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Arquivo mensal: março 2016

O excesso de informação muitas vezes nos priva de duvidar, nos enche de uma certeza ignara, monolítica, insensível aos silêncios e respiros.

Nos iludimos com a “informação vasta e plural”, que não deixa espaço para o tempo e outros tempos chegarem em nós.

Aproveitar o dia para nos desinformar, para despirmos as vestes da arrogância de um pretenso saber e nos entregarmos à nudez saborosa da dúvida.

Creio que os nossos mediadores de leitura estão em toda parte. Perceptíveis ou não perceptiveis.

O meu melhor mediador de leitura foi meu pai que me contava histórias dos fundos das Minas Gerais, e que, sempre tava ali por todos os cantos da casa lendo, marcando a minha vida visualmente.

A imagem do pai leitor e curioso se congelou no tempo, ainda hoje olho ao lado e ela tá lá renovada.

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Vivi minha adolescência na ditadura civil militar. Tinha dezenove anos em 1985, início da abertura.
A música que pra mim melhor representou o clima daquelas tardes cinzas dos anos setenta foi “Cais” do Milton Nascimento.

Os anos passaram e a pequena canção ganhou mais beleza e o lado sombrio foi desaparecendo. Nos últimos dias ela passou a soar como antes. Tenho ouvido muito “Cais” até em pensamento.

Nesta versão da velha canção do Bob Marley se juntaram duas figuras tão diferentes, de universos antagônicos, mas com uma proximidade essencial.

Cash, um cara duro, conservador, muitas vezes irascível, um compositor e intérprete visceral. Strummer, à esquerda, desde sempre no olho do furacão entre e a indústria e a independência possível, catalisador dos sons do mundo.

Redemption de Marley com Strummer e Cash, pode ser uma boa bussola para o momento conflitivo, para a necessidade de busca mútua, de compreensão do diverso. Um som por dias menos aflitivos.

Won’t you help to sing
These’s song of freedom?
‘Cause all I ever have
Redemption songs
Redemption songs
Redemption songs

Uma sombra na noite. Tive essa sensação ao voltar a pé do Tuca (Perdizes) até a Consolação hoje. O barulho dos helicópteros, buzinas, bandeiras do Brasil despencando dos carros, não eram muitos, mas cruzavam o caminho, deixando manchas e ruídos. 
Como conversar, como estabelecer um diálogo com manchas e ruídos? Ultrapassa a questão de concordância ou discordância, porque não há pauta visível, não há mote possível

São ruídos e manchas que pertubam, deu saudade de um passado recente, onde o diverso era aceito, virava galhofa, às vezes briga, mas passava, tinhamos o conforto do momento seguinte quando a ira silenciava.

No momento, a coisa leva o jeito de um ruído intermitente, de panelas, de bravatas e urros de ódio, assusta. Segui como sombra na noite no caminho longo, que parecia mais longo da Monte Alegre ao Baixo Augusta.

Sinto como nunca o alívio do silêncio.

  

Para quem pensa que a fritura de Aécio é presságio de mudanças e equilíbrio nas investigações, opino: é o script traçado, não muda virgula, é a lei de talião substituindo a política, parte de um espetáculo previsível. 
Quem é do aplauso, aplauda, quem é do choro, chore, quem é do escárnio, escarneça. Eu, lamento, não pelo Aécio, claro, mas pela política, aquela mais elementar, aquela que funciona como ciência de organização da pólis, como possibilidade de mínimo diálogo entre os contrários.

  

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