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Arquivo mensal: novembro 2010

Há nove anos George Harrison ia embora.

Outro dia conversava com um amigo (Antonio) e ele mal-humorado dizia que novos artigos sobre os Beatles deveriam ser proibidos. Exagerado.

Na real ele gosta muito dos Beatles e de fato muito já foi escrito sobre os caras. O barato é que sempre achamos ter algo a mais pra falar sobre o que pensamos e sentimos sobre o Fab Four.

Claro que este post vai sumir no meio de milhares. Mas por que não escrever? Nem que seja por um motivo prosaico: ouvir While My Guitar Gentle Weeps, compartilhar.

George e uma das suas músicas mais bacana. Em quatro tempos e maneiras diferentes de reverenciar.

A cultura pop nas cabeças óbvias dilui a profundidade dos fenômenos. Heróis são inventados para descomplicar o mundo, tirar a complexidade, dar soluções rápidas e baratas. Super-Homem, Dirty Harry (o Clint Eastwood de Colt 45), Chaves, Escrava Isaura, Spirit, Odorico Paraguaçu…são tantos. No último final de semana a vida provou que a cultura pop não simplifica tanto assim. Aliás, isso já foi várias vezes provado. Um encontro foi marcado e não cumprido: Capitão Nascimento entraria no Complexo do Alemão para encontrar Macunaíma. O exterminador pragmatico x malandro. Não, não, me recuso a falar de “caráter”.  Acompanhei a transmissão mezzo Globo News, mezzo pelos comentários no twitter, principalmente dos enfant terrible da http://twitter.com/vozdacomunidade , que provaram mais do que nunca que o jornalismo cada vez menos depende das ferramentas tradicionais. Sim, houve uma transmissão, o que emula mais ainda a sensação de cultura pop rondando. Mas na vida real tem sangue, e tem gente. Ainda bem que o encontro não houve. Macunaíma, o desejo de síntese de Mário de Andrade, recorreu ao expediente de jogar as armas nas valas. Capitão Nascimento dava entrevistas para a TV e laureava seu exito, ficou sem dar um tiro (será?). O encontro, de fato, não houve, mas perdura a promessa, próximos capítulos. Uma das características da cultura pop, segundo os apocalípticos, é diluir os fenômenos e descomplicar a vida. O domingo foi marcado por um sensação de paz e parece que muitos encontraram o Muiraquitã, a paz da cultura pop. Macunaíma tava no Rio e não apanhou do Exú (Capitão Nascimento?). Fica a sensação do incompleto, a GNT não teve o sangue que muitos esperavam, os garotos da Voz da Comunidade relatavam tiros ao longe.

Por enquanto, tudo (!?!?) bem.

Comparações e analogias  fáceis podem empobrecer histórias. Algumas são fatais, não podem ser ignoradas.

Jane County, nasceu Wayne Rogers no Condado de Dallas em 1947. Claudia Wonder, nasceu Marco Antonio Abrão, em São Paulo no ano de 1955.

Jane foi para Frisco militar e viver a intensa vida. Claudia cedo foi fazer teatro, cinema e tornar Sampa menos careta.

Jane escorregou pelos experimentos do teatro e foi para o rock and roll, mergulhou na cena  punk, em 1977, quando  montou o Wayne County and Eletric Chairs, foi pra Londres, após, volta a New York onde se firmou.

Rock and Roll!

Claudia mergulhou na música, performances no Madame Satã, São Paulo com a  banda suporte, Jardim das Delícias. Lembro de uma entrevista que Claudia chamava pra si as influências de Blondie e Television, contemporâneos de Jane na cena CBGB e Max Kansas City, dez anos antes.

Rock and Roll!!

Jane voltou a Dallas e ao teatro, mas nunca largou a música, tudo isso na década de 90.

Claudia vai para a Suiça no final dos anos 80, novos horizontes.

Jane é reverenciada no revival de bandas punk (anos 90), seus álbuns são relançados e shows requisitados.

Em 2000, Claudia voltou da Europa, se torna importante nome na militância e nas conquistas do movimento GLBT, escreve textos lúcidos e inteligentes na web e em revistas segmentadas, em 2008 gravou um disco de música eletrônica: Funky Disco Fashion.

Jane e Claudia marcaram presença e deixaram marcas por onde passaram.

Jane esta por aí, criativa, fazendo shows e atuando.

Claudia, infelizmente, nos deixou na manhã dessa sexta-feira, depois de dois meses internada, vítima de criptococose (doença do pombo).

É bem provável que Jane e Claudia nunca se conheceram, mas as semelhanças e a consanguinidade são irrefutáveis.

Rock’n Roll!

A trajetória de uma canção revela sua vida, por vezes ela se torna própria. Tim Maia corria atrás de Roberto em 1969 para que este gravasse uma música sua, se aproveitou da instantânea simpatia que despertou na então esposa de RC, Nice,  e depois de muito tentar, Roberto gravou “Não Vou Ficar” (esta história é contada pelo Nelson Motta). Sucesso e momento marcante na carreira do Rei, e claro que Tim disse logo após que teria feito melhor. Tim sempre Tim.

A música seguiu contemplada (nem sempre gloriosa), pois:  Kid Abelha, Ivete Sangalo, Fabio Jr, Pitty, até os portugueses dos Delfins a gravaram. Mas o interesse fica na junção de uma tríade representativa: o criador Tim Maia, Roberto Carlos que a  tornou popular e, finalmente, o que a demonstrou em síntese: Itamar Assunção.

Chegou a hora, tem que ser agora
E com você não posso mais ficar
Não vou ficar, não (não, não)
Não posso mais ficar, não, não, não
Não posso mais ficar, não

Um amarração perfeita calcada na óbvia co-irmandade entre Tim e Itamar (na velha conversinha de malditos), o que esta longe de explicar a grandeza de ambos, casada com a popularidade e aura de “midas touch” de Roberto. A canção criou vida e se sustentou pelos seus méritos. Roberto a gravou num período que reinava solene com baladinhas adoçadas e rockinhos limpinhos, surpreendeu e contrastou com o arranjo soul e a letra desafiadora, ele podia e tinha fôlego. De sobreaviso Tim insistia e o endosso do camarada rico abriu caminho (de certa forma) para que ele criasse seu próprio reino conturbado e cheio de idas e vindas.

Itamar apresentou a canção nos seus shows em meados da década de 80, até a pouco ela estava inédita em disco, surgiu em meio a caixa recém-lançada agora em 2010, leia excelente matéria do Pedro Alexandre Sanches aqui: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-interprete-do-nao-2. Talvez  (ah, a memória) a ouvi em alguma apresentação no CCSP ou Sesc Pompéia nessa época, não lembro ao certo. Itamar surgiu em meio a onda da chamada vanguarda paulista (Arrigo Barnabé, Rumo, Premeditando o Breque, Hermelino Neder) e era de longe o mais talentoso da cena, e não coincidentemente, o que reinava e era sucesso naquele momento era o RockBr, totalmente branco.

Tim Maia já era um “mainstream” nessa época, a despeito de todas as marés cheias e baixas que enfrentou na carreira. O vanguardista gravou o mainstream que antes havia sido gravado pelo ídolo popular, até onde esta distinção funciona? A menção de Itamar não tornou Tim mais popular, mas referendou uma irmandade talvez não reconhecida até pelos dois. A força,  a letra e o punch de Não Vou Ficar os uniu.

Tim foi embora, pouco depois Itamar, Roberto taí, ainda nobre e com um patrimônio de importância e influência que o permite se esconder atrás das roupas azuis e dos dramas pessoais. Itamar declarou um dia que adorava o Roberto da Jovem Guarda, Tim bateu na porta de Roberto no auge da Jovem Guarda, os três se encontraram em “Não Vou Ficar”.

Um canção que atravessou décadas e uniu pontas soltas.

Nota: o camarada Fred Maia do MINC me lembra que o show do Itamar (o do vídeo) rolou na Sala Guiomar Novaes/Funarte SP.

Para não ficar um troço chato e eu ficar bancando aqui uma de cosmopolita, já adianto que fiz poucas viagens para o exterior, na verdade duas. O que torna mais pitoresco o que vou contar. Em setembro de 1997  fui pra Londres, não lembro exato o dia, uma das primeiras coisas que fiz quando cheguei na cidade foi ver datas e horários de shows, consultei a Time Out. A primeira olhada foi decepcionante, acabara de acontecer uma apresentação do poeta e músico norte-americano Gil Scott-Heron, exatamente na noite anterior. Frustração. Corta e passa o tempo. Mês retrasado (setembro) estive em Paris ( a segunda viagem) estava rolando o La Villete Jazz Festival, no dia 08 de setembro aconteceu o show de Gil Scott Heron, cheguei no dia 10. Duas vezes é demais, este show foge de mim.

A redenção: dias 26 e 27 de novembro, Gil Scott-Heron estará se apresentando em São Paulo no Sesc Vila Mariana, 21 e 19, respectivamente. Vou a forra, e quem puder deve ir também.

Mas quem é Gil Scott Heron? Músico e poeta nascido em Chicago, Illinois em abril de 1949, criado com os avós no Tenensee, foi viver com a mãe em New York na adolescência. Desde cedo com pendor para a literatura,  lançou aos 19 anos o romance Abutre (que saiu aqui pelo Editora Conrad) e instigado pelo produtor Bob Thiele em 1970 gravou o disco Small  Talk at 125th and Lenox, onde misturava de forma peculiar sua poesia com temas forjados nas ruas à camas instrumentais jazzisticas, o time não era de brincadeira: o baixista Ron Carter, o baterista Bernard “Pretty” Purdie, Hubert Laws na flauta e saxofone e os percussionistas Knowles e Eddie Saunders Charlie. É desse disco a canção The Revolution Will Not Be Televised, que se transformaria na sua marca:

The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.

Heron é tido como precursor do rap, não só pelos temas que trazia das ruas do Bronx temperados pelo seu explícito ativismo e posições de esquerda, como pelo som de letras faladas acompanhado por percussão em relevo e breves melodias. O fato é que ele ajudou a desenhar o que seria o rap que não oblitera a crueza das ruas, nem deixa de tomar posição sobre as questões sociais. Gangstas e rappers esquerdistas são fãs confessos. Cada um interpreta do jeito que quer.

A carreira de Gil Scott Heron prossegue nos anos 70 e 80 através dos discos,  dos livros e de sua ativa particiapação nos movimentos populares. Em meados dos anos 90 ele enfrenta diversas dificuldades com o vício de heroína e prisões constantes o que torna sua produção irregular. Em 2007 volta a fazer apresentações e  em fevereiro deste ano (2010) registra o álbum I”m New Here (pela XL Recordings) bem recebido pela crítica. De fato a gravação é muito bacana, denso e nada saudosista.

A vinda de Gil Scott Heron ao Brasil já seria muito bem vinda normalmente, mas o momento é mais propício ainda. O cara é um ativista e um batalhador que não foge de dividida numa América barra pesada, que, através de sua música e poesia enfrentou o racismo e exclusão social durante sua trajetória de 40 anos.

Nesse pós eleição no Brasil, período onde ficaram evidentes os obscurantismos e pensamentos cavernosos que ainda dominam boa parte das pessoas, nada mais oportuno do que um show como esse, vale o contraponto, vale a dissenso. E finalmente eu vou conseguir ver o show , espero.

Nota pós-show: infelizmente de novo não poderei ver o show novamente, foi adiado, Heron teve um problema de saúde e não pôde vir ao Brasil.

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