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Arquivo mensal: agosto 2012

Para João Antonio, sempre mestre.

E por aqui se viam dois garotos desses que se confundem com as calçadas. Pois, vivem nelas, misturados, muitas vezes dormindo, sentados na beira de uma loja fechada, andando ao lado de todos os outros sem se misturarem. Deles, alguns têm medo, outros ignoram. São peças vivas em simbiose com as ruas. São os meninos que se confundem com as calçadas.

Lembro desses dois. Quase gêmeos. Não pela aparência, ainda que para algumas pessoas eles são todos iguais, mas por andarem sempre juntos. Marcando território e presença. Viviam o centro. E centro de cidade, de qualquer cidade, é assim, triturador de identidades. São os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Sendo idênticos, a roupa os diferenciava. Um deles usava sempre uma touca, o outro uma camisa do Vasco. Sim, do Vasco. Apesar de estarmos em São Bernardo do Campo, ele reinava pelas ruas com a camisa cruz maltina. O da touca, sorridente, o vascaíno, ranzinza e algumas vezes violento. Sem os nomes, só as vestimentas marcadas. São os meninos que se confundem com as calçadas.

Passou bastante tempo. Uma das constantes é que o da touca sempre estava com sua caixa de engraxate. Um romântico, sem ironia, um romântico. A touca que variava de cor e a caixa de engraxate. Marcas. O outro colado à camisa do time carioca, e ela tinha uma peculiaridade, carregava o patrocínio do sabão em pó “ACE”. Não me recordo o número da camisa, mas estava sempre nele. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

O da touca, que por um tempo foi vermelha, arrumou uma ocupação num projeto social. Participava das oficinas de sociabilidade, usava a camiseta, se envolveu, se aprumou um pouquinho. O vascaíno (nunca soube se era de fato) foi entrando na vida do crime. Corriam notícias, assaltante. Nenhum dos dois ficava de um lado ou do outro. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Por um tempo a dupla (que nunca assumiu que era dupla) frequentou a biblioteca pública, sempre juntos. Ficavam na parte de gibis. Horas. O da touca dormia no sofá, o vascaíno sempre em pose de conspiração, entre um olhar no gibi e uma olhada feia para os atendes, para os outros leitores. Ficava por ali, agitado. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Agitada de verdade foi uma tarde. O vascaíno saiu da biblioteca com um bolo de gibis debaixo do braço. Uma contravenção sem sutileza alguma. O da touca, acho que ainda vermelha, voltou com os gibis recuperados meia hora depois:

– A gente frequenta aqui, não pode ser ladrão – sorriu já quase sem dentes.

Eram doces, eram ácidos, diferentes, próximos, moravam nas ruas, brigavam entre si, viviam às turras solidárias. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

A surpresa foi que o vascaíno do nada virou celebridade. Apareceu no Datena. Trágica surpresa. Foi flagrado tentando roubar um cego, aqui no centro de São Bernardo, o cego deu uns tapas nele. Do dia pra noite virou uma celebridade, pastelão no mondo cane do Datena. Humilhante. Não gostava que tocassem no assunto, o toquinha sempre falava alto sobre, zoando, eles ralhavam um com o outro. Os meninos que se confundiam com as calçadas.

A vida apertou. A dupla não foi vista mais junto. Muitos rumores. O vascaíno teria sido preso. O da touca nunca confirmava, também não negava. Ele e sua caixa de engraxate. Começou a se entrosar com o povo do comércio. Pequenos bicos, guardando carro, carregando caixas. Dormia aqui e ali. A camisa cruz maltina já não estava nas ruas. Os meninos que se confundem com as calçadas.

E chegou um tempo que também sumiu o touca, que já não era vermelha, creio. Ficamos sem o touca e sem o cruz maltino. Perguntei pra algumas pessoas. Inexatidão. Especulava aqui, acolá. Nada. O fim de uma dupla que teve o fim sempre anunciado. Dados relatados e passados. Mentiras e histórias inventadas. A cidade autolimpante. Não há retrato de cabeceira para recordar nas ruas. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

A história poderia terminar em dúvida, epílogo anonimo. Em parte, não. O da touca reapareceu. Quando me viu sorriu já sem dentes. Abaixou a cabeça. Sorriu de novo. Eu perguntei por onde ele andava. Disse, meio vacilando, que resolveu mudar de cidade, mas voltou. Esta morando numa ponte na beira da Anchieta. Diz que mais seguro e confortável. Estava bonitão, elogiei. Sorriu…

Pergunto do cruz maltino. Ele sorri pela quarta vez e desconversa. Passou. Sumiu na dobrada da esquina.

Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Muitos personagens da música já exortaram Waterloo Sunset dos Kinks como grande canção. Pete Towshend, Steve Marriot, David Bowie…ela é tida como uma pérola, uma canção única do rock and roll.  É bem provável que até a rainha tenha pensado nela ao olhar o Tâmisa em qualquer fim de tarde.

Ray Davies forneceu várias pistas falsas sobre o significado da letra. O que ele tem marcado é a convicção de ter feito uma grande canção. Deve levar consigo o verdadeiro sentido. Inventemos os nossos.

Vou falar de “Waterloo Sunset” como uma das canções que me acompanham, e nos momentos mais distintos, surge a melodia e seus últimos versos como trilha de fundo para dar graça a dias tristes, memoráveis, alegres e dias quaisquer. Muitas vezes estas referências me surpreendem, mudam os rumos…

E Terry continua encontrando Julie…

Millions of people swarming like flies ‘round Waterloo underground
But Terry and Julie cross over the river
Where they feel safe and sound
And they don’t need no friends
As long as they gaze on Waterloo sunset
They are in paradise

Waterloo sunset’s fine

Em três tempos para jamais esquecer.

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