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Arquivo mensal: setembro 2011

No auge do rock megalômano sobravam poucos espaços para bandas básicas.  Na primeira metade da década de 70 era um ato heróico ser básico. Algumas bandas o foram  e ocupavam espaços bem diferentes de estádios e arenas lotadas. Serviram de alicerce para o que nasceria com o nome de punk. Há algumas teorias sobre o nascer do punk, cada uma com sua defesa apaixonada. Mas as chamadas pub bands soaram notas sofridas em lugares apertados, esporrentos e fumacentos onde prestavam  tributos aos pais: rock’n roll, blues e o rhythm and blues. O punk com certeza bebeu nesta cena.

Um modelo perfeito dessas “pub bands”  vem de  Canvey no Condado de Essex, Inglaterra. Com Lee Brilleaux (voz), Big Figure (bateria), John Sparks (baixo) e Wilko Johnson (guitarras): Dr Feelgood. A banda começou em 1971, em disco, estreou em 1974 quando lançou “Down by the Jetty” (1974) e já possuía grande público na Ilha.

Não vou fazer exercício de retomar a cena histórica inglesa dos anos 70. Para isso há um veículo melhor, o filme de Julian Temple “Oil City Confindential de 2009.  O protagonista principal do filme e o próprio Dr Feelgood, que carrega em sua discografia e trajetória a explicação perfeita para esta elucidação. Logo depois viria a hecatombe punk. À distância, há quem tripudie sobre a importância dessa virada de rumo, há também quem exagere a importância. Mas o impulso de ouvir o quarteto congela essas polêmicas de almanaque. Havia algo ali, não necessariamente “novo”, mas que frutificou.

O discurso de “ser básico” no rock and roll, em vários momentos da história, foi usado para encobrir intenções nem sempre honestas. Ser “cool” pode ser, também, tocar simples, mas não desprezar a música ou torná-la volátil. Há muita retórica e truque marketeiro no “do it yourself” do punk. Muitas bandas tocavam bem, dominavam seus instrumentos e baixaram o desempenho para se adaptar à cena, outras permaneceram na trilha dos poucos acordes e foram engolidos pela indústria.  Não era o caso dos “Feelgood. Eles seguiam uma tradição fina de tocar rock negro de um jeito branco, primazia das bandas britânicas, e colocavam a molecada pra pular.

Os fãs mais puristas dizem que o Dr Feelgood durou até a saída de Wilko Johnson em 1977, coincidentemente (!?!), o ano de auge do punk rock. Parece que os rapazes tinham cumprido sua função reprodutora. O cantor Lee Brilleaux  continuou com a banda até falecer em 1994, e ela existe até hoje, porém, sem nenhum dos componentes fundadores.

Wilko Johnson seguiu a carreira  tocando com seu trio em várias formações. Johnson renega o título, mas é sem duvida um herói e lenda da guitarra. Guitarra seca, econômica, sem uso de palheta, solos curtíssimos e performance peculiar. Ele afirmou certa vez que sua maior influência foi outra lenda da guitarra britânica, Mick Green, componente do “Johnny Kids and Pirates”. Dessa mesma escola podemos citar ainda Mo Witham e Mickey Jupp (que merecem posts).

Tive oportunidade de assistir o Wilko Johnson Trio em 1997, num pub de blueseiros em Londres. Emocionante e direto. Ele e sua companheira inseparável e monogâmica: a Telecaster. Wilko Johnson detesta o termo “pub bands” e relativiza a importância da cena punk. Não importa, querendo ou não, ele foi um dos responsáveis por esta presepada toda.

Dois momentos históricos: em 1975 um show do Dr Feelgood em seu auge e melhor formação e na última terça feira (27/09/2011), Wilko fez apresentação no programa do Jools Holland na BBC. Resgate merecido.

“Assim é que vive, como um animal
nas ruas escuras, matando a pau
a noite é deles, do ébrio vagal
da mulher do muro, do homossexual
subúrbio geral, subúrbio geral”

Subúrbio Geral – Cólera

Moleque ainda descobri o punk rock. As informações difusas na virada dos anos 70 para os 80, chegavam no Brasil muito misturadas. Imaginem na suburbana São Bernardo do Campo. Intuia o punk rock com discos emprestados, fitas cassete e poucos programas de rádio, como o do Kid Vinil na extinta Rádio Excelsior. As ruas ensinavam o que era o punk. As histórias colhidas nas lojas, nos pontos de encontros da rockeirada (misturados punks e rockers), amadorismo, improviso e descobertas, várias. Discos minguados que rodavam em várias mãos e vitrolas, voltavam riscados ao dono, quando voltavam, junto com as desculpas esfarrapadas.

Um das lendas, para alguns nem tanto lenda , eram a  tretas ABC x City (Sampa). As conversas sobre brigas nos trens e nas estações de metrô (especialmente a São Bento), Madame Satã (isso mais tarde) e outros cantos alternativos da cidade. Quem não tava ao vivo ouvia os fatos e  exageros, curtia e duvidava, quem tava ficava com ônus dos perigos e com o bônus da história. As brigas eram reais e nem sempre românticas. Os entreveros recheiam imaginário de muitos saudosos até o presente. Usos e efeitos colaterais da industria cultural.

Neste começo de madrugada (28/09/2011) chega a notícia da morte de um dos ativos artíficies da historia do punk rock no Brasil, Edson Lopes Pozzi, o Redson, vocalista e fundador do Cólera, saído do Capão Redondo, fundos da zona sul. Ele era um “punk da City”, longe do ABC. Claro, subúrbio é subúrbio, geral, ABC ou City, hoje enxergamos isso com mais clareza, na época era barreira. Então, o Cólera (Redson, Pierre e Val) nos chegou em disco – os shows já eram falados –  com o Grito Suburbano em 1982.  Muitos caras do ABC curtiam o Cólera (alguns marrentos, escondidos). O bairrismo sucumbia à música.

Depois de 1982, foram anos de estrada, 10 discos, e neste momento (2011), eles rodavam outras estradas com o show “30 Anos Sem Parar!”. O punk rock eclodiu na metade da década de 70 para negar os heróis , os Stranglers (banda inglesa de Guilford) cantava “No more heroes, anymore” , mas os heróis não são solapados da história com canções e intenções. Este mesmo punk, por mais que uma histeria negue, faz parte da história da música brasileira. Redson é parte expressiva desse capítulo. Herói ou não, ele meteu a voz e a guitarra no cancioneiro popular, mesmo que não tenha sido convidado, e deixa lacuna…foi ele mesmo quem fez!

Dedico este post ao velho camarada Betão, grande fã do Cólera.

(Meu bem,) Bem que você podia
Pintar na sala
Da minha tarde vazia
Como na poesia

 Ausência – Itamar Assunção


Sempre que posso, falo de Itamar Assunção e não vou cansar. É como se faltassem reverências à sua grandeza. Palavras se repetem e não traduzem, sabemos. Ainda mais para ele que pinçava palavras e unia aos sons, geniais. Itamar do Paraná e da Penha, e me perdoem o trocadilho, nego dito. Na vida: “ópios, édens e analgésicos”. Itamar não deixou regra três.  Nesse dia, 13, Itamar chegou e daí foi intenso. A maior reverência, silêncio, para tocar a homenagem.

“Quantas são
As dores e alegrias de uma vida
Jogadas na explosão de tantas vidas
Vezes tudo que não cabe no querer

Marcelo Jeneci veio de Guaianazes. O pai Manoel, migrante nordestino, cantou e cantou Roberto Carlos até conquistar a mãe. Veio daí o Jeneci, e honrou de onde veio. O filho Marcelo pegou tudo que pôde da música popular. A popular música brasileira que um dia se complicou e virou MPB. Separaram bolero de bossa, separaram o samba de sofisticação do samba de baixo calão. Que música popular?

Mas caras como Jeneci não ligam. Caras como ele tocam ao lado de outros e não ficam na inveja, acompanham e aprendem. Não têm tempo para alimentar preconceitos. Dialogam com os contrários e não acham problema em gostar de algo. E sem pudor misturam tudo.

Jeneci se moldou tocando acordeon, piano e coisas no fundo do palco. Quando se sentiu pronto, voou sozinho. Soube enxergar o legado que recebeu e recombinou. E a música popular nestes casos não se complica, se confunde entre o urbano e o que vem de longe dele e deixa pegadas. Marcelo achou o caminho.

Caras como Jeneci assumem o brilho pop do Roberto Carlos que quase nunca errou, o estrategista. Mas também recebem cores (e ele assume nominalmente) do errante Tremendão, o Erasmo, que experimentou mais que o parceiro e completou a frase. E ouve-se com ele Guilherme Arantes (melodista), e ouve-se com ele aqueles cantores de melodias fáceis e nomes esquecidos das rádios Am e vários outros.

Jeneci veio daí. Não reclama pureza.

Marcelo Jeneci esta muito a vontade com tudo que tem. Nos shows, ergue os braços desajeitado, pede para ligar as luzes do celular e que o publico os agite para coreografia da baladinha romântica. Fala de beijos, de amores, de desejos simples e esta muito a vontade. Jeneci se cerca de músicos bons para tocar música simples e acontece. Marcelo gosta do que faz e não precisa construir uma imagem, naturalmente constrói, toca pra quem quiser ouvir.

Na sexta ele tocou no Sesc Bom Retiro, que fica entre Santa Cecília e Campos Elíseos, não no Bom Retiro. No início da apresentação ele riu e disse: “tô aqui, ao vivo na Cracôlandia”. Minutos antes ao chegar para vê-lo, tava atrasado e olhei de canto d’olho ao cruzar a Guaianazes ao lado, dezenas de nóias cruzando a rua para lá e para cá, zumbis. Cracôlandia.

Os caras da Cracolândia nem sabem quem é o tal Jeneci e estavam ali perto, quem sabe, quase o ouvindo. Quinhentos metros podem ser léguas. Os espaços culturais não “contaminam naturalmente” o entorno. Os rapazes e moças do crack como o Marcelo, talvez com mais propiedade, sabem que a ” gente é feito para acabar”. Jeneci toca pra todos, mas nem todos podem ouvir o Jeneci.

Se a vida fosse simples como fazer música com sinceridade, talvez, talvez…

“Oh, the days dwindle down to a precious few September, November

And these few precious days I’ll spend with you

These precious days I’ll spend with you”

Kurt Weill/Maxwell Anderson

Letras, letras, as canções nem sempre dizem o que queremos. Esperamos o encaixe perfeito. A canção que caiba no momento, que aponte o caminho, a luz. As canções não são nossa trilha sonora, elas estão incidentais no meio da vida toda. O cancioneiro não recebe nosso roteiro e vai encaixando, a vida vai enganando a trilha, e a trilha se coloca sem nada saber. Falar em setembro, de uma canção que coloca setembro como a espera, marcar setembro com a marca da chegada. A espera. Quando o palco esta pronto a canção chega e se acomoda. A nossa setembro pode nunca chegar. Mas a canção existe e ela fala em dias preciosos. Não temos palcos prontos, mas canções estão à mão e, também, as surpresas.

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