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Arquivo mensal: maio 2011

Não perguntei o nome deles, nem sei de onde são. O senhor do violão base já tinha visto  tocando no parque há alguns anos. Troquei algumas palavras com o saxofonista após a música. E havia outros músicos em outros bancos, duas duplas sertanejas, uma mais lírica e outra (que de dupla, em certo momento virou quarteto) tocava uns rasqueados. São músicos que ficam  no Parque da Luz aos domingos, misturados aos vários tipos humanos que circulam por ali.

Moças novas e veteranas procurando um programa, homens e mulheres solitários, solitárias, em grupo, no footing. O parque com seu paisagismo à francesa, tem mais de duzentos anos, o jardim público da luz, as vidas entrecruzadas, muitos vindos do subúrbio ou do entorno. Nordestinos, coreanos, bolivianos, africanos, um ou outro raro judeu renitente do Bom Retiro ao lado. Olhares absortos, reclusos em si, outros dormindo na coberta do sol.

Vários tipos, vários rostos. Gente, muita gente. Roupas pouco vistas no dia a dia, ir e vir de gente, muitos buscando um papo, um sexo, qualquer coisa que quebre a rotina no sol de domingo. Não precisam de piedade, precisam do parque. Rapaziada que frequenta a Pinacoteca no meio de tudo, olhar “antropológico”, o meu também,  já olhei muito aquele lugar.

Música, sempre junta gente, música sempre desperta saudade de amor, de alguma dor, de alguém, de lugar, de situação. Luz da tarde, sol, música no fundo. Foi só um pedacinho da Casinha de Varanda, do compositor paulista Gilson, sumido. Letra bucólica, que destoa do que envolta o parque, mas o parque emula nas pessoas, no meio das arvores, uma sensação de paz. Eu nem gostava dela até hoje à tarde. Música perfeita. A cidade engana os seus.  Em alguns cantos se vira, autônoma, preservando seus respiros de vida.

Homenagem a todos os veteranos e jovens músicos de rua, dos parques, sejam de onde for, que nos emprestam sua lírica.

“Os derradeiros cochichos dos políticos aos ouvidos de Petrônio Portella, presidente da Arena, que deixava o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, eram abafados pela gritaria de jovens cabeludos por “Alice”. Um senador sessentão de monóculo, terno e gravata, chegou mesmo a reclamar do “desrespeito daqueles moleques” . Eram dois poderes desiguais que se encontravam: a política circunspecta e gravemente envolta nos problemas da sucessão paulista, e o Rei do Circo do Rock, o produto perfeito da sociedade de consumo regurgitado por uma eficiente máquina publicitária. E quando, Alice Cooper, o Frankstein da música americana, desceu às pressas para tomar um carro que o esperava, sua figura magérrima trajando calças Levi’s e camisa roxa, os cabelos negros tocando o ombro, sua platéia o recebeu com o hurras dos crentes diante da Epifania, a Revelação Transcendente do Senhor.

Estas são as palavras que iniciam o texto “Alice On The Rocks” do jornalista Leo Gilson Ribeiro (falecido em 2007) na edição do dia 10/04/1974 da revista “Veja” que o escalou para cobrir a vinda de Alice Cooper a São Paulo. Naqueles dias acontecera o dito primeiro “grande show de uma estrela do rock internacional no Brasil. O texto de Gilson, apresentava declarações de Alice, entrecortadas por um tom irônico.

O Brasil recebia o show business. Dias 30, 31 de março e 01 de abril (Palácio das Convenções – SP) e dia 06 de abril (Maracanãzinho – RJ) de 1974, deram a largada nesta história.

Por muitos anos muito se falou sobre estas duas apresentações de Alice Cooper em Sampa. Os comentários variavam entre estapafúrdios à descrições detalhadas, como o da jibóia emprestada pelo Instituto Butantã, da excentricidade da mulher de Alice à época, da maquiagem e a banda pesada do Mr Nice Guy,  do cadilac que ele queria, mas não pode trazer e de sua autopropalada androgínia. Várias lendas a respeito e uma quase incredulidade, até mesmo pela real existência da vinda, atravessaram metade da década de 70 e o início dos anos 80.

Eram minguados os shows internacionais, tudo era mistério e muita empulhação nas histórias em torno das figuras do rock establishment internacional. E eram sim, puro establishment, coisa que o punk viria “demolir” e redefinir poucos anos depois, para depois em movimento circular, virar a mesma coisa. Business.

A mística que envolve um rock star não mudou muito nos atuais dias. As declarações mais imbecis se transformam em ponto de pauta e as falas ganham um peso que de fundo não tem nada. Prevalecem o exotismo e a transgressão com código de barras. A diferença dos quase quarenta anos atras, era a total escassez de shows e de contato direto com estes caras que produziam música e comportamento, como disse Ribeiro, fomentados por uma poderosa máquina.

O Brasil estava longe dos centros e fora dos circuitos internacionais de shows. Alguns anos e shows esparsos, Rick Wakeman em 1976, Police em 1982, Kiss e Van Hallen em 1983, finalmente, o Rock in Rio em 1985 que se não colocou de vez, tornou o país visível no circuito de shows.

Neste momento, 2011, os shows despencam aos montes, enchendo os finais de semana de quem têm disposição para multidões e decibéis.

U2, Motorhead, Iron Maiden, Amy Winehouse, LCD SoundSystem, Seal, Paul McCartney (pela segunda vez em pouco mais de um ano), Ozzy Osbourne, Metallica, Black Label Society, Gang of Four … Rock in Rio 2011 com vários convidados … já aconteceram ou vão acontecer ainda em 2011. Deixei de citar muitos. O Brasil embarcou de vez no negócio pesado da música.

Neste final de maio de 2011, Alice Cooper retorna ao Brasil e traz o More Mr Nice Guy – The Original Evil Return , longe dos enérgicos 27 anos que o trouxeram em 1974, é a terceira vez que se apresenta no Brasil, a segunda foi no Monsters of Rock em 1995. O veterano rocker ainda pinta o rosto e teatraliza , as platéias são outras, milhões de dolares e quilômetros de estrada já passaram. O rock se perpetua, se reinventa ou se repete em farsa?

De maneira divertida e ambígua o Plastic Bertrand (codinome do cantor, compositor e apresentador de tv belga, Roger Marie François Jouret), lançou “Ça Plane Por Moui no olho do furação punk 77. Dezenas de versões e releituras em francês e inglês (Jet Boy, Jet Girl), transformaram esta canção em um dos hinos da geração punk e seus congêneres. A ambiguidade da letra, uma ode à androgínia e às enrascadas sexuais/sentimentais, suas imagens surreais, flexíveis, permitiram a singularidade de cada versão.

Aqui em cinco tempos.

Rafael Vaz foi para as cabeças.  Ele veio da Vila Joaniza, zona sul paulistana, tomou uma atitude que já é tradição na Europa há muito tempo, fez de uma casa abandonada na Rua Agisse, 280 na Vila Madalena, seu ateliê e galeria de arte e seu lar. Luxuosa transgressão. O mais bacana da proposta é que objetiva dar espaço para  artistas que transitam entre o contemporâneo e a “street art”. É uma empreitada coletivista. Rafael cruzou a cidade para conquistar a “liberdade”, sem pedir licença.

Fui conferir na tarde de domingo (15/05/2010) a Fat Cap Galeria de Rafael Vaz. De primeira deu para sacar a precariedade que vive o rapaz, segundo ele, o dono da casa não tem grana para investir na reforma e não quer ou não pode vendê-la, sabendo da historia a invasão foi um passo para concretizar, dar forma a sua idéia. Ele tem plena consciência que corre riscos.  O dono disse qua vai correr atrás dos direitos, enquanto isso …

Perguntei a Rafael, o que significa Fat Cap:

– São os pinos das latas de spray, aqueles maiores, usados para os traços mais cheios e grandes e para preenchimentos no grafitti – a resposta rápida, quase anteviu a pergunta.

O nome vem da arte das ruas, mas o artista tem gosto eclético (sem tom pejorativo), boas referências e uma coisa rara no mundo narcísico das “artes”, espírito coletivo. Latas de tinta, esboços, colchão velho, mochilas,fogão, recortes de jornais, obras de artistas de vários cantos do país e do mundo, tem trabalho da Austrália, do Chile, originais, reproduções, tudo isso compõe o visual da casa. Ainda que sobreviva na improvisação, Rafael mostra ânimo e vontade de tocar a idéia, são dezessete anos de idas e vindas na arte. Fat Cap já é realidade.

Aos poucos Rafael se entusiasma na fala e na descrição de suas idéias. A atitude quixotesca de invadir uma casa numa cidade onde nem os espaços públicos são garantia de uso coletivo e alguns até rejeitam construção de metrô perto de casa para não se misturar, já é em si, coisa de artista ousado. Uma atitude, acima de tudo, totalmente politizada.

Nesta tarde estavam na casa junto com Rafael, dois artistas que se dedicam a arte underground, Cav3ra, que veio de Pirituba e diz que sua arte é arte das ruas, que gosta de colocar os seus desenhos em paredes de fábricas e casarões abandonados, o outro é o Tiago Brutais, que mora em São Bernardo do Campo (conterrâneo) e transita na mesma esfera, paredes de lugares esquecidos, sem medo da volatilidade e do provável desaparecimento dos suportes. Os trabalhos somem, eles vão atrás de outros espaços, é uma arte que anda pela cidade, sem “abrigos seguros”.

Tiago e Cav3ira, é com três no meio do nome que ele é conhecido, finalizavam seus trabalhos na parede de um dos cômodos da casa.  Na  sexta dia 20 de maio, inaugura a próxima exposição da singular galeria “Submundo Urbano” e os dois são os artistas convidados.

No fim do papo, Rafael sorria, Cav3ira organizava as tintas, e o Tiago, mesmo Brutais, cantarolava uma música do Cartola. Parceiros. A arte reside por ali, sem bolsa, sem fundação pra bancar, vamos torcer para ser por muito tempo. Quem puder confira no local.

Expo SubMundo Urbano

Fat Cap Galeria

Dias 20 e 21 de maio

Rua Agisse, 280

Vila Madalena a partir das 17 hr


São Paulo é culpado das mazelas do Brasil? São Paulo é ninho dos tucanos, terra do Maluf. Paulista é Mané, fala engraçado “Tipo” Ôrra, meu”. São Paulo fez revolução 1932, não levou, mas ainda pretende. São Paulo corta caminho para o progresso e entope as ruas de carros. São Paulo não reflete o que é, vai a shopping, paulista é jeca, se veste mal, suas meninas deselegantes, prédios arrogantes, futebol paulista é durão.

São Paulo é a República de Higienópolis e de mais três ou quatro bairros cheirosos. São Paulo tem mau hálito e fala alto, é uma mistura de bandeirantismo casca grossa com carcamano e nordestino sem rumo. São Paulo constrói para destruir em seguida. Anhangabaú, Anhanguera.

São Paulo é tumulo dos bambas, diluiu o samba, o samba aqui é rock e só mal toca rock quadradão. São Paulo tem grana, mas não tem finesse, José Paulino, Oscar Freire, 25 .Sâo Paulo paga a conta e o resto do país ou é excluído ou curte em cima disso. São Paulo tem Lei Rouanet para meia dúzia de institutos e fundações. São Paulo que amanhece trabalhando e não paga hora extra nem a meia noite.

São Paulo tem poesia concreta para os chatoboys e tem praia norte-sul, tem represa, tem enchente, e a marginal não é poesia, mas um mote pras enchentes. São Paulo cobra a taxa antes de entregar o produto e não tem estacionamento incluso. São Paulo tem parque industrial perto, tem A,B,C,D… mas vive na idade da pedra em certos cantos.

São Paulo tem garoa e não tem praça e nem banco para morgar nos dias de sol. São Paulo corta a árvore sem avisar ou ela cai na cabeça de desavisados. São Paulo tem metrô curtinho e quebradas distantes. São Paulo tem trabalho para todos, o difícil é andar e chegar. São Paulo mora na filosofia, comoção de nossas vidas, mas é o ceticismo que prevalece.

São Paulo reclama, mas elege quem fomenta a reclamação. São Paulo não tem cintura, falta a bossa, no entanto a bossa ali nasceu, nos dedos de Garoto. São Paulo tem Presidente mas nem gosta dele. São Paulo não sacode poeira nenhuma, nem perde a pose, nunca admite o tombo.

São Paulo sobe a serra um dia antes. São Paulo fala e come em várias línguas, para muitos é monoglota e a escola não reprova. São Paulo vai e vem como Oswald e paga o preço Sem Parar. São Paulo tem nota fiscal paulista que atrasa fila. São Paulo fuma “escondido na calçada. São Paulo é digno de pena, irmã de todos os males, mas vamos a Congonhas e Guaru fechar negócios.

São Paulo detona os pulmões, expõe os flancos e vai correr no Villa. São Paulo teve 22, Mário, e todos os tais, mas não tem a Cultura, perde em cadinho. São Paulo expulsou tantos para longe e foi crescendo ao expulsar. São Paulo corre, corre, e a maior maratona sai no final do ano com nome de outro santo. São Paulo não apela, cala, mas acumula culpas e se vinga ressentido.

São Paulo tem centro velho, tem crack, tem gente caindo pelo bueiro. São Paulo nega metáforas é direto, objetivo, mas carrega melancolia em noites solitárias. São Paulo tem extensos rios, mas a seca é fato, nem para lavar a fuligem. São Paulo tem orgulho de ser o que já era. São Paulo é bonita e fez Tom Zé cantar por ela. São Paulo é cidade dentro do Estado que às vezes nega a cidade que sempre nega o Estado.

São Paulo é metro quadrado caro para inviabilizar. São Paulo mede as distâncias pelas horas de atraso. São Paulo é onde vivemos em eterna confluência entre o sonho de partir e o desejo de voltar. São Paulo é trombadinha, trombadão, caixa eletrônico sumindo na noite, é Meneghetti pulando telhados. São Paulo é frango assado nas televisões e nas paredes. São Paulo é cinema fechando e Noites Vazias.

São Paulo é tão redundante, que cabem clichês como estes todos, sem agredir, sem reagir,sem dizer mais. São Paulo é tudo que dizem mal ou bem dele/dela, mas sempre vai receber todos na rodoviária, no aeroporto, com sorriso de boas vindas ou escárnio. São Paulo é S/A e, dizem, limitado.

“- Passava um rio aqui e um dia você quase caiu lá dentro…”

As palavras da mãe traziam medo e excitação.

– Mas então, onde esta este rio agora?

Não via rio nenhum ali. A avenida era uma das mais modernas da cidade. 1970. Não passavam muitos carros, à noite podíamos andar tranquilamente, ir e vir, sem medo, sem perigo. E nada de saber do rio. O rio existia apenas na idéia da sua retirada. Era incômoda a sensação do rio não existir mais, perdi os mergulhos, perdi as pescarias, perdi o fluxo.

Em dia de chuva forte, vinha o rio à tona, sem avisar, invadia a rua pelos bueiros. O rio era pra mim uma água lamacenta que cobria as ruas por alguns minutos, logo após, desaparecia, intrigando e jogando suspeitas sobre sua real existência. De alguma maneira dava o ar da graça. E a idéia do rio descia fundo, era um dos segredos da infância. As sobras do rio ficavam por todo lado em camadas de barro vermelho. Matutava horas para entender como um rio sumia e pra onde ele tinha ido. O rio era a chuva, a estiagem levava o rio embora.

Aos poucos fui percebendo que a cidade escondia seus rios, seus pequenos córregos, seus bracinhos d”água, o seco asfalto foi sufocando tudo. Andávamos sobre a água oculta e do rio não restara quase nada. O rio era o lugar em que eu quase caíra. A idéia. Assistia aos filmes e os rios grandiosos davam inveja, não lembro os títulos dos filmes, mas a imagem de caudalosos e extensos rios impressionava. A cidade me apartou dos rios.

Ninguém nunca conseguiu me explicar por que haviam escondido o rio. Pela própria natureza da pergunta e provavelmente por não terem resposta. Pai. mãe, irmãos, tios e amigos mudavam de assunto quando inquiridos. Rio sem respostas, rio sem imagem, rio que vinha e ia embora com as enchentes. Rio sem margem. Não posso dizer que tenho saudade do rio, mas mesmo um rio escondido tem um fluxo que nínguem interrompe. A idéia e a indagação persistem.

A imagem do pai ouvindo o rádio marcou a infância. Domingo, o acordar cedo era marcado por uma mistura de sons. Os pedidos recorrentes da mãe para compra das coisas para o almoço e o rádio sempre soando pela casa.

Músicas perdidas, locutores do futebol. O almoço de sabores conhecidos, mas agradáveis, a tarde caindo em visitas, às vezes chatas, às vezes surpreendentes. Os narradores de futebol eram os companheiros mais resolutos dessas tardes, algozes na derrotas, e entoadores de cantos élficos  nas vitórias.

E o pai ouvindo rádio sem prestar a atenção no que ouvia.

– Quanto tá o jogo, pai? – perguntava esbaforido ao chegar da rua.

– Olha, não sei direito, acho que 0 x 0 …

Os sons iam se confundindo e a vida era boa. Os programas de rádio após o término da transmissão esportiva eram ruídos. Humor. As notícias do domingo, “músicas inesquecíveis”, locutores de vozes discretas comparados com os exagerados narradores de gols e jogadas.

O futebol amortecia o mundo.

Na segunda era acordar e bolar estratégias para atacar ou se defender dos torcedores derrotados e vencedores. Os truques eram vários: tripudiar, ironizar, contar vantagem, ignorar e até às vezes fingir não gostar mais de futebol. Não muda muito com o tempo, mas para qualquer menino é exercício de aprendizado e de novidade.

A imagem do pai ouvindo o jogo sonolento, parecia um mantra que o entorpecia, que suavizava os problemas. Hoje consigo entender quando coloco uma música quieta, em tom menor para dar torpor à mente, acho que é o mesmo. O som do rádio era sua fuga perfeita. Ele dizia não saber o que acontecia, mas sabia nome de locutor, de comentarista, de repórter de campo.

O que diziam os comentaristas do jogo era debatido. A longa fala do futebol. O nível geral não ultrapassava o senso comum, nós começávamos repetindo os adultos e os termos. Passava o tempo e dominávamos os termos, criando clichês novos e mais lugares comuns. Ladainha permanente …

– Futebol é coisa de gente sem futuro – dizia a mãe em uma das suas mil máximas – mas tinha palavra de conforto quando o time perdia, coração de mãe antitorcedora, no entanto conivente com a dorzinha do filho. Não tinha sossego enquanto eu não largava o rádio, e ficava feliz quando eu pegava o caderno e na real o único cálculo que eu tava fazendo era a pontuação do meu time e se tinha chance de se classificar.

Terça-feira, se não me engano, saia a Revista Placar, na banca ficava mirando a capa todas as vezes que passava. Decorava os times que saiam na capa da revista, os jogadores, a manchete das reportagens raramente tinha grana para comprar.

Feliz, o dia que meu irmão chegava com a semanal embaixo do braço, deitava no sofá para ler, posudo, quase me dizendo que não era pra mim. Não raro, a escondia no seu quarto só para me sacanear. Horas depois eu podia lê-la, e ela parecia não ter fim.

Encantava-me o Tabelão, que trazia toda a ficha técnica dos jogos da semana, escalação dos times, nome do juiz e bandeirinhas, renda, público, artilheiros, cartões vermelhos e amarelos. Minha “erudição” no futebol vinha daí, de que outra forma eu ia saber que o goleiro do Flamengo do Piauí se chamava Hindenburgo?

A imagem do pai sonhando ao lado do rádio, era o dia de família toda em casa, de ouvir os sons dos vizinhos na situação excepcional do domingo, e por mais triste que fosse ou estivesse a casa, havia barulhos diferentes no domingo. O futebol era a falta de outras falas?

Poderia ter perguntado coisas da vida ao pai, à mãe, se não estivesse envolvido com aquele mantra que entorpecia as tais tardes? Não existe como voltar, como  tirar as chuteiras, como anular gols, expulsar o craque do outro time, desviar a trave conforme a conveniência de um gol sofrido, de um tento a favor.

A imagem do pai que jamais desligava o rádio, mas nem sempre ouvia (fingia?) o que vinha dele…

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