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Arquivo mensal: abril 2015

Desde cedo minha apreensão maior no dia era saber se abriria sol. No meio das nuvens torcia, torcia para o sol aparecer. As 5:30 estava na porta da distribuidora. Tomava um café e esperava. Sabores.

Morango, Abacaxi, Limão, Uva, Nata, Chocolate. Calculava os gostos, a preferência do povo e o olho no céu. Nuvem, sol. Algumas manhãs eram fáceis. O sol vinha firme. Dia ganho. Calculava. Meia duzia do sabor limão a mais, ao gosto do cliente.

Quando era menino seguia meu pai. Peregrinação na Zona Norte. Avenida Itaberaba, Avenida Inajar, as ruas pequenas todas, o bairro. Gostava quando ele descambava pelo centro, atravessavamos a ponte. Barra Funda, Parque da Água Branca, Avenida São João, novidade.

O gosto do sorvete de uva era enjoado, meu pai sempre dava um sabor diferente, lá pelas onze, onze e meia. Calor. Com o tempo deixei de pedir, mas ele cumpria o ritual, tirava o sorvetinho do papel fino, desembrulhava, eu olhava aquele naquinho de gelo colorido, eu lembro do gosto enjoado da uva.

Um dia meu pai reclamou da perna. Nas Clínicas, muito tempo esperando. O médico com o olho em outro lugar disse que era trombose. Aquela palavra mudou o rumo da minha vida, da vida da família. O menino cresceu. Com pouco tempo eu assumi o carrinho, calculava os sabores, os valores e aprendi a olhar as nuvens, todo dia

O tempo…

No inverno me virava com outros bicos. Afundava o pé no extremo da zona norte, ajudava um primo no boteco, no almoço prato feito, comercial, flertava com moça da cozinha, sempre ágil, bonita. Namorei, casei. Passava rápido. E sempre o sorvete. Voltava pra rua com o tempo quentinho, mas casei no inverno.

Conheci outros sorveteiros, o Beca teve equipe de som, dava baile, gostava de música americana. Era engraçado, contava histórias de conquistas (no passado),  dos bailes inesquecíveis, das noites em claro. Disse que não ouvia música “nova”, que o rap tinha acabado com os bailes. Agora não cuidava dos discos, era mais um preocupado com as nuvens.

Meu primeiro filho se chama Luis Antonio. Nasceu numa terça de sol.  Divido os dias entre os de sol e os de nuvem. Simples. Os de chuva ficam no esquecimento. Já sai com chuva molhando o carrinho, teimoso. Se vendo três, quatro sorvetes é lambuja. Luis Antonio nunca ligou pro carinho, enveredou na bola e no computador. Se vira, joga, trabalha.

No galpão, no meio das geladeiras, ficava o Benê. A tosse seca não se sabe se do cigarro ou daquela friagem. Capa azul surrada e o maço de Plaza. Com ele o negócio era rápido, tantos sorvetes, tantos sabores,  tal valor, piadinha rápida, cálculo de lucro rapidinho e rua.

No domingo acordei cedo, fui no galpão peguei os sabores, bati perna rápido. Lembrei do pai, das conversas nas longas caminhadas. Atravessei a ponte, um aperto. O gosto de uva. E a vida que passa nas ruas. Rumei para o Centro, Avenida Barra Funda…

…o Minhocão fechado para os carros, gosto de ficar ali. As pessoas se divertindo, correndo, as famílias, bicicletas. Fico calmo. Às vezes um de limão, chocolate. Um dia de nuvens, mas proveitoso.

 Sentei, comigo as lembranças, um dia a mais empurrando o carrinho. Vendi bem, poderia ir embora. Não fui. Fiquei ali olhando o tempo. Não tava esperando o sol, nem cliente. Um aperto, aqueles prédios ao lado me olhavam. Serenei. O gosto de uva.

 

Eu perguntei  se o que ouvia era uma chuva inspiradora. Sem resposta. O silêncio permitiu ouvir as gotas caindo em algum teto vulnerável. Mudou de assunto.

Tinha assunto, bastante. E contou das provas que deveria já ter corrigido, da mudança de carreira, velhos dilemas. Eu ouvia. Ofegante, procurava acalmar a voz, ouvia as gotas de novo. Era quase dia. Nos falavamos ao telefone.

Telefone fixo não era sem fio. Ao menos o meu. Eu contorcia o corpo na poltrona.  Jurava que horas depois entraria em algum magazine e resolveria o impasse. Poderia finalmente andar pela casa, sem fio.

Naquela noite/manhã o assunto esquentava em algo parecido com briga. Acerto de contas. Se estivessemos ao vivo, sem fios e ondas separando, estaríamos enroscados, balbuciando coisas ininteligíveis. À distância é o verbo que esquenta as coisas.

Não era noite nem era dia, nos silêncios o barulho das gotas ficou mais intenso. Chuva inspiradora. Nem precisei mais da resposta. Ela prosseguia com a récita e dava zelo a uma narrativa séria sobre o futuro. Eu, preocupado com a trilha sonora.

– …quantas músicas que você lembra que falam de chuva?

Silêncio. Entrou um raio de luz na sala, mudou o tempo. O sol era generoso com a minha sala. No meio do dia aquele sofá desajeitado ficava banhado de luz. O dia seria daqueles quentes. Eu ainda ouvia a chuva do outro lado nos intervalos, nos silêncios.

Perguntei que horas eram. Ela disse para fazer conta, afinal eram três horas de fuso. Tentei. Parei, pois não sabia nem que horas eram onde eu estava. Procurei enredar a conversa para o meu lado. Um reencontro. Virou temporal, o barulho da chuva do lado de lá chegou quase a encobrir a conversa.

E veio a estiagem. Depois de horas de conversa e de sofá desconfortável consegui arrancar um sorriso e uma frase leve. Falou, relaxou, até considerou um reencontro. Soberana, andava pela casa com o telefone sem fio. Imagino que nua. Ela disse que olhava pela janela, já era dia, e que a cor da chuva no chão da praça era bonito.

 

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