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Arquivo mensal: outubro 2014

Conversas distintas que tive nessa semana pré eleição 2014 com amigos me trouxeram lembranças de dois pleitos:

1989 – Collor eleito Presidente da República
1992 – Maluf eleito Prefeito de SP

Foram duas eleições emblemáticas, duas eleições onde a bílis, o ódio, o sentimento de negar foi muito maior do que o de afirmar.

Em 1989, Collor foi o primeiro Presidente eleito de forma direta após a ditadura. Em 1992, Maluf foi eleito o sucessor de Luiza Erundina, uma mulher petista e nordestina, que governou a cidade São Paulo.

Na semana em que Collor foi eleito a TV Globo fez duas grandes intervenções, a primeira foi veicular reportagem atribuindo ao PT ligações com os sequestradores do empresário  Abílio Diniz. 

Na sexta feira antes da eleição, promoveu debate entre Collor e Lula e, posteriormente, manipulou a edição do mesmo no JN de sábado beneficiando Collor.

Collor, foi eleito com muita gritaria e um sentimento de revolta (!?), tempos depois foi deposto com o mesmo sentimento de revolta e gritaria com o adendo das camisas pretas. 

O processo de impeachment foi uma extensão da decisão e dos motivos que o elegeram, um ato único

Os eleitores malufistas espumavam ao falar o nome da, então, prefeita petista. Maluf, segundo os eleitores dele em 1992, colocaria a cidade de São Paulo nos prumos, de onde fôra retirada pela forasteira nordestina, Luiza Erundina.

Maluf eleito, cometeu a gestão que sempre prometera (patrimonialização, obras estapafúrdias, descalabro) e prolongou a catástrofe ao eleger seu sucessor, o obscuro Celso Pitta. Após sua gestão “redentora” Maluf nunca mais seria eleito para cargos majoritários, o legado malufista hoje foi capitalizado pelo PSDB.

Um adendo: a eleição de Maluf aconteceu pouco tempo depois do impeachment de Collor e foi coroada por outro fato grave no seu contexto, o Massacre do Carandiru, patrocinado pelo herdeiro de Quércia, o Governador Antônio Fleury Filho. Tempos sombrios.

Maluf e Collor foram eleitos, entre outros motivos, por um sentimento antipetista. Hoje, ironicamente, os dois mastigam um ostracismo, são figuras menores e se atrelaram à base de sustentação do governo petista de Dilma.

Mas por que me lembrei disso?

O furor, o ódio, o sentimento de excludência, o antipetismo estão presentes no semblante e nos motivos dos eleitores de Aécio nesse 2014. Dessa forma lembram muito os eleitores de Collor em 1989 e de Maluf em 1992, com as devidas proporções guardadas. O mesmo toque de irracionalidade paira sobre a decisão.

Pergunte a um eleitor aecista por que ele opta pelo mineiro. Perdigotos, olhos estalados e grunhidos serão entremeados por frases de ira contra o PT, Lula, Cuba, Venezuela e o comunismo. Sobre o Aécio e suas propostas pouco se fala. E eles o querem Presidente.

Aécio 2014, Maluf 1992 e Collor 1989 são políticos diferentes, suas plataformas idem, mas atraem o mesmo tipo de eleitor, um eleitor que nega, que não suporta, que detesta, que muitas vezes renega a própria democracia, e que nesses 25 anos de vida democrática, seja ele votante neofito ou veterano, não conseguiu construir uma alternativa afirmativa para esse sentimento incômodo.

Aguardo domingo com o desejo de que a história não se repita em tragédia, que a exclusão não vença a afirmação, para de fato avançarmos.

Dilma 13, não porque eu deteste o Aécio ou seus eleitores, mas porque prefiro afirmar a minha candidata e o projeto de país que me representa.

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A gente tão perto da cidade
e tão longe dela.

João Antônio

Não dirijo, nunca tive carro na vida. Não, não faço parte de nenhum movimento libertário de protesto contra a opressão do trânsito. De início um bloqueio que foi se transformando em convicção, decisões e vacilos me afastaram das quatro rodas.

Andar nas ruas, nos coletivos (onibus, trens, metrôs) tem suas vantagens. Você ouve de um outro jeito as coisas. Você consegue, perceber, olhar alguns detalhes que a lógica dos vidros fechados não permite. As palavras chegam sem tantos filtros.

As ruas muitas vezes falam de maneira íntima, amíude. Elas amplificam os detalhes de uma maneira que só palmilhando calmamente entendemos seus recados. As travessas, esquinas, praças, vielas, pontos de ônibus reclamam sempre um dedinho de prosa que seja.

É tempo de eleição, antes de nos tornarmos panfletos da repetiçao, que percamos um tempo, mesmo que seja curto, para registrar, entender e dialogar com o que diz as ruas.

O coletivo que vive em assembléia permanente.

abril2 012

A nova técnica de desqualificação da política e de se acomodar bem no tradicional muro é afirmar: “o debate eleitoral está histérico, a baixaria tomou conta de tudo.”

Pois então, fica muito fácil dizer isso sem especificar a baixaria, sem confrontá-la com a realidade.

Coloca-se todos genericamente na mesma panela e se assume o papel de “não faço parte dessa corja”. O muro blasé da distinção.

Ataques baixos na política têm origem e qualificação, para fazer politica e participar de debates você tem que assumir posições, geralmente elas são questionadas e ferem interesses alheios, podem ser rebatidas, reiteradas, desmentidas.

O mundo do relativismo e da isenção protege, mas o mundo real é o mundo das opções.

Dia 01 de janeiro alguém assumirá o posto de Presidente(a) da República não há como passar por cima disso.

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A era lulodilma gerou uma fonte produtora do “ódio de classes”. Literatura ruim, jornalismo ogro, biografos mentirosos, xingamentos direitistas das redes sociais. 

 Toda a barulheira gerada é tão somente para dar ênfase ao inconformismo e aos interesses contraditos de uma parte da sociedade que não tolera um governo que ousou, ainda que minimamente, inverter prioridades históricas. 

A necessidade de que mais pessoas aderissem a este ódio só poderia gerar a propaganda ideológica de que o governo prejudica o Brasil e seus indivíduos, os aspectos positivos são ignorados.

O resultado é reprodução de um discurso que, em geral, não cabe muito na realidade das pessoas, uma indignação superficial, uma razão que não resiste a um ou dois questionamentos.

Seria hipocrisia dizer que Lula, Dilma e seus governos não falharam e que toda a crítica que se faz a eles é falaciosa e panfletária. O fato é que em meio a tanta mentira e ódio gratuíto, as críticas objetivas e consequentes se perdem. O debate Brasil morre em bravatas, lamentações e narrativas empobrecidas.

olhos-vendados

Dizem que o Lobão anda com medo da ditadura bolivariana e que se sente perseguido pelo lulopetismo. Tanto as suas denuncias como sua percepção da realidade carecem de averiguação e confirmaçao,claro.

Eu acho que pessoas como o Lobão são um bem para a democracia, devemos mantê-lo perto e é um absurdo que ele saia do país. Temos que estimular a diversidade ideológica.

As razões que ele tem para se sentir perseguido podem ser tanto de caráter político (a ser comprovado) como psíquico (também a ser comprovado).

Fica Lobão, o Brasil está aperfeiçoando a democracia e também os tratamentos psiquiátricos.

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“O grande sociólogo britânico Michael Young foi o primeiro a falar nos anos 60 da meritocracia, que é um velho ideal dos séculos XVIII e XIX. Young definia como um pesadelo todo país que fosse governador pela meritocracia. E é um pesadelo porque, neste caso, ninguém teria direito a protestar contra as diferenças. Se todas as diferenças estão fundadas sobre o mérito, aquele tem uma condição inferior a tem por culpa própria. Trata-se então de uma sociedade onde a crítica social não teria mais lugar.”

Pierre Rosanvallon – cientista político francês (em entrevista a Carta Capital em 2012)

Quando o candidato Aécio Neves fala de meritocracia como o melhor critério para gerir a maquina pública e avaliar servidores, o primeiro argumento (inclusive da esquerda) é que ele não tem mérito para defender tal formato.

Na minha opinião esse é o menor problema na fala de Aécio. Ora, será que a tal meritocracia é critério para avaliar indivíduos ou grupos dentro de uma sociedade calcada na desigualdade?

O critério de mérito não tende a privilegiar os indivíduos e/ou grupos que possuem melhores condições de vida e estrutura? A esquerda concorda com o critério de meritocracia?

Acredito que antes de contestar o mérito de Aécio, é preciso contestar o conceito de “mérito” usado para não cairmos em mais uma armadilha: a de jogar com as regras erradas um jogo que de saída nos prejudica.

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O que diferencia Xico Sá de Eliane Catanhede?

Além das óbvias diferenças de gênero e características físicas, parece que o lugar onde ambos trabalham tem critérios diferentes para tratá-los.

Eliane Catanhede declara há mais de 10 anos o voto diariamente em sua coluna. Claro que não tem eleição todos os anos, mas ela construiu todo dia o seu voto de oposição aos governos Lula e Dilma, seu tucanismo é explicito e atuante.

Xico Sá, no último final de semana, ficou de saco cheio e declarou em sua coluna o voto em Dilma Roussef, foi censurado e pediu o chapéu.

Folha de São Paulo, a pluraridade para o lado que convém.

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