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Arquivo mensal: março 2015

Ver São Paulo novamente me castigou. Alterei a rota diversas vezes nos últimos anos para não rever a cidade. Não se trata de tristeza ou pânico, apenas não quis estragar a última sensação. Rever Sampa representava voltar a bobina, repassar a vida no instante de maior gozo.

Eu nunca entendi o Nove de Julho como viaduto, sempre olhava aquela calçada grande sem prestar atenção aos seus limites, as escadas e a Avenida lá embaixo. Foram trinta e dois anos de ausência. Bonito com seu desenho de calçada, bonito com sua vista privilegiada para os dois lados da Nove.

Passei três décadas desfazendo uma história. O que não quer dizer que anulei minha vida, meus fluxos foram acontecendo, mas em vários momentos do dia acendia a luz interrompida. Voltar era afirmar a interrupção, era dizer que houve um divisor, encarei.

O trecho de Sampa que começa na Consolação e termina na Sé.

Afirmei então o intervalo, um intervalo onde viviam muitas vozes, desejos, vontade maior de mudar fatos já passados, de alterar a sequência das coisas, de sentir novamente a possibilidade de recomeçar, de ir ao começo.

Subi os degraus gastos, o elevador continuava aquela caixa suspeita, ignorei e subi os dois andares da escada com os degraus gastos. Apartamento numero vinte e cinco. A porta, claro, não era mais aquela maciça, marrom escuro, não tinha capacho na porta.

Descrever os passos da escada até a porta do vinte e cinco é voltar lentamente ao tempo que Elton John usava óculos enormes e se despedia da “escada de tijolos amarelos”, é sentir novamente o cheiro de bife acebolado, hoje agora.

O tempo não ensina nada. Não adianta pensar cinematograficamente que naqueles dez ou onze passos eu poderia lembrar tudo, músicas, cheiro de comida, palavra por palavra, alegrias, medos, arrependimentos, as conversas todas, novos passos não preenchem o passar do tempo.

Pensei, pensei, no vizinho que gerava desconfiança, que encontramos poucas vezes no elevador, cabelo ensebado, terno escuro, olhar perdido ao longe, silencioso, o que era mais expressivo eram seus passos firmes no corredor nas madrugadas, quase todo dia. Não me parecia ter gente assim, hoje, no apartamento vinte e três.

Do oitavo passo já pude ver a campainha que antes não existia, um vaso com planta verdinha, o escuro do corredor sem luz não me deixava discernir a planta, talvez, aquela fresta de sol que fazia desentoar a penumbra do corredor me ajudasse, mas não me importava a planta, isso era só para aumentar a desatenção, estava em frente do vinte e cinco.

Sem a mínima vontade de apertar a campanhia que há três décadas não era aquela, era outra, lembrei do Gil cantando que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”, furamos juntos essa faixa do Refavela. Não apertei a campanhia, insisti no fato dela não existir assim há três decadas. Um gosto enjoado chegou à boca, de covardia, azedo como vômito que vem indomito.

Parei ali em frente ao vinte e cinco. Lá embaixo a Nove de Julho ostentava o triplo de carros que havia há três décadas. A cidade mudou, os barulhos pareciam os mesmos, apenas triplicados. Poderia ouvir Elton ou Gil, pois não sou apenas eu que vivo coisas retrô, as pessoas revivem, mas o corredor era silêncio apenas quebrado pelos barulhos da Nove.

Não fazia sentido ficar no corredor esperando sons, gostos, barulhos que não existiam mais, e tocar aquela campainha nova que antes não existia. Vacilei para voltar dez, onze passos para trás, não eram apenas eles, eram os passos somados a três decadas, difíceis de ignorar. Voltei lentamente. De novo a escada de degraus gastos e rápido a rua. O Viaduto da Nove.

Bonitos os gomos da calçada, preto e branco, desenhando o fim de tarde, agora sem sol, passei muitas vezes ali, agora parecia adeus, com os sons amplificados da Nove de Julho, lá embaixo, mas não eram esses sons que dominavam, nem os tijolos coloridos de Elton, tampouco o melhor lugar do mundo do Gil.

Um violinista no meio do Viaduto, tocava baixinho, o que pareciam notas desafinadas, o meu julgamento musical não era generoso, pois era um julgamento de ocaso, de adeus. Perfeito. O violino do músico de rua, os trinta e dois anos. O final perfeito, uma despedida jamais feita.

Difícil, difícil. A bola corria muito, eu olhei zonzo para um lado e para o contrário. Fiquei um tempo se entender. O companheiro do lado gritava no meu ouvido:

– CÊ TÁ BEM, MANO? 

Eu não entendi. Claro que tava sol, claro que a poeira cobria tudo naquele final de semana pós carnaval. Ressaca de todos, faltaram dois. Um deles o quarto zagueiro. Lá vou eu o volante, recuar, completar a zaga.

– Você fica na sobra, o Anderson dá o primeiro combate, ele é mais leve – quem dava a letra era o técnico Dirceu, veterano que jogou em time profissional.

Na primeira bola eu espanei feio, chute mascado, para trás, que nem chegou a sair pela linha de fundo. Fui atrás do prejuízo, rasgando, poeira grossa, carrinho disfarçado, completei, escanteio pros caras. Não deu nada.

A bola vinha pouco, dez, quinze, trinta e cinco minutos. Fizemos um, o Robson, sempre ele, guardou, apesar dos olhos vermelhos e da noite mal dormida ou por causa disso.

Jogo ruim. A cabeça gira, as contas, faltam 14 prestações para saldar a moto, o trampo que não aguento. Dias, dias, de rotina, o futebol é o enredo que arrumo no domingo. Distrai.

Bola rápida pela direita. O grandão de camisa azul sobrou sozinho, desajeitado. Poeira. O Anderson já rodou, vou eu. Pique. Vou na bola, no cara? Cheguei. Subiu mais poeira. Sangue na boca.

O companheiro que gritava no meu ouvido era o Duda sempre parceiro. Eu tava no chão. Sangue na boca, pedacinho do dente quebrado. Um cara de azul pulou por cima de mim pra gritar gol não sei com quem no canto direito do campo. 

Errei o tempo, passei batido, poeira, cotovelo, o grandão saiu liso e bateu seco. Não teve jeito. Foi falta, não foi, gritaria, empurra empurra, várzea. Acabou. Nunca mais quero recuar pra zaga.

Saí da poeira. Volta pra casa, aquelas ruas eu conhecia de moto, a pé, vida inteira ali. Vinte e três anos. Errei, mas tem jogo no outro domingo, o dente eu arrumo na terça.

  

Inezita Barroso morreu à véspera do dia da Mulher. Foi uma mulher valente, criadora, multiplicadora, ativa. Filha de elite quatrocentona paulista, conviveu com os caipiras, com o povo, se interessou pela cultura popular, sem o olhar do vampiro colonizador.

Se misturou bebeu a marvada e cantou, cantou muito junto com o povo. Inezita era bibliotecária (honra ser seu colega), mas antes de tudo era uma grande fomentadora, divulgadora e criadora da nossa cultura e do nosso patrimônio cultural.

Gravou oitenta discos, perambulou pelo Brasil (à luz do mestre Mario de Andrade) cantando, pesquisando e se encontrando com os nossos griôs, com os autores desconhecidos e fez uma obra de obras.

Viva Inezita Barroso, viva o Brasil que pulsa, que cria, que inventa e se reinventa. Viva a Mulher Inezita, honra de todos nós, ela representa a antítese do Brasil que odeia o Brasil.

Ignez Magdalena Aranha de Lima (São Paulo, 4 de março de 1925 — São Paulo, 8 de março de 2015 ).

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