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Arquivo mensal: outubro 2012

Meu nome é nuvem, pó, poeira, movimento

No último dia do ano passado caminhei desatento e sem rumo, vagabundo, numa estradinha vazia entre Gonçalves (MG) e São Bento do Sapucaí (SP), chovia. No fone de ouvido o Clube de Esquina de 1972, a calma dando espaço, mato, chuva subindo cheiros especiais ao redor e um céu lindo com nuvens correndo, as tais nuvens ciganas.

Aquele dia prenunciou o ano, as nuvens desenhavam muita coisa (sempre). O disco correu inteiro duas vezes. “Caís”, “Dos Cruces”, “Girassol…”, “Trem de Doido”, “Tudo que você podia ser”, “Trem Azul”…

Reverberou Milton, Lô, Horta, Novelli, Robertinho, Deodato, Guedes, Moura, Alves, Tiso, Tavito…

Era o lugar comum, trilha quase natural da paisagem, era a trilha do ano que ia e do outro que chegava, era a trilha daquela estrada úmida e tímida que abre e fecha em curvas, Minas.

De longe as cidades todas. Naquela estradinha e no último dia do ano eu antevia coisas, estava prestando uma homenagem aos 70 anos do Milton Nascimento e nem sabia. As nuvens ciganas vieram e foram…

Você nasceu sem letra e lhe colocaram uma , forraram de significado, quantos significados inventamos pra coisas? De fato, dois bambas deram letra pra você, mas não importa. Desejo-lhe sem letra, sem este “outro” significado colocado após. Veio de um leve sopro final, cordas e cordas, teclas, negras e brancas. Amparo, o nome sugere, serve tanto para este procurado amparo. Música da tarde, da noite, inventada na manhã. 1970, Stone Flower. Que nasceu, não temo dizer, por óbvio, num dialogo de Tom com o mestre Villa, com todos os nossos sons urbanos, naquele clima pós bossa e aquela gravidade, aquela espera para o desvendar da melodia. Amparo.

Zelou por esta tarde, não precisa de letra, não é Maria, tantas marias não tem nome, não é o nome que faz diferença, amparo. Existem músicas que silenciam ruídos, barulhos internos, músicas que suprimem atitudes tresloucadas, vãs, dispersam na lógica da vida e fazem prevalecer a beleza. Ainda que sem nexo, sem motivo no momento, a beleza. Como disse, amparo, não precisa de letra, nasceu completa entre sopros, cordas, cordas, teclas negras e brancas…e silêncios. E que venha a noite dessa música de tardes e manhãs. Feita para filme. Silencia meu barulho interno. Amparo.

 

 

Às vezes eu acho um drible bonito mais bonito do que um gol”

Dener Augusto de Sousa

As glorias parcas, o êxtase inconcluso, vida interrompida bruscamente, a obra inacabada. São diversos os lugares comuns para expressar a vida de um talento que morre cedo. São diversos os exemplos que correm a história. A arte, a habilidade, a expressão que se cala pela morte prematura.

Dener Augusto de Sousa começou jogando futebol de salão ainda criança, logo após foi jogar no infantil da Portuguesa aos onze anos em 1982, interrompeu e voltou aos campos de grama algumas vezes. Jogava futebol de salão por cachê, hábil e rápido. Quem viu Dener jogar com a bola pesada já vislumbrou o craque que encantaria o Canindé, o Maracanã, o Olímpico. Em 1988 estava no elenco dos juniores da Lusa.

Dener levou a Lusa ao título da Taça São Paulo em 1991, eu tava lá no Pacaembu, Portuguesa x Grêmio, Dener fez o primeiro da goleada, 4 x 0, Lusa campeã. Ele foi várias alegrias em dribles e golaços. Dener foi o jogador que me encantou no estádio, que fazia o jogo não ser um dilema de perde e ganha. Espalhava a chama nos dribles, nas soluções rápidas, incendiava o vazio da lógica competitiva.

O campo de futebol tem grama, riscos de cal retos e semi-círculos, bandeiras que o limitam e o objetivo trave que finaliza. Mas existem os atalhos, os atalhos não são vistos por todos. A maioria não vê atalho algum. E são nesses caminhos herméticos que os craques acham as soluções que a trigonometria não resolve. Os atalhos.

Dener inaugurou vários atalhos no Canindé, mostrava e os escondia depois, como moleque mágico que reina nas brincadeiras para depois esquecê-las no amadurecimento. Esqueçam, é de mentira. Dener não amadureceu, foi Rimbaud da bola, mas não abandonou a poesia, abandonou antes a vida.

Lusa x Inter de Limeira, 1991, jogo embaçado, truncado, Lusa avizinhando a área da Inter, a bola ficava pingando nos pés da intermediária, o perigo não era perigo. Num instante Nilson, centroavante domina a bola no meio circulo e dá um tapinha para Dener, ele corre que não vemos o pé, Nilson se posiciona para receber de novo, no meio do caminho desiste, Dener seguia a cavalgada do gol, sozinho. Deixa zagueiros para trás, aplica uma meia lua, contorna o segundo, vem o goleiro e ele finaliza. Gol de placa, gol de placa não se descreve.

O frio do Canindé se abriu e eu estava lá, privilégio, no pensamento firmava a certeza de que o meu time tinha um craque. Era Dener, nome que mãe usou para homenagear o famoso costureiro dos anos 70, Dener era craque.

Tarde de sábado, 1992, não vou precisar se foi o primeiro ou segundo gol, vou me destemperar na inexatidão da memória, Lusa x Santos. Dener, inquieto, errara alguns passes, foi então que ele dominou uma bola passada por Bentinho, deu uma caneta no lateral Indio, progrediu para área, tirou mais um zagueiro, fintou o goleiro e completou pro gol. O sábado parou para ver o gol e voltou logo depois ainda sábado. Gol de placa, gol de placa não se descreve, como também não se descrevem os atalhos, atalhos não se enxergam sem a lupa da genialidade.

Dener achava rápidos os seus atalhos. Rápido demais.

Foi embora da Lusa, primeiro emprestado para o Grêmio, voltou uma temporada, após foi emprestado para o Vasco de Eurico Miranda. O bairrismo cantava, raiva, levaram o Dener. E foi num dos momentos dessa migração que Dener pegou um atalho errado – me desculpem a forçosa metáfora – , o craque genial não driblou o acidente, tava dormindo no carro, faleceu numa avenida do Rio de Janeiro, Dener.

A marca que sua carreira rápida deixou foram os dribles, as corridas com a bola carinhosa colada nos pés, as soluções construídas nos milímetros dos campos. Os gols que ele, Dener, nem valorizava tanto quanto os dribles. Esses gols talvez fossem adorno final, mero relevo das pinturas do drible, do caminho, do fazer, da arquitetura aprendida com a bola pesada, nos imitados espaços do futebol de salão. O drible era o gol sem traves.

Posso dizer que Dener foi o homem da camisa dez que eu vi, o Pelé, talvez Rivelino, inconcluso das tardes e noites do Canindé, Dener do drible, Dener do olho vivo de menino, Dener que foi cedo, Dener dos atalhos.

Não concebo passar tantos anos em biblioteca sem pinçar pedaços de pedaços da vasta literatura. Vejo livros de lado, às vezes abro, (re)descubro livros, palavras, trechos, versos, completos, incompletos. Abro livros que me usam para que sejam lembrados depois, colo livros na memória, esqueço livros. Mas as palavras se misturam todas. Para não ter o pedantismo de citar o livro fica para que compartilhemos. Lembramos da palavra dos livros, mas não nos arvoremos da quantidade, do acúmulo. Livro lido compartilhado para todos. Não concebo trabalhar em biblioteca tantos anos sem pinçar a vida.

Já era, dormir…

A expressão “centralidade da cultura” indica aqui a forma como a cultura penetra em cada recanto da vida social contemporânea, fazendo proliferar ambientes secundários,  mediando tudo. 

Stuart Hall

Um dos temas que margeia o debate nas eleições é a cultura ou que poderíamos chamar de política cultural.  Ele aparece sempre de forma lateral, de lado mesmo, quase envergonhado, sendo olhado como algo importante, fundamental, existe o reconhecimento que é uma área constantemente preterida. Mas a pressa e o improviso marcam o debate.

O fato é que quando o assunto é detalhado sentimos o despreparo da maioria dos candidatos e equipes para tratar de temaque depende de um pensamento sistematizado, que seja tratado a partir dos fundamentos que vão compor uma política cultural, que seja pensado,  que gera desdobramentos aparentemente simples, mas esta pretensa simplicidade, ou a falsa ideia dela, acaba jogando na margem algo que seria central. O improviso não cabe na cultura, como não cabe nos outros temas.

A decantada centralidade da cultura, defendida pelo pensador jamaicano Stuart Hall, é incensada em falas pomposas, na maioria das vezes de forma desavisada. A cultura, tema que atravessa todos os outros, saúde, educação, segurança urbana, planejamento urbano, etc. fica sempre relegada ao seu papel terapêutico e lúdico. Ela que esta em todos os temas, vira espectadora de todos os outros.  Não que isso seja pouco, mas o ensaio é sempre mais amplo do que a concretização. O dialogo transversal não acontece. Esta potencial transversalidade emperra na simplificação do tema, a cultura segue na leitura ensimesmada.

Uma leitura mais ampla nos faz crer que a cultura não deve ser tratada como tema do “povo da cultura” ou do povo que “mexe com cultura. A cultura do espetáculo pode ser relegada a este papel secundário, mas a ampla leitura de cultura, a sociológica, a antropológica, a econômica deve ser tema de “povos diversos”, pois trata da vida de todas as pessoas. A cidade esconde as suas culturas. A política se aproveita dessa omissão e passa ao largo.

A língua, a música, a iconografia, as várias expressões que estão explicitas e implícitas na cidade, não podem ser tratadas de maneira apressada e fugidia. A cultura não esta restrita a orçamento, gestão, relação com as demandas e os grupos organizados, mesmo estes temas por conta da pouca discussão e elaboração de políticas culturais são restritos a leituras casuísticas, corporativistas e reducionistas.

A cidade pode ser lida pelo prisma cultural sem ignorar nenhum dos itens fundamentais de sua vida. É um prato cheio para que encaremos a política de uma cidade como ferramenta para transformá-la. A política cultural aprofunda a política da cidade, amalgama de tema central com o tema universal. A cultura abre este caminho.

E como tratar de maneira objetiva dessa lacuna, e fugir desse constantemente adiamento?

Em primeiro lugar não cometer o erro recorrente de atrelar a política cultural tão somente às demandas da área cultural, distorção que gera uma camisa de força e que coloca ao tema as restrições que o mercado e os interesses de grupos específicos impõem. A política mitigada, enfraquecida.

Pensar política cultural é abrir dialogo com as partes invisíveis da vida cultural, vida cultural esta que não deve estar restrita ao produto cultural, que fique bem claro. O invisível pratica sua cultura e muitas vezes não sabe ou não faz saber. O fazer cultural muitas vezes permanece subterrâneo ou mesmo ignorado.

Pensar e elaborar política cultural começa pelo questionamento do papel do Estado com as citadas demandas. É um vôo livre onde as contradições devem ser encaradas e com o poder de transformar o conforto dos arranjos conformistas. A política cultural sem componente utópico é a farsa arranjada. O Estado pode ser autoritário ou permissivo, nas duas hipóteses, ela sufoca a cultura.

Política cultural é estabelecida pelo conflito e pelo arranjo, é um jogo de perde e ganha, de concessões e invasões, claro, que este caminho nos faz deparar com dificuldades e resistências, mas onde e como avançar, adiar para quem fazer este debate? Afinal de contas as políticas são elaboradas para quem e para quê?

A cultura (como política) tem que deixar de ser refém da usura e da miopia que suas tradições criaram. Esta mazela tem muito a ver com as instituições culturais que foram criadas (!?!?) para operacionalizar e gerir e que acabam se apropriando da cultura para si. O “povo da cultura” se mimetiza com as suas instituições culturais e se conforma. Não há dialogo com o externo. A cultura para si. Política para si é a morte da política.

Voltando ao tema “centralidade da cultura”: quando se fala dessa centralidade, a primeira idéia que se apresenta é a cultura comandando todas as outras áreas e intervindo nas suas decisões. Presunção.  A cultura não carrega esta onipresença. Ela exerce este papel, sim, mas quando se despe da sua prepotência e da auto-referência, quando se doa ao outro tema, quando solta sua potencialidade, síntese de anseios do ser humano, esta é a universalidade da cultura.

São duas pontas que se engolem:  a vulgarização da cultura, relegá-la a condição de cereja do bolo e do outro lado, a prepotência da cultura, colocá-la acima dos outros assuntos, como se estes dela dependessem. É um vôo dotado de ilusões. A política cultural serve para desfiar o meio deste fio, desvelar seu caminho, unir as pontas, permitir, construir as amarras, dar forma ao sonho.

A formula não é fácil, como não é fácil qualquer construção de políticas. A busca da totalidade, da leitura ampla e os passos meticulosos pela cidade, que é diversificada e contraditória, que trai as leituras apressadas, fazem da elaboração das políticas culturais um importante momento de uma gestão. Não pode ser apressado. Reiterando, a cidade omite por defesa ou por abandono suas “diversas culturas”.

Domingo tem eleição, a hora de fazer a política cultural vai se encerrar na nomeação dos Secretários de Cultura e equipe? São estes “iluminados” que vão dar conta da complexidade acima descrita? A política cultural vai ser arranjo entre as intenções do candidato e o pragmatismo dos que assumem o mandato e a gritaria da minoria esperta? Como, onde e quando a política cultural?

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