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Arquivo mensal: fevereiro 2013

People say that they want to be free
They look at him and they look at me
But it’s only themselves they’re wanting to see
And everybody knows about it

Songs for Insane Times – Kevin Ayers

Kevin Ayers foi um dos fundadores do Soft Machine ao lado de David Aellen e Robert Wyatt. Cantor, compositor, figura expoente na cena de Canterbury, faleceu na madrugada de 19 de fevereiro de 2013. Ele nasceu na Austrália, viveu por um tempo na Malásia e logo foi para a região de Canterbury, Condado de Kent, Inglaterra, onde em meados da década de 60, estudou e entrou na música.

Kevin perambulou por bandas e por terras da Europa escapando de todo comodismo que o negócio rock poderia lhe proporcionar. Quando enxergava estagnação pulava fora para algum projeto mais instigante. E foi neste estrada que bulinou com o folk, jazz, psicodelia, protoprog e pisou em muitos territórios híbridos que não podem e nem devem ser catalogados. A palavra inconformista caberia muito bem em sua carreira.

Um inconformista na música e na poesia que o acompanhava, Kevin foi uma espécie de Syd Barret que conseguiu mais anos de atividade e sanidade. Não é à toa que os dois dividiam o palco do clube “UFO” em Londres, nas memoráveis e ácidas noites da efervescência (literal) psicódelica. Syd à frente do Pink Floyd e ele com o Soft Machine.

Boa viagem, camarada.

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Hoje a tarde a caminho do Canindé (pra ver Lusa x Juventus) passei pela feira dos bolivianos, a feira da Praça Kantuta, que rola no Pari. O bairro do Pari fica incrustado entre a Avenida Cruzeiro do Sul e a Marginal Tietê, ali nos arredores o velho CMTC Clube e aquele ar de lugar de passagem rápida.

Andar pé na cidade deixa as coisas mais presentes e visíveis, rapidamente, depois de dois quarteirões da saída da Estação Armênia, na Rua São Vicente, me senti em Cochabamba.

Nesse caminho perfilei com centenas de bolivianos sorridentes e descontraídos, andando em passo rápido. Conforme a feira foi ficando mais próxima, e eu os vi dançando, comendo e foliando no ritmo andino.

Temperos em saquinhos, comidas fortes expostas, frituras, pollos assados, cds e dvds de música local, roupas e enfeites, música ao vivo. Homens, mulheres, crianças com olhinhos puxados e cabelos pretinhos e suas falas cantadas em outro tom.

Eles todos nas ruas em meio às barracas num clima bem distante do andar e do semblante tenso, sisudo e pragmático do dia a dia. Naquele momento, eles deixaram de ser a base da pirâmide dos negócios, na feira eles festejam.

Naquele momento, as ruas não são de passagem rápida para eles; nos domingos das 11 da manhã às 19 eles estão lá e isso deve ser longo.

As ruas com cores de uma América desconhecida. Nesta feira, no seu domíni, são os bolivianos orgulhosos, longe de serem apenas os índios exóticos que mascam coca, dançam chola e têm hábitos estranhos aos nossos. Eles são índios sim, são exóticos, sim, mascam coca, sim, dançam a chola e assim vão ficando cada vez menos estranhos a nós, se misturam.

Em cada época São Paulo recebe, desconhece, ignora, reconhece, absorve e dilui seus desconhecidos. A feira da Kantuta é uma dessas encruzilhadas onde a cidade muda sua sisudez para um sorriso largo, temporário, mais largo.

A cidade cinzenta se colore e se reconstrói. Esta é a cidade que a gente e muitos amam. Cada um no seu tempo e do seu jeito. Os bolivianos são os novos baianos.

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O futebol é na essência a história particular que cada um tem com ele. Claro, as catarses de massa movem as energias mais aparentes do esporte. Grandes multidões, títulos, jogos épicos, monstros de dor e prazer, tudo isso é o que torna o jogo da bola tão popular. Mas tem a artesania, a história tecida em finas camadas imperceptíveis aos olhos de quem vê de longe.

Muitas vezes parece folclórico, engraçado, e por que não patético, gotas de prazer, alguma esquisitice, teima, mania, costumes. Este é o jogo íntimo que levamos pela vida. Domingo próximo terei um dos meus jogos íntimos, o clássico dos pequenos, segundo os antigos, o derby dos imigrantes.

Associação Portuguesa de Desportos x Clube Atlético Juventus ou Lusa x Moleque Travesso.

Pela vida assisti alguns confrontos entre Lusa x Juventus, na Javari, casa dos rivais, no Canindé, nossa casa. Quartas à noite ou à tarde, quintas à tarde ou domingo de manhã. Sempre um jogo renhido, difícil, de placar seco, ‘1×0, 1×1, 2×1, 3×2 e por aí.

Minha memória parca não capricha em detalhes, mas fica sempre aquela sensação de estar sendo xingado de perto, aquelas ofensas quase familiares e leais de quem ocupa o mesmo barco. Os times que nunca são campeões, mas que guardam em cada ponto ganho ou perdido sua cruzada (literal) de acessos e descensos.

Das afinidades ainda constam a beleza das duas camisas, as torcidas marrentas e uma disposição inconteste de rir do próprio escárnio. As ditas artesanias da vida só percebidas de muito perto em tardes/noites vividas ao lado de pequenos batalhões.

Lembrar de uma tarde qualquer descendo do trem pra depois atravessar alguma das ruas da Moóca. Passar no meio das camisas grenás, dos rostos marrudos, mas respeitosos e entrar na Javari para o confronto. Do mesmo modo receber ali na Marginal, rua da Piscina, o grupo grená como visitas honrosas, mas longe de serem tratadas a pão de ló na terra rubro-verde.

Domingo próximo (17/02/2013) no Canindé o clássico terá um gosto especial. Como disse acima raras foram as vezes que Lusa x Juventus jogaram num domingo à tarde, horário clássico do futebol de verdade, que povoou meu imaginário de moleque como “a hora do jogo”, domingo à tarde.

Os confrontos fossem no Canindé ou na Javari sempre ocuparam os tais horários subalternos, quarta ou quinta a tarde (se o jogo fosse na Javari por conta da falta de iluminação), domingo de manhã, etc.

Quero colher esta nova história e sentir o gosto único de atravessar a ponte que liga a estação Tietê do Metro à marginal, seguir para a rua da Piscina e viver os noventa minutos que me aguardam. Ganhar, perder? Assim como os passos nos levam ao Osvaldo Teixeira Duarte ou ao Conde Rodolfo Crespi, derrotas ou vitórias ficam apenas para as nossas lembrança e se perdem nas frias estatísticas.

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