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Arquivo mensal: agosto 2013

O Brasil possui uma cultura popular profunda, que sobrevive longe da sombra paternalista e do vampirismo da indústria. Não é a cultura popular customizada pelas conveniências do bom gosto de classe ou pela tolerância ao bom selvagem. Este Brasil sobrevive não apenas numa memória fetichizada, mas na força de suas próprias contradições e adversidades. Não precisa de tutela, nem de legitimação.

E o Pinduca faz dançar e pensar…

Ô lêlê ô lalá
Misturei carimbó e siriá
Carimbó sirimbó é gostoso
É gostoso em Belém do Pará

pinduca

Nelson Cavaquinho é ímpar em todos os sentidos. No arranhar literal das cordas do violão, no jeito anguloso de cantar, na forma em que encarou a vida e os excessos. Ele não fazia onda de marginal, procurava as margens. Daí, os seus sambas nasciam assim, conjugados às letras do parceiro Guilherme Brito e na toada da sua vida imperfeita. A beleza torta dos sambas de Nelson Cavaquinho.

“Juro que não sou o causador
De você estar sofrendo assim
Juro até pelo amor de Deus
Se algum mal eu lhe desejo
Que caia sobre mim”

nelson

Hoje pela manhã fui acompanhar meu pai numa consulta médica. Em 2005, num exame de rotina, ele foi diagnosticado com câncer na próstata. Tratamento longo, bracterapia, radioterapia, exames, enfim, em 2012 chegou a boa notícia do câncer controlado.

No meio do tratamento, devido a um problema acumulado no tempo, ele perdeu parte da audição de um dos ouvidos. Providenciamos um aparelho para surdez.

Seo Geraldo reclamou do troço do aparelho desde o começo, não queria aquilo e ninguém entendia o por quê. A família toda brigava com ele pra usar a engenhoquinha. Ele resistia.

Na consulta de hoje entrei no assunto com o médico. Primeiro ele explicou que não era especialista da área, mas olhou pro meu pai e perguntou:

– O aparelho faz com que o senhor ouça muitos ruídos, mais ruídos do que vozes?

– Sim, sim… – ele respondeu com o sorriso de que pela primeira vez alguém estava entendendo o que ele passava.

O médico também sorriu e explicou:

– Ele deve ter um problema crônico e o aparelho mais atrapalha do que ajuda, aumenta mais os barulhos – recomendou e deu a guia para que passássemos num especialista.

Meu pai consentiu, o médico sorriu, e daí eu lembrei da petulância sabichona da família toda duvidando da ineficácia do aparelho, e ele do lado dele apenas reclamava o direito de não ouvir os incômodos ruídos do mundo.

E nessa sexta o meu pai conquistou mais ainda o direito de curtir os seus silêncios.geraldo

Hoje SBC faz 460 anos. Quarenta e sete vivi aqui. A proximidade da capital paulistana faz SBC parecer uma antesala, um lugar de espera.

O fato é que as pessoas vivem aqui e esta “espera” pode atravessar uma vida inteira.

Cidade das batatas, dos móveis, do trabalho, industrial, pós industrial, que se expandiu, criando tantas outras cidades dentro de si, nos morros, à beira da represa, legal, ilegalmente, à revelia, à luz da conivência.

Uma cidade tão intrincada que qualquer intenção de defini-la acaba em pretensão.

E era simples quando eu era menino, onde a minha cidade era o caminho entre a Avenida Kennedy e a Vila Euclides. A saída de casa e a chegada no Largo Santa Adelaide na casa do seo Pedro e dona Maria Augusta.

Desde lá a cidade me contrariou várias vezes, me alegrou, e bem ou mal fiz das suas ruas um cenário de vida. SBC, 460, e esta manhã cinzenta como tantas dessa história, parabéns minha Glasgow batateira.

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Alguns comentários sobre o Fora do Eixo.

Nesses tempos bicudos devemos estar atentos a todos as formas de organização alternativas e contra hegemônicas, tenho como princípio não acusar levianamente nada e ninguém, principalmente movimentos sociais construídos com legitimidade. Porém, me atenho a dois motivos singelos que nos sugere a cautela e que envolvem o Fora do Eixo e congêneres: a incipiência no debate de política cultural e a falta (concentração) de recursos na área. Fazer gestão cultural e construir políticas culturais é uma jornada dupla diária, portanto, não devemos brincar com fundamentos. Para a prática, para a gestão, para vivência, para o fazer cultural precisamos de recursos materiais ,e antes de tudo, pessoas, pessoas com direitos básicos respeitados, nós que tantos exaltamos os direitos culturais como dos mais importantes dentre os direitos humanos. Precarizar esses fluxos é jogar contra. E é nesse quesito que o FDE não me convence há algum tempo e nesse debate recente está longe de me convencer.

Não vou fomentar fofocas e acusações mútuas (emilinha borba x marlene). O que me interessa é entender o FDE como modelo de gestão e experiência relevante na construção de uma política cultural. O que vejo até agora:

1- não há clareza sobre a destinação dos recursos públicos que estão sendo utilizados pelo FDE, e aqui não vai nenhuma ilação sobre desonestidade e nenhum julgamento prévio – existem órgãos e instâncias competentes que dão conta dessas lacunas – acredito que as inquirições que eles estão recebendo podem servir para o grupo pensar uma forma de prestação de contas democrática;

2- a horizontalização e a divisão de tarefas dentro dos coletivos não está muito clara. À primeira vista me parece a velha hierarquia travestida em neologismos, muita retórica e nenhum formato “transgressivo” resultante. O trabalho não perdeu seu valor central, ele foi modificado com a tecnologia e a mudança nas relações sociais? Sim, mas isso não quer dizer que os direitos do trabalhador (artista ou não) possam ser reduzidos a uma “experiência alternativa”, o que os membros do coletivo chamam de “lastro adquirido na experiência” é resultado de trabalho e deve ser tratado como tal ;

3 – me assusta o discurso do “fazer muito com pouco recurso”, na prática isso implica em precarização de todo um sistema, não afeta apenas o FDE isoladamente, mas toda uma luta da área cultural por recursos e infra estrutura. Enquanto alguns afirmam e mesmo vivem essa utopia, os velhacos de sempre se apropriam dos recursos da cultura (através da Lei Rouanet, editais ou do velho balcão) e usam para os suas festas particulares. A indústria cultural, aquela do conteúdo, não morreu, ela se travestiu e os velhos personagens ainda continuam ganhando, inclusive alguns que “adoram” o FDE;

4 – ainda não consegui entender o motivo das reações exaltadas, e muitas vezes soberbas, das pessoas do FDE, e de alguns defensores diletos, diante de críticas. Quer dizer que todo crítico do FDE se transforma “a priori” em fascista, leitor da veja e reacionário? Ainda que reconheçamos que parte dos ataques são levianos, desqualificar interlocução é um velho método que esvazia qualquer debate. Para um coletivo que defende as relações horizontais esse tipo de reação é, no mínimo, estranha.

Não quero, e acredito que nem conseguiria, esgotar aqui todas as minhas dúvidas e possibilidades de discussão a respeito do FDE, apenas quis contribuir com alguns pontos e espero aprender mais sobre o assunto nesse debate.

Sigamos.

fora-do-eixo

Solilóquio do bem e do mal

Um amigo bêbado:

– Todo fã de Chico Buarque é um chato – para e olha para os interlocutores esperando reação. Nenhuma palavra.

Ele continua:

– Por outro lado, toda pessoa que fica falando que fã de Chico Buarque é um chato, também é um chato – novamente espera a reação da platéia. Nada.

O amigo se cala e volta beber. Cai.

Conclusão: deixem o Chico Buarque em paz, fãs e detratores. Já deu.

Chico Buarque

Há tempos venho brincando com um termo sobre o meu time do coração: a Lusa é um time barroco. A “pérola irregular ou imperfeita”. Parece brincadeira, mas a Lusa é assim. O time das surpresas, que muitas vezes atravessa um corolário de derrotas e jornadas patéticas para desembocar em atitudes heroicas e surpreendentes. Nada mais barroco.

A Lusa não ganha títulos, mas alegra nos detalhes. Quando eu era menino não se virava bandeira, esse era o termo, escolhíamos um time e com eles seguiríamos por toda vida. Sina. Comigo foi assim.

A Lusa de Enéas, de Wilson Carrasco, Toninho, de Dener…Canindé vazio de noites frias, sempre minoria em estádios e com aquele travo de “quase deu” atravessado na garganta. Time não se larga na estrada. Sigo com meu time barroco, que hoje faz 93 anos.

Parabéns Lusa, na sua imperfeição e nas alegrias pequenas e bissextas que me proporciona.

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