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Arquivo mensal: agosto 2014

If you have a racist friend
Now is the time
Now ist he time
For your friendship to end

The Specials

Em 1977 eu tinha 11 anos. Estudava numa escola ao lado de casa. Era a escola da ditadura, aquela das filas no pátio para cantar o hino nacional perfilado. Naquele tempo as classes sociais se misturavam na escola pública.

O sucateamento acontecia, mas alguns os ricos sentavam perto da gente nas carteiras, não era por democracia, claro, era apenas uma transição para o abandono total da coisa pública. Todo mundo misturado e se distanciando.

Eu tinha alguns amigos, por ser o gordinho da classe, me juntei aos outsiders, os mais pobres, os mais feios, os esquisitos, os negros. Sim, negros outsiders, num pais predominantemente mestiço e negro, negros à margem.

Um dia rolou uma festinha daquelas de escola onde cada um de nós levava uma comidinha, um doce, um salgado feito pela mãe. Era um jeito de trazer o carinho, a aquiescência de casa para sala de aula.

Os doces, os salgados ficaram em cima de uma mesa e acabaram rapidamente na furia hormonal que dá fome na infância, bolos cremosos, tortas, docinhos mais delicados.

Restou um prato de pastéis intocado no meio de tudo.

Eu, na minha fúria comilona, não entendi o porquê daquela omissão dos colegas e parti pra cima dos pastéis de carne e queijo. Foi quando um amigo me abordou e falou baixo:

– Estes são os pastéis do fulano…

Vacilei um minuto, não entendi, ele se referia ao nosso amigo, nosso comum, que jogava bola, corria no pátio, conversava com a gente todos os dias no meio daquelas carteiras tristes e alegres, nosso amigo negro.

Continuei a comer os pastéis, muito mais por gula do que por qualquer ato heróico anti racista. Foi a primeira vez que senti de perto o racismo, naquele prato cheio de pastéis. Nunca vou me esquecer.

Eu era menino e eu não entendi bem na hora. Hoje sei que racismo não é uma coisa para se combater amanhã, pelo simples fato dele acontecer desde anteontem.

Esta música da banda inglesa e multiaracial, The Specials, expressa bem esta urgência. Não aceite racismo, nunca, é urgente.

7-specials-racist friend-german

 

Acredito que passou da hora (se já não é tarde para tal) de acabar com a hipocrisia e assumirmos que nos últimos anos ajudamos a reduzir a política a um debate moralista com poucos espaços para avanços. A mídia fomentou, os vários atores políticos engendraram e o Governo entrou na onda com conivência.

Marina Silva é  um dos resultados disso. Ela mistura em seu discurso vários ingredientes que apontam para o retrocesso. Ortodoxia economica, Estado inexistente e uma proposta de  democracia direta que pode agradar a quem não lê nunca as letras miúdas das bulas, mas que não resiste a um olhar mais detido.

Marina não é neoliberal?  Claro que não, ela é ultraliberal. O tal Estado Mobilizador, balbuciado pela ex senadora acreana ontem no debate, nada mais é do que a sobra do quiabo que o tal tripé da econômia (controle da inflação, superávit primário e câmbio flutuante) aufere ao Estado. É o aprofundamento da ortodoxia.

No que se refere às ações sociais, o intrigante discurso propõe não o Estado mínimo, mas o Estado ausente e o que é pior, com os representantes eleitos reféns de uma equipe econômica que concentra todos os poderes, André Lara Resende não foi chamado à toa, o capital não vacila.

E a tal democracia direta que ela apresenta como proposta? Pelo o que se consegue retirar do que tem de vago, é o encurtamento do caminho entre o poder central e o opinionismo da população, sem as instâncias constituídas, com a mitigação dos poderes constituídos do dia pra noite e sem reforma política estruturante. Isso me soa a personalismo e autoritarismo travestido.

A tônica moralista e os conceitos explicados ligeiramente, sem aprofundamento, são características da despolitização. É o mesmo que juntar as palavras de ordem de junho de 2013, descontextualizadas, embrulhadas num pacote pomposo e discursadas com cinismo. O novo.

O que está claro no discurso de Marina Silva, até o momento,  é sua opção pela ortodoxia econômica – sempre houve indícios , desde o PT, o grande aliado dela é Tiao Viana, o que existe mais a direita dentro do partido – a grande “novidade” é que ela resolveu aprofundar a ortodoxia, se adaptou aos novos tempos, e se juntou a gente graúda nesse campo

Dentro desse quadro, será que o PT finalmente optará por um discurso mais à esquerda, que apresente uma distinção, ou vamos perder operando num espaço onde nunca fomos aceitos e despolitizando mais a política?

marina

Há alguns anos tive a oportunidade de mediar uma palestra do Professor Nicolau Sevcenko. Foi dentro de um projeto que criamos em São Bernardo do Campo chamado MundoLivro. Sevcenko discorreu sobre conhecimento, sobre poder, sobre literatura, sobre desenvolvimento, a fala em síntese e o conhecimento aguçado, com fluídez e argúcia.

O professor deixou calada e atenciosa uma audiência de gente muito diferente entre si. Ele sorria, ele se envolveu e envolveu as pessoas. Era uma tarde de sábado na Biblioteca Monteiro Lobato e todos saíram felizes, inclusive e principalmente o Professor Nicolau. Simples, ele me perguntou baixinho ao final: “será que gostaram”?

Saímos juntos, fui de de carona com o carro da Prefeitura para São Paulo e o deixamos na sua residência, no tradicional bairro do Belenzinho, quando saiu do carro o professor disse:
 
– Adoro esse bairro!! 
 
Dois dias depois (na segunda) recebi um email de sua secretária informando que naquela noite o Professor tinha chegado feliz em casa e que afirmara ter gostado muito de sua experiência em São Bernardo, horas depois sua mãe faleceu, e seu sábado fôra um misto de tristeza e felicidade.
 
Aquela  foi a segunda vez que eu estive no mesmo espaço que ele: a primeira, no ano de 1997, Londres, no histórico Astoria Club, Charing Cross Road, onde pude vê-lo no meio da platéia num show do Einstürzende Neubauten, banda alemã do guitarrista Blixa Bargeld. O eclético e ligado professor ouvindo o som do rock industrial, um homem envolvido com seu ofício, com a vida, com seu tempo, com as coisas ao seu redor.
 
Fico sabendo agora à noite (13/08/2014) que o historiador, pensador e apaixonado professor, Nicolau Sevcenko faleceu há algumas horas. Com toda certeza ele proporcionou uma das maiores experiências que tive na minha vida profissional, um verdadeiro contato com um pensador original. Foi alegria naquele sábado, é tristeza agora com sua perda. Um apaixonado pelo Brasil e de um modo muito especial por Lima Barreto.
 
Obrigado, Professor por ter dado vida à outras vidas.

Nicolau foto para Alice[1]

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