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Arquivo mensal: março 2011

Elvis Costello escreveu esta música em 1982 na Era Tatcher, em plena fervura da Guerra das Malvinas. A letra é do produtor e guitarrista Clive Langer. Crítico, ele fala da construção de navios para a guerra, que trazem a prosperidade e emprego, mas que levam os filhos da terra para a morte. A Guerra das Malvinas passou, com outros nomes a lógica continua a mesma. Soa ingênua a canção. Há mal em ser ingênuo?  Meses depois o cantor e compositor Robert Wyatt registrou a composição ainda inédita no álbum Nothing Can Stop Us, Wyatt um músico de causas (ingênuo neste tempo?) e velho comunista. Elvis Costello, enfim, gravou-a em 1983, com a singela e já frágil participação de Chet Baker no solo. Uma bela canção.

“With all the will in the world
Diving for dear life
When we could be diving for pearls”


Quem cochicha o rabo espicha … Lobão e Caetano não cochicham, gritam, todo mundo espinafra, desdenha, corrobora, de fato, o barulho reverbera, será que é suficiente?

Um grande país se faz com idéias e ações e se desconstrói com clichês, tipo: “Caetano é um idiota” ou “Lobão só é um bufão”.  Na baliza da ideologização redutora, mentira repetida vira verdade.

Para cada polêmica que envolve os nomes referidos, surge um manancial de preconceitos recalcados e outro tanto de mistura deliberada de estações que quase nunca têm a ver com que esta sendo discutido.

Na rabeira do buxixo questões que poderiam avançar com a fala de quem é “ouvido”: direito autoral, política cultural, produção cultural, música brasileira e por aí vai…o essencial passa batido, fica a gritaria.

Lobão bate em Caetano e vice-versa, porque ambos tem visibilidade e voz, no meio dos dois e, principalmente, dos assuntos focados, habita uma multidão de meros ecos (que pouco refletem sobre o que estão refletindo), um tanto de oportunistas e outro tanto de bem-intencionados.

O resultado é: lobões e caetanos, não obstante, os ódios e paixões que inspiram, ainda dão o tom das discussões sobre a cultura brasileira. Se isso é ruim ou bom, não importa, mas é insuficiente. A culpa não é de Lobão, nem de Caetano, óbvio.

Caetano saiu em defesa da irmã, Bethânia, no Globo neste último domingo. Despachou a fala colocando a nu a contradição daqueles (inclusive ele próprio) que detratam e destratam a Lei Rouanet, mas quando se discute a mudança da própria, se escondem atrás dos interesses mais imediatos. Quem de fato quer mudar a Lei Rouanet, e se quer qual o rumo dessas mudanças?

Lobão outro dia em uma das suas entrevistas cachoeira  jogou no ventilador a contradição daqueles que hoje defendem uma mudança no direito autoral, mas que quando ele próprio (lobo solitário?) tentou mudar, colocando CDs para vender em banca de jornal a preços acessíveis, ficou sozinho com o pincel na mão.

Descontada a auto-vitimização de ambos, eles ao menos põem a cara a tapa, enquanto o conforto do silêncio abraça uma maioria que prefere operar nas sombras e garantir os seus interesses.

São dois exemplos de assuntos que não podem ficar à sorte de opiniões isoladas,  e o reducionismo não deve cair na conta de quem grita, mas de quem cala, ou fala por terceiros sem mostrar as digitais e ferraduras do próprio interesse.

Há calados que se lascam, e outros que se beneficiam.

A arte e a cultura do país precisam ser discutidas fora das sombras, e não depender de fígados açodados e amargos para saírem do lugar. Antes de serem intituladas de falsas polêmicas ou caírem no balaio dos oportunistas de plantão, que se avance para além dos perdigotos vertidos em letras dos cadernos culturais.

Basta olhar os comentários nos portais e nos blogs que reproduzem as citadas polêmicas: com as exceções já esperadas, a maioria do que se lê, não avança além do preconceito, das opiniões apressadas, ou da dicotomia Fla x Flu.

Espero que em breve, Lobão e Caetano possam descansar.

“A fotografia entrou no meu sangue e me atravessa pra lá e pra cá a vida toda …”

“Minha viagem é em relação às pessoas, o que as pessoas fazem e como elas vivem … “

“Toda minha vida foi dedicada a ver as pessoas, descobrir as pessoas … “

” … um assunto pra mim importante é quem é o brasileiro, como é o brasileiro … “

Caravana Farkas: “a gente correu o Brasil inteiro com uma C14, eu e mais três pessoas, percorriamos o Brasil registrando as pessoas, os costumes, os lugares … o diretor da “brincadeira” era eu … “

“É ver, descobrir paisagens, pessoas, caras, grupos, ruas, fachadas, praças – todos trabalhando, brincando, folgando, comendo, dançando. Tudo isso é a nossa vida.”

“Minhas abstrações têm sempre um personagem humano por trás – é a natureza humana que me atrai e é esta atração que orienta meu trabalho até hoje.”

Ontem, (24/03) o escritor norte-americano Lawrence Ferlinghetti completou 92 anos. Em 1953 ele fundaria livraria e editora independente City Lights, e desde então foi grande divulgador e também ativo proeminente poeta do movimento beat. Junto aos já falecidos Gregory Corso e Allen Ginsberg,  o italo-americano Ferlinghetti é um dos tentáculos da santa trindade da poesia beat.

Ferlinghetti em meio a infância-adolescência conturbada foi escoteiro, após foi tenente de marinha, teve empregos fixos caretas (coisas que se afastam do estereótipo que se constrói de um poeta beat), foi estudar literatura na Sorbone, e daí atinou em poesia e tambem se tornou editor (a City Lights criada em 1955,em São Francisco sobrevive até hoje) . Nesta editora foi grande propagador e participante da literatura beat, entre tantas coisas lançou livros de  Gary Snider, Allen Ginsberg, William Burroughs dentro da série City Lights Pocket , levou as fronteiras da escrita beat a  limites mais amplos.

Sua poesia tem grande vínculo com a música, sobretudo o jazz tão afeto aos poetas de sua cepa e também com  as artes plásticas.  Seu livro mais famoso é “Um parque de diversões da cabeça (A Coney Island of the Mind)”, cujo título foi retirado de uma frase um livro de Henry Miller e foi lançado aqui no Brasil pela Editora gaúcha, L&PM.


Parabéns aos 92 anos de  Lawrence Ferlinghetti!!


Em toda a minha vida jamais deitei com a beleza

……………………..confidenciando a mim mesmo

…………………………………..seus encantos exuberantes

Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida

…………………………………….e tampouco menti junto a ela

……………………..confidenciando a mim mesmo

………………………………como a beleza jamais morre

……………………..mas jaz afastada

………………………………entre os aborígenes

…………………………………………………………….da arte

…………………e paira muito acima dos campos de batalha

…………………………………………………………….do amor

……………………..Ela está acima disto tudo

…………………………………….oh sim

………Está sentada no mais seleto dos

……………………………………………………bancos do templo

lá onde os diretores de arte encontram-se

para escolher o que há de ficar eterno

…………………………E eles sim deitaram-se com a beleza

………………..suas vidas inteiras

………………………………..E deliciaram-se com a ambrosia

.……..e sorveram os vinhos do Paraíso

……………………………………..Portanto sabem com precisão

………como algo belo é uma jóia

……………………..rara rara

…………………………………..e como nunca nunca

………poderá desvanecer-se

………………………………..num investimento sem tostão

Oh não jamais deitei

……………………..em Regaços da Beleza como esses

………receoso de levantar-me à noite

……………………..com medo de perder de alguma forma

algum movimento que a beleza pudesse esboçar……………

………No entanto dormi com a beleza

…………………………da minha própria e bizarra maneira

e aprontei uma ou duas cenas muito loucas

……………………………….. com a beleza em minha cama

e daí transbordou um poema ou dois

………e daí transbordou um poema ou dois

………………… para esse mundo que parece o de Bosch

trad. Eduardo Bueno



Desde o início do século XIX a valsa de origem mezzo austríaca, mezzo francesa já deslizava sobre o Brasil. No salão embalando danças pomposas e nos embalos de canções dolentes, que segundo os críticos e historiadores, marcam a presença da triste Portugal no imaginário brasileiro em formação.

A valsa foi tomando forma de coisa brasileira, eruditos e populares a usaram dentro de varios formatos, e ela se firmou como coisa bela no imaginário popular. Lembro-me da minha vó, Maria Augusta, que sempre dizia que bonitas mesmo eram as valsas.

Até o aparecimento do samba-canção na década de 40 do século passado, as valsas prevaleciam dominantes em formas de baladas e algumas até um pouco mais brejeiras. Vários valsearam.

Villa-Lobos, Carlos Gomes, Pixinguinha, Radamés Gnatalli, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Custódio Mesquita, Tom Jobim, Edu Lobo, entre outros, colocaram pé e coração na valsa brasileira.

Falei de valsa, porque desde cedo uma melodia rondou o meu dia. E para registrar (para que serve um blog, não é mesmo?) postei a lembrança dessa valsa. A canção é uma “Valsa e Dois Amores” de Dilermando Reis, versão gravada em 1994 por Raphael Rabello.

Gostos e implicâncias. Este é o mote desse blog. E tem clara inspiração, valiosa inspiração. Afonso Henriques de Lima Barreto, escritor, intelectual, negro, morador dos subúrbios do Rio de Janeiro do fim do século XIX. Suas letras navegavam entre uma visão aguda de um Brasil em transformação e as observações por vezes bem-humorada, por outras tristes do que o envolvia e do que o incomodava. Implicâncias.

Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) ,Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Os bruzundangas (1923),  O cemitério dos vivos (memória – 1953), notáveis obras. Mas Lima Barreto foi uma identificação rápida na minha adolescência, inadaptação e feroz crítica, os descaminhos do homem que sabia javanês, a lucidez agônica de sua chegada nos cemitérios dos vivos, as analogias de uma país que sempre remonta às bruzudangas, as investidas contra uma sociedade que é vagarosa nas mudanças. Após mais de um século, Lima ainda nos fala aos ouvidos, como se tivesse vivo, nos subúrbios por perto.

Desde 2009 tocamos um projeto na Secretaria de Cultura de São Bernardo do Campo, chamado MundoLivro. A idéia é simples: convidar pessoas para falar sobre a sua experiência com a leitura, e nessa carona o convidado pode escolher um escritor em especial. Já passaram por aqui: Lourenço Mutarelli que escolheu William Burroughs, Carlos Felipe Moises falou de Mario de Andrade, Sergio Vaz de Pablo Neruda, Marcia Tiburi de Osman Lins, Aziz Ab’Saber sobre Graciliano Ramos, Paulo Lins falou de literatura e samba, Fernando Gonzales de Machado de Assis e HQ … entre outros. No meio desse caminho muito papo informal aconteceu, a conversa com a participação do público derivou para outros assuntos, cruzados ou não com literatura e vida.

Satisfação maior, sábado próximo, 26 de Março, a convidada é Lilia Moritz Schwarcz, e enfim, Lima Barreto. Quem sabe ela falará do romancista, do cronista, do jornalista, do homem que observou uma país em transformação, um país que queimava documentos para “apagar’ a escravidão, do Encilhamento, que se mutilava para parecer a França … fizemos questão de deixar em aberto. História e Literatura.

A maioria de nossos grandes escritores é homenageado em nomes de bibliotecas públicas, centros culturais, etc, porém, são raros os espaços que homenageiam Lima Barreto. Posso exagerar, mas não lembro, por ora, de nenhum. Quem sabe um dia eu possa criar uma Biblioteca Lima Barreto ou uma Sala de Leitura Bruzundangas? Vou tentar, mas sempre Lima estará perto, marcando presenças, nos gostos e nas implicâncias.

Onde: Biblioteca Monteiro Lobato

Rua Jurubatuba 1415 – Centro – São Bernardo do Campo

Tel: 4332-9698

Quando: Sábado (26?03/2011) – 15 hs


Fico a imaginar se a cantora inglesa Dusty Springfield tivesse gravado alguma canção do compositor/cantor francês Serge Gainsbourg. Valeria atravessar o Canal da Mancha a nado. Mas qual seria esta canção? Uma composição de Serge ou uma versão em duo de algum clássico perpetuado na voz de Dusty? Seria um dueto da doce All I SeeYou, sucesso na voz de Dusty em 1966, com Gainsbourg burilando o arranjo de cordas e colocando ácido no mel? Ou Dusty dando legitimidade aos sussurros de La Décadanse ou Lemon Incest? O francês debochado de Gainsbourg debulhando Spooky com Dusty no contracanto? E a mais deja vu de todas, Je t ‘aime moi non plus, que Serge duetou duas vezes, a primeira versão com Briggite Bardott e a segunda com uma de suas esposas e musas, Jane Birkin? A minha eleita seria La Javanaise na voz da loirinha. Sendo o que fosse, só ficará no imaginário de quem ama a música. Serge Gainsbourg morreu de vida intensa, no dia 02 de março de 1991. Dusty faleceu sete anos depois, no mesmo 02 de março, só que de 1999. Hoje, aniversário do desacontecimento. O encontro nunca houve, fica no suposto e a cargo do desejo, montar esse duo que nos deixou no mesmo dia.

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