula da Silva, claro, foi o ponto principal da virada, mas a energia concentrada para combater o reacionarismo e o ressentimento da direita fez con que forças há muito fragmentadas se reaglutinassem.

O momento histórico é formidável, há uma frente a favor de Dilma, e é na diversidade  dessa frente que reside o que é de mais interessante, não há espaço para acomodações e falsos consensos, é uma trégua para combater o inimigo comum. E o que mais me deixa otimista é que o momento posterior à possivel eleição da ex-ministra pode se transformar numa  grande oportunidade para que as diferenças dessa grande frente resultem  no aprofundamento da democracia.

O Voto em Dilma

Opto por Dilma por preferir a construção de políticas públicas, ainda que incompletas e longe do ideal, operadas pelo Governo Federal nos últimos oito anos à política pública da omissão, da falta de imaginação, da terceirização e desobrigação do Estado proposta pela oposição São Paulo é um laboratório das políticas tucanas, retrato de opções que não são novidade para nínguem, nós em SP vivemos e podemos avaliar os resultados.

Voto em Dilma pela diversidade (de gênero, etnica, cultural) e rejeito o que Serra representa (o fundamentalismo, o preconceito, a exclusão), confesso ser um voto nada ingênuo ou de cores aberrantes, um voto de esperança em mais avanços. Espero sinceramente pelo aprofundamento das políticas e transformações sociais e radicalização dos embates democráticos e a quebra de alguns assuntos tabus, e ainda acredito no voto crítico e esperançoso.

O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido.

Antonio Gramsci

A música entra na vida da gente de vários formas. A rádio trouxe a música pra minha vida de maneira direta e indireta. O meu pai ouve rádio diariamente desde que me entendo por gente. Parte dessa história se inicia em meados da década de 70. O rádio ligado na cozinha e meu pai do lado ouvindo quieto, lendo um livro ou uma revista. Eram programas de música da velha guarda.  Ficava rondando por perto, de tabela, ouvindo junto. Ouvia então pelo ouvir do meu pai. E foi assim insistente e abelhudo que conheci os primeiros sons que marcaram minha vida.

Melodias fortes, cantores influenciados pelo bel canto, valsas, serenatas, modinhas, sambas…tudo vinha de uma maneira incompreensível àquela altura da vida. Eram noites de domingos após a transmissão de futebol e em algumas manhãs que a memória me trai por não localizá-las exatamente na semana. Ali começou a vida da música na minha vida.

E foram ecos que derivaram em outros ecos, o interesse decerto despontou antes, mas ali ele se cristalizou. Falo disso para marcar esta homenagem ao meu pai. Coincidência ou não é domingo, o dia dos Pais. E eu que fui sempre desistimulado a comemorar estas datas, sem pudor aproveito a efeméride e  faço homenagem ao seo Geraldo, que mesmo sem saber (quem sabe?) foi quem desencadeou meu amor pela música.

E para ele vai Malandrinha do Freire Jr, gravada originalmente em 1927  (mesmo ano em que ele nasceu), aqui em versão regravada pelo Martinho da Vila no disco Canta Canta, Minha Gente. É bem provavel que Malandrinha, na versão de Chico Alves, tenha tocado em alguns daqueles velhos programas que hoje passeiam por minha memória.

Valeu Pai!!!

Pois é, Roberto Piva, poeta paulistano, que namorou o surrealismo, e que não se enquadrava, que era impertinente na época de coisas sérias, que era monarquista, que era contraditório, que versava errático, que era injustamente lembrado apenas pela “homossexualidade” de seus poemas, que era engraçado e amargo, que era rigoroso, que celebrava Célan e Gottefried Benn, que abraçou o xamanismo, que era um incômodo (em várias versões), que era um homem de poucas concessões e muitos amigos … faleceu no último dia 03/07, lembro-me agora e nem sei por que, talvez para embaçar esta madrugada de sono diluído … afirmo e reafirmo que esse blog é feito de implicâncias e ando falando muito de morte nele, implico com a morte, o obtuário klaxonsbc informou.

Eu sou uma metralhadora em estado de Graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto”.



Boa Viagem Piva!!

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