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Arquivo mensal: abril 2013

O tempo e o espaço eu confundo
A linha do mundo é uma reta fechada
Périplo, ciclo
Jornada de luz consumida e reencontrada
Não sei de quem visse o começo
Sequer reconheço
O que é meio, o que é fim

Tempo e Espaço – Paulo Vanzolini

Na introdução do documentário “Homem de Moral” de Ricardo Dias (2009), o zoólogo e compositor da música brasileira, Paulo Vanzolini, deixa a síntese das coisas que fez tão bem, ele apresenta o roteiro “completo” da sua vida artística nesta fala:

– Eu tenho muito divida com esta cidade de São Paulo … por exemplo, é um absurdo como gostam de Ronda, mas gostam. Eu devo isto para esta cidade, então eu queria que agora que estou chegando nos 80 e não tô vendo muito futuro pela frente, eu queria deixar um testemunho, uma antologia do qualé a minha dívida artística com a cidade de São Paulo. Então, esse projeto pra mim tem muito esse sentido de um amor com a cidade, de uma prestação de contas, de…com a cidade e com povo, o povo de cada um pessoalmente eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito.

Logo em seguida entra uma versão bela de “Ronda”, seu grande sucesso como compositor da cidade que amou com a cantora Márcia acompanhada de Isaías e seus Chorões.

Claro que Vanzolini não cabe nessa pequena introdução. Ele desenhou a sua cidade de São Paulo. Observou a cidade, e segundo ele próprio, a cantou como amador, ele que se considerava antes de tudo um cientista, um pesquisador, e como tal foi reconhecido e respeitado.

O seu amor paralelo, o amor das horas vagas, veio em canções e o colocou na história da música brasileira. Ainda que “subalterno”, o compositor que se subestima está na vida das pessoas, altamente estimado, não adianta negar.

O rio da vida correu deu volta à terra.
A cachoeira desceu, não sobe mais a serra.
Você sorri de olhos claros pra quem ficou com o que é meu.
E eu sorrio a quem diz que o final foi feliz,
Porque o bom senso venceu.

Se formou doutor  em Harvard,  mesmo assim deu tempo pra dar banda na cidade de São Paulo, andou de fato, no tempo e espaço em que São Paulo se mostra melhor, fora dos carros, a pé pelas ruas, tempo esse que não tem a ver com época, nos dias de hoje São Paulo daria a um homem como Paulo Vanzolini, tanto combustível como deu na década de 40 e 50.

Vou andando na neblina das ruas
Conversando com você
Cantigas da perdida felicidade.

Assim como ele se embrenhava nas matas para suas pesquisas e tirava conclusões, como levantava dúvidas e especulações, em suas letras Vanzolini tentava compreender um pouco da cidade que amava, vivia as matas e as ruas de asfalto sem dar hierarquia para esse amor, amor de dúvidas e certezas. Especulava as esquinas cientificamente.

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida

Vanzolini compreendia o seu legado de composições como “pedaços de memórias submersas de coisas que ouvi no rádio”, andar nas ruas, ouvir atento às surpresas em forma de canção com que a era de ouro do rádio lhe presenteava, era o rádio que ele ouvia com o pai, caldo rico do mundo que desenvolvia.

O meu pai ja me dizia
“Meu filho voce vai ter culpa de tudo
Se nao for por falar muito eh por ficar mudo
Voce nunca minta meu filho
Tambem nao disperdisse a verdade
Bata na cara da sorte
Ela acaba fazendo a sua vontade

E esse luxo de recursos, de repertório serviu para ilustrar a sua vida íntima, e a intimidade do alheio, é o benefício do compositor popular construir histórias e para tal usufruir de parceiros de qualidade, grandes interpretes, feliz o Vanzolini que dizia que a vida do zoólogo é muito ciumenta, que não tinha muito tempo fora do laboratório, imagine se tivesse.

Que teimosia

Nada nos une, tudo nos separa
Só quando a vida pára
E o tempo se distrai
Do momento que vai
Do grito ouvido ao vidro estilhaçado
É que eu paro ao teu lado e nós trocamos
Vidas perdidas por horas roubadas

Para quem ama as andanças pela cidade, o “professor de zoológico” como dizia Adoniram Barbosa, é fundamental. E para esse outro nobre, Vanzolini fez homenagem, na tiração de sarro e no gancho de papo de boêmios.

O pivô do enguiço foi um gato
Pertencente a cidadão, por nome de Rubinato
O miau sumiu, ele botou o dedo ni mim
Só porque me viu, encourando um tamborim

Na noite passada, onze e meia, provavelmente noite de alguma ronda, da ronda de alguém por São Paulo, Paulo Vanzolini encerrou seu ciclo. A cidade que ele cantou dormiu, como dormiu incólume nesses oitenta e nove anos que ele a fez como companhia, e podemos ter a certeza de que é assim que ele queria.

Cheguei na boca da noite, parti de madrugada 
Eu não disse que ficava nem você perguntou nada 
Na hora que eu ia indo, dormia tão descansada

Como grande cientista e arguto poeta, o compositor zoólogo Paulo Vanzolini que nasceu na cidade de São Paulo em 25 de abril de 1924 e deixou a cidade em 28 de abril de 2013, o sambista que não tinha ritmo nenhum (palavras do amigo Martinho da Vila) escreveu seu epitáfio bem antes dele acontecer.

No último dia da vida
Encontrei-me com os meus pecados
Uns maiores, outros menores
Mas no geral bem pesados
Do outro lado somente
A ingratidão que sofri
O anjo pôs na balança
E vestido de branco eu subi.

Agora só toco harpa
De camisola e sandália
Espio pra ver lá embaixo
A quadrilha da fornalha
Aquela ingrata hoje está
Trabalhando de salsicha
Espetadinha no garfo
Satanás fritando a bicha
Ô demônio: capricha!

Será que a  São Paulo que Vanzolini cantou não existe mais? A intensidade do que ele fez torna uma mixórdia a pergunta anterior, assim como é mixórdia ele dizer na introdução do referido documentário que não amava  todas as pessoas, não importa o que ele disse e se agora nos deixou. Como teimoso ele era, o seu legado teimoso não nos deixa, como a nossa São Paulo que não desiste.

E assim, para o povo todo que ele disse não ter amado individualmente, deixou um patrimônio tão vasto que sobra amor para todo mundo.

Sem saber
O que o dia de amanhã nos traz
Sem querer
Relembrar o que ficou pra trás
Pode ser
Que agente assim padeça mais
Pode ser
Mas que diferença faz?

Vida comprida e vazia
Dias e noites iguais
Vida comprida e vazia
Dias e noites iguais
Morte é paz

 

vanzolini

Roberto Carlos de Cachoeiro de Itapemirim completa hoje 72 anos. Roberto Carlos é um dado inescapável do imaginário pop brasileiro. Quando eu tinha 5,6 anos no início da década de 70, ouvir Roberto Carlos era uma extensão dos mais prosaicos hábitos do cotidiano. Todo mundo citava letras do rei, usava gírias ditas e tiradas das músicas dele. Namoros, brigas, saudades de família tinha condimentação do rapaz da jovem guarda.

Dias atrás outro cantor nascido em Cachoeiro fez aniversário, ou faria, se aqui entre nós ainda estivesse, Sergio Sampaio nasceu no dia 13 de Abril de 1947, portanto 6 anos mais jovem que o rei. Sergio nunca atingiu o estrelato, não fez parte do restrito espaço de ídolos pop brasileiro, de alguma maneira a maioria que o conhece lembra de uma música, composta e gravada em 1972, e ela dizia assim:

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Claro que não vou precisar colocar aqui qualquer trecho de letra de Roberto para lembrar quem ele é…

Tanto Sergio como Roberto saíram, em momentos e épocas diferentes, da pequena Cachoeiro para o Rio de Janeiro. Roberto queria a bossa nova, usou terno e violão para tentar ser clone de João Gilberto, nunca desistiu e após ser o rei da Jovem Guarda, atingiu o estrelato para não sair mais da vida dos brasileiros. Roberto desenhou sólida carreira, com todos os percalços e contradições de quem chega no topo, alvo permanente.

Sergio na sua viagem aportou na orla carioca para espalhar a sua mistura de referências pós tropicalistas, rock com o samba e choro (legado do pai, também compositor, Raul Sampaio) que nunca saíram da sua retina. Junto com Eddy Star, Miriam Batucada e Raulzito (um dos seus ídolos) gravou o Sociedade da Grã Ordem Kavernista, um disco inclassificável pelos artistas dificilmente enquadrados que dele participaram. Após, ele seguiu numa errática carreira sacrificada pelo álcool e demais desbundes, mas que deixou canções e álbuns brilhantes.

Comemorar Roberto Carlos é também não esquecer Sergio Sampaio. Sergio era fã de Roberto e morreu em 1994 sem satisfazer a vontade de ter uma canção gravada pelo famoso conterrâneo.

Roberto Carlos chega em 2013 como um ídolo cansado, que canta banalidades e cede às facilidades do preguiçoso entretenimento. Disco de final de ano, especial da Globo e pouca exposição. Seu trabalho atual é protocolar e auto referente, mas Roberto tem um forte caldo acumulado, três dezenas de canções inesquecíveis, que volta e meia seduzem caprichosamente novos ouvintes. Um clássico.

A lembrança de Sergio Sampaio chega em 2013 como um dos integrantes de uma duzia de malditos que legou canções e rebeldia, que marcou posição em defesa da sua integridade, e que levou no corpo a sua arte completa, e essa foi tão forte que o corpo não aguentou o tom. Sergio volta e meia é lembrado, exaltado e na sua coerência ainda não é enquadrado.

Esses dois rapazes de Cachoeiro do Itapemirim, Espirito Santo, colocam o mês de Abril na história da música brasileira, pela sombra da lembrança ou pela luz ofuscante do esquecimento.

rcss

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