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Arquivo mensal: janeiro 2016

Ela insistia em usar as palavras em inglês no meio das frases. Falava alto, ria com enfase, chamava a atenção pelo exagero, mas era doce, doce o tempo todo. A diferença de idade não era tanta, o que fazia diferença entre os dois, eram os cuidados cabelos tingidos de preto e as sobrancelhas grossas e marcantes que ela ostentava em contraste com os cabelos brancos dele:

– Vamos fazer um happy hour hoje? – sorridente, ela pedia com uma graça que não cabia nunca um não, se impunha aceitar sem muita polêmica.

Ele sorriu com o pedido na primeira vez, estranhou.  Não sabia o que era happy hour, se acanhou. Defendia algum no inglês, mas não sabia o que significa aquela “hora feliz”, apesar de tão simples.  Aceitou o convite com leveza, vindo dela o “happy” só podia ser bom. E não cansava de pensar que era mesmo bom.

Começou a entender melhor o termo quando foi na casa do filho mais velho, Fernando e o neto, Pedro, o ajudou a fazer a busca no google, rapidinho digitou “Happy Hour”:

– “Happy hour”, vovô – os dedinhos ágeis de sete anos e já muitas horas de games e internet revelaram:

“Happy hour (em português: hora feliz) é o nome dado à comemoração informal feita, geralmente por colegas de estudo e trabalho, após a execução de alguma tarefa ou ao fim de um expediente. Tais comemorações são comuns em várias partes do mundo e em grandes cidades no Brasil.”

Quando leu a definição da Wikipédia, sorriu, como sorria sempre quando se deparava com algo que o constrangia. Era tudo muito doce nela, as ofertas, os pedidos, os cabelos cuidados, a atenção que lhe dava, amável, até aquele constrangimento que causava,  mas onde cabia o happy hour?

O que o constrangia era que há alguns anos ele não trabalhava, aposentado. Estudar já não lembrava quando parou. Forçando a memória: se formou contabilista no final dos anos 60. Trabalhou muito, com números, teclas, noites de planilhas, colunas e legislações. Acomodações de números alheios.

Num breve momento de retorno ao estudo, no começo dos anos 80, ele fez um curto curso de fotografia. Comprou câmera, leu o manual, mas desistiu logo por não acreditar no seu olhar. Compunha melhor números do que imagens.

Sem estudo e sem trabalho há anos, onde de encaixava a happy hour?  Sobrava toda aquela doçura dela para amparar o termo.

Atinou que a  “happy hour” proposta pela sua companheira era uma interrupção solene nas solidão de suas tardes e então se justificava. Um momento de romper rotina, de tirar o tempo do lugar que o tempo legou. Era bom inventar esse tempo feliz para justificar a sua happy hour.

Happy hour sempre às quintas, fim da tarde, na Galeria da 24 de Maio, centro. Nunca perdera o costume de andar por aquelas ruas. Ali morou anos, no auge dos saudáveis trinta anos.

Nessa época andava sob as luzes dos cinemas da São João, bebericava em bares simples, via gente de todo tipo passar rumo a Patriarca, Praça Ramos, para ir para todo lado. Voltava ali agora anos depois, naquelas tardes do seu ocaso.

Merecia essas horas felizes e todas as demais que restassem. Parava defronte aos lábios sorridentes que falavam as frases em inglês e aquilo tudo fazia sentido. Não tinha mesmo que justificar a falta de fim de expediente para fruir aquela happy hour.

A cerveja gelada dele e o campari docinho com gelo dela. O tempo consumido e um certo torpor que dava calor e alento. Na segunda garrafa as tensões passavam, ela sorria e falava cada vez mais alto as frases que o remetiam a outro tempo.

Talvez, a diferença de idade e o alcool criavam essa euforia. Mas não era tanta diferença assim, nem tanto alcool e nem precisava tanta justificativa assim.

Naquela tarde/noite as ultrapassadas lentes fotocromáticas  escureciam seu olhar agravando mais ainda a sua fragilidade de compor imagens, mas não escondiam a satisfação do seu sorriso, ele ainda podia ler seu mundo com clareza e aquele tempo era bom. O cheiro adocicado do campari. Happy hour.

Em 2013 houve uma bateção de cabeça em ilações, teorias, especulações sobre as manifestações. A rua de direita, esquerda, legítima, distorcida, niilista, anti Dilma, etc. Entre louvações e desqualificações não se concluiu até hoje o que de fato ocorreu.

Três anos após e estamos novamente olhando para o mesmo fenômeno com uma diferença: a violência do Estado está mais organizada e dentro do seu padrão discricionário e repressor, mais eficiente.

A mesma espetacularização que ocorria em 2013 acontece agora, com a diferença que a medida da violência aumentou, a PM reprime as manifestações no seu início e com muito incisividade, os registros da repressão parecem se banalizar como adereços, as imagens, vídeos só confirmam o roteiro.

Por que a repressão aos jovens manifestantes do tarifa zero não causa a mesma repulsa da sociedade como causou a violência cometida com os estudantes da escolas ocupadas no ano passado? O brilho da resistência dos secundaristas, a sua vitória, não pode se perder no desvairo da pancadaria e da supressão de direitos.

Para o cidadão médio o Governo do Estado saiu novamente da condição de algoz para salvador, a PM é o fator de equilíbrio contra os vândalos, Haddad é o causador do mal de origem porque aumentou a tarifa, a iniciativa privada submerge.  Alckimim novamente voltou a sua invisibilidade contumaz. Roteiro perfeito.

O que fazer? Ficar culpando os black bocs? Desqualificar a causa da tarifa zero? Buscar uma negociação? Se for assim com quem negociar? Dar o status de normalidade à agressão do Estado a cidadãos que vão às ruas protestar?  O que não se pode fazer é deixar a coisa se alastrar como espetáculo onde o benefício maior é daqueles atores que pouco aparecem.

 

“Sons of the silent age
Stand on platforms blank looks and no books”

Os anos passam e de repente, 49, ontem eu postei aqui uma música do Paddy McAloon (ex-cantor do Prefab Sprout) chamada “I”m 49”, porteira dos cinquenta, fronteira.

De manhãzinha fico sabendo que David Bowie faleceu aos 69 anos, contemporâneo e presente nos meus quarenta e nove.

São vinte anos de saldo, com essa vantagem o rapaz de Brixton preparou uma trilha sonora para vários momentos da minha vida.

Tive privilégios, poderia montar vários set lists emotivos e vibrantes, reverenciar e referenciar, acredito não ser necessário.

Fãs, atentos, fanáticos, haters, indiferentes, a maioria das pessoas deve ter a sua música de Bowie para citar, desnecessário o exercício de erudição pop em plena era liquida.

Teóricos afirmam que David Bowie calculou a sua carreira, as mudanças, as declarações, os visuais, ziggy statdust, thin duke. Plausível.

Caprichoso, ele faleceu poucos dias depois de ter lançado um álbum (no seu aniversário de 69), causado barulho e uma “premonitória” onda de lembranças e retrospectivas na mídia e nas redes sociais.

Resumo o Bowie que carrego nos últimos tempos com uma canção nada nova, 1977. O Bowie dos meus dias que fala tanto dos nossos dias. Valeu!

 

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